Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 25 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo vinte e dois

 

– Nós vamos para uma fazenda agora! – Zoe contou animada para Hari.

Às vezes ela se sentia como se Hari fosse cego, como se ela estivesse narrando o mundo para ele.

Por outro lado, era muito difícil saber o que ele entendia e o que não entendia, de que ele gostava e de que não gostava. Isso era bastante claro. Mas, fora isso, ela vivia simplesmente preenchendo lacunas. Ou, como as pessoas costumavam dizer, o que era uma crueldade sem tamanho: “Ah, que bom pra você, uma criança quietinha, quem dera a minha fosse assim.”

– Vacas, ovelhas, galinhas! – acrescentou ela quando uma galinha de fato parou bem na frente do pequeno automóvel e ficou imóvel, fixando os olhinhos pretos neles como se fosse um guarda rodoviário.

– Olá, Sra. Galinha – disse ela ao abrir a porta. – Podemos passar?

A galinha não se moveu. Zoe tirou Hari do carro com cuidado.

– Hum, olá? – gritou ela.

Lennox não teria respondido nem se estivesse em casa – nenhum fazendeiro pode ser encontrado em casa durante o dia – e Nina estava, infelizmente, em sono profundo. Ela havia levantado às 4h20 com Lennox e feito chá para ele enquanto ele saía para ordenhar as vacas – a manhã estava congelante e ele ficou tão contente com a gentileza dela que ela ficou feliz por tê-lo feito.

Infelizmente, o barrigão de grávida a tinha deixado um tanto exausta, então também preparou uma xícara de chá para si mesma e levou para a cama, apenas por alguns minutos, só até ele voltar, só algumas páginas de Emma…

E então pegou no sono imediatamente e sequer se mexeu quando Lennox entrou de volta no quarto, tomou banho, se trocou e saiu de novo para ver o que os rapazes estavam fazendo no prado de baixo e por que não estavam fazendo mais rápido.

Lennox tinha olhado para ela deitada ali, com as bochechas rosadas, sonhando e absurdamente enorme – toda vez que ele pensava que ela não poderia ficar ainda maior, ela parecia ficar maior –, sorrido para si mesmo ao pensar em como adoraria voltar para a cama e se aninhar no pescoço dela, então se sacudira e fora procurar suas ferramentas para mexer na parede de drywall.

 

Zoe estava parada sozinha no quintal lamacento da fazenda, sendo encarada por uma galinha malévola, com Hari olhando ao redor como se ela o tivesse levado para a Lua e sentindo-se ludibriado.

Por fim, ela convenceu Hari a atravessar a lama com suas novas galochas amarelas (um presente das amigas da antiga creche) para que eles pudessem dar a volta na galinha, que continuava a encará-los desconfiada, virando a cabeça ao extremo enquanto eles se moviam de mansinho. Por um momento Zoe se perguntou se a galinha tinha ficado presa na lama.

A atenção dela logo foi capturada pela van azul que a tinha buscado na noite anterior. Não somente um trabalho, pensou ela, um tanto pesarosa – dois!

À luz do sol, o automóvel era bem fofo, um micro-ônibus vintage pintado de azul-claro.

Zoe tentou abrir as portas de trás, que estavam destrancadas, e as escancarou. Então ela arfou.

Era realmente extraordinário quantas coisas se podia colocar dentro de um lugar que não parecia tão grande de fora; era como uma TARDIS de livros.

Olhando para a frente, primeiramente, os degraus entre os pneus se desdobravam para receber as pessoas, embora também houvesse uma rampa que Nina usava para cadeirantes e carrinhos de bebê quando necessário, bem como para levar caixas de livros para dentro.

Um lado era ficção; o outro, não ficção. O canto do fundo à direita estava tomado por almofadas de cores vivas e tinha uma pequena mesa; era a área designada para crianças.

As prateleiras de um azul intenso tinham uma corda no meio para segurar os livros quando a van fazia curvas e, na frente, parafusado na porta, havia um pequeno armário para suprimentos, sacolas de papel, a caixa registradora, o leitor de cartão e uma pequena cadeira para quem quer que estivesse atendendo.

Havia mais prateleiras altas construídas para o estoque no fundo da van e um pequeno candelabro lindamente entalhado, com cabeças de cervo dependuradas nele, no meio do teto. No chão da van havia vários tapetes persas que Nina precisava aspirar todos os dias e estava ansiosa para não precisar fazê-lo.

Havia um intervalo entre a parte principal da van e o teto, que contava com pequeninas janelas para que pudesse entrar a luz, que também entrava pelas portas abertas. Todo o lugar era bastante encantador.

Zoe entrou na van, enquanto Hari corria diretamente para a seção infantil no fundo, com os olhos arregalados.

– Não! – alertou Zoe. – Querido, você não pode tocar nos livros. Não pode. Eles estão à venda; não são para você. Eu leio um livro pra você hoje à noite.

Ele olhou para ela e então, num gesto desafiador, ergueu um livro sobre dinossauros que havia encontrado.

– Ah, está bem, só tome cuidado.

O estoque não era, é claro, imenso, mas, ah, era lindamente organizado, cuidadosamente escolhido para o caso de o leitor estar no clima para um thriller psicológico, ou um grande romance histórico arrebatador, ou um livro moderno sobre política – apenas os melhores dos melhores estavam representados, nem sempre os mais novos, embora houvesse uma boa seleção de obras atualizadas dos dois lados: mas um recorte perfeitamente selecionado dos melhores livros que se poderia encontrar em qualquer lugar. E todos os livros que Zoe amara durante toda a sua vida aparentemente estavam ali.

Havia uma coleção completa em capa dura da série The Chalet School, que sua mãe costumava deixar que ela emprestasse da biblioteca; uma coleção completa dos imaculados romances Shardlake; todas as grandes tragédias de montanhismo pelas quais ela fora obcecada por um período da adolescência; mais obras de Philip Larkin do que se poderia esperar encontrar em uma livraria menor que a sala de estar da maioria das pessoas; e uma grande seção de livros escolares.

O fato de haver tantos de seus livros favoritos ali fez Zoe pensar que qualquer coisa que estivesse na vitrine também seria algo de que ela gostaria, como se a pessoa que administrava a livraria já tivesse entrado em sua mente e descoberto suas preferências. Aquilo também a fez pensar que, independentemente de quão intimidadora tinha achado Nina naquele primeiro encontro (Nina teria ficado surpresa ao ouvir alguém se referir a ela como “intimidadora”), certamente alguém que gostava de tantos livros bons como ela – olha! O guia do mochileiro das galáxias! E O conhecimento dos anjos, de Jill Paton Walsh! E Pat Barker, e Kate Atkinson, e Andrea Levy, e Louis de Bernières e todas as coisas boas – só podia ser uma boa pessoa. Era um conceito bem estranho – que você pudesse se tornar amiga de uma pessoa simplesmente ao analisar suas estantes de livros –, mas, mesmo assim, Zoe acreditava nisso piamente.

Ela pegou uma biografia picante da princesa Margaret e um livro muito bem conservado de Antonia Foster e, silenciosamente, se juntou a Hari em sua pilha de almofadas no canto.