Um novo capítulo para o amor
Capítulo vinte e seis
Zoe não conseguiu acreditar quando entrou na cozinha. Era como se ninguém tivesse se mexido o dia todo. O lugar estava uma bagunça. Shackleton estava grunhindo com fones de ouvido na cabeça e jogando num Xbox velho todo sujo de comida em alto volume. O palavreado dele era… colorido. Mary estava gritando por causa de alguma coisa no celular e Patrick estava lendo algo em seu tablet em um tom de voz tão alto que quase superava o barulho dos outros dois. O rádio também estava ligado em um volume torturantemente alto e ela não viu a Sra. MacGlone em lugar algum. Então sua visão clareou um pouco e ela avistou alguém na lavanderia, empurrando para baixo um varal pesado e peculiar no qual as roupas estavam penduradas.
– Hã, cheguei – anunciou Zoe.
A Sra. MacGlone largou o varal com um ruído.
– Graças a Deus – disse ela, colocando o casaco e ajeitando o cachecol e o chapéu.
Nada de “Que bom ver você” nem “Como foi seu primeiro dia?”.
– Como eles estão?
A Sra. MacGlone deu de ombros.
– Não é problema meu – declarou ela, saindo pela porta dos fundos antes mesmo de Zoe tirar o casaco.
– Já vai tarde, sua bruxa velha – gritou Mary, e os outros dois riram.
– Ah, que ótimo – murmurou Zoe, que teria pagado uma boa grana para estar de volta em sua péssima cama, por mais desconfortável que fosse, se preparando para comer feijão enlatado com torradas e se aconchegar com Hari para assistir a Patrulha Canina.
Ela sabia cozinhar – sua mãe cozinhava bem; sendo mãe solo como ela, ela precisava fazer render o pouco que tinham e estava convencida de que sua filha deveria aprender da mesma forma; até, é claro, sua filha ir para a faculdade, começar uma carreira fabulosa e fisgar um homem maravilhosamente rico. Sadie fazia seu melhor, lá da Espanha, para nunca deixar transparecer como se sentia triste pela situação de Zoe. Porém ela não precisava: mãe e filha se conheciam muito bem.
E ir para a cama, Zoe pensou, não era a forma como Sadie teria lidado com as coisas. Ela teria arregaçado as mangas e dito “Pode vir quente, meu bem, que eu tô fervendo”, exatamente como estava falando naquele exato momento para turistas na Espanha que queriam uma inglesa genuína e ficavam ainda mais contentes quando viam que ela tinha um sotaque genuinamente cockney.
Ela marchou cozinha adentro e começou a fuçar os armários.
Não havia absolutamente nada. Não que os armários estivessem vazios, pelo contrário. Estavam muito bem abastecidos, só que de nada que ela pudesse chamar de “janta”. Havia geleia, muito pão, pacotes de batata chips, biscoitos de arroz. Havia frutas na fruteira e caixas e mais caixas de cereal. Ninguém estava fazendo as crianças passarem fome.
Mas não havia cubos de caldo. Não havia tomates enlatados. Não havia cebola, carne moída, macarrão. Nada que ela considerasse matéria-prima para a janta.
Talvez houvesse outra cozinha? A casa com certeza era grande o bastante para ter duas.
– Hã, Shackleton? – chamou ela, mas ele apenas grunhiu e ela percebeu que deveria perguntar a Patrick. – Patrick, onde está toda a comida?
Patrick olhou para ela.
– Essa é toda a comida que temos, Babá Sete! – respondeu ele.
– Como assim? – indagou Zoe. – O que vocês comem?
Patrick franziu a testa.
– Torrada – começou ele, contando nos dedos. – Maçã. Banana. Salsicha. Manteiga de amendoim. Tomate. Biscoitos de gengibre. Cereal. Ruibarbo. Batata chips. Aipo.
– Não é possível.
Zoe ficou olhando para eles, incrédula. Patrick franziu a pequena sobrancelha.
– Hum – murmurou ele. – E…
Mary revirou os olhos.
– Você esqueceu queijinho cremoso – sibilou ela.
– Queijinho cremoso! – exclamou Patrick, triunfante. – Fim.
Zoe meneou a cabeça, sem acreditar.
– Mas a Sra. MacGlone…
Todas as crianças emitiram ruídos sufocados.
– NUNCA coma o que a Sra. MacGlone cozinha – pontuou Patrick em tom extremamente sério. – É veneno, Babá Sete. Veneno.
– E as outras babás?
– A maioria só chorava.
– Ou simplesmente deixava a gente comer torrada – complementou Shackleton, impassível. – O que não é um problema pra nós. Vamos fazer isso.
Zoe piscou. Por um lado, ela supunha que a dieta deles impediria apenas que tivessem escorbuto. Por outro… Onde é que o pai deles estava com a cabeça?
– Bem – disse ela –, por que não mudamos isso hoje?
– Porque torrada com manteiga de amendoim é bem gostoso, Babá Sete?
Zoe quase perguntou o que a mãe costumava cozinhar para eles, mas conseguiu se conter bem a tempo. Pouco antes de voltar para The Beeches, ela tinha pesquisado enlouquecidamente a família no Google e não encontrara coisa alguma além de uma notícia sobre um evento de música realizado na propriedade dez anos antes. Ela ficou olhando para as fotografias minúsculas, em baixa resolução, por um tempão e pensou ter conseguido identificar uma mulher com um bebê no colo, mas era realmente impossível dizer.
– Bem – declamou ela, arregaçando as mangas –, vamos começar. Vocês têm algum queijo que não seja cremoso?
No fim das contas, ela conseguiu encontrar um peixe no freezer que “o Wilby tinha levado para eles no verão” e que teria de servir, bem como algumas migalhas de pão velho no fundo do armário, umas batatas velhas e moles que podiam ser fritas no óleo e umas ervilhas congeladas, literalmente no fundo do poço – ou, nesse caso, do freezer.
Então ela tentou descobrir como ligar um fogão que parecia meio elétrico, meio a gás e precisava ser aceso com fósforos em um vuf assustador.
– Não vou comer nada disso – declarou Mary, com os braços cruzados.
– Você ainda nem sabe o que é – ponderou Zoe pacientemente.
– Bem, você encostou nisso, então…
– Vou fazer umas torradas – disse Shackleton,
– Não, por favor, não faça isso – suplicou Zoe, ficando com o rosto vermelho. – Acho que você já comeu o bastante…
– Não tô nem aí pro que você acha.
– Por favor, eu vou mesmo querer umas torradas – disse Patrick, e Zoe percebeu, exasperada, que Hari estava parado ao lado dele, assentindo e apontando para a própria boca enfaticamente.
– Ninguém mais vai comer essas porcarias dessas torradas! – esbravejou Zoe, ciente de que o peixe estava queimando de um lado enquanto ainda parecia congelado do outro. O cheiro não era nada bom.
– Ah, então você vai nos fazer passar fome?
– Não acho que vocês passarão fome – sibilou Zoe, concentrando-se.
– Ai!
Todos se viraram quando a figura imensa de Ramsay apareceu à porta da cozinha. Ele tinha batido a cabeça no batente. Zoe piscou. Ele não devia ir à cozinha com muita frequência, já que desconhecia a altura da porta. Ela revisou de cabeça o que tinha acabado de dizer e se tocou de que talvez tivesse ameaçado matar as crianças de fome. Nada ideal. Ele estava parado ali, aparentemente constrangido. E era muito alto – como é que conseguia andar por aí? Zoe piscou. Ela estava sozinha naquela casa com um homem que não conhecia, cuja esposa havia desaparecido, de quem Nina parecia não saber coisa alguma…
– PAPAI! – gritou Patrick, envolvendo os joelhos do homem com os braços. Ele não era uma criança pequena, mas só chegava um pouco acima da altura dos joelhos dele.
– Oi, rapazinho – disse Ramsay, abaixando-se e acariciando a cabeça dele. – O que você aprendeu de mais legal sobre os dinossauros hoje?
– Um dinossauro podia chegar ao tamanho de sete ônibus londrinos – informou Patrick prontamente. – O que é um ônibus londrino?
– É uma longa história – respondeu Ramsay, pegando o garoto no colo. – Oi, Mary – disse ele, indo até a menina e passando a mão enorme pelos cabelos dela um pouco hesitante.
A garota enrijeceu e se esquivou, virando o rosto. Zoe observou.
– Onde está a Sra. MacGlone? – quis saber Ramsay.
– Já foi pra casa – respondeu Mary em tom aborrecido. – E deixou ela.
– Não fale “ela” – reprimiu Ramsay instintivamente. – Diga…
De nada adiantou – ele tinha esquecido completamente.
– Diga “Babá Sete”, na verdade! – sugeriu Patrick.
– Não, também não diga isso – repreendeu Ramsay.
– Desculpe, preciso perguntar – disse Zoe, interrompendo aquela conversa. – O que se come por aqui?
– Eu? Pessoalmente? – perguntou Ramsay, como se ela tivesse perguntado se ele comia grama.
– Bem, todos vocês.
– Ah – disse Ramsay, parecendo um pouco instável. – É por causa da manteiga de amendoim?
– Ela vai tentar mudar as coisas – comentou Mary. – Sempre é engraçada, essa parte.
– Mary, quieta – advertiu o pai. Ele passou as mãos pelos cabelos. – A Sra. MacGlone diz que nem todas as batalhas vale a pena lutar.
Zoe já era da opinião de que Ramsay não estava lutando nem uma única batalha, mas certamente não iria dizer isso a ele.
– Tem algo cheirando muito, muito, muito mal – disse uma vozinha, e ela correu até o fogão.
Ela olhou para o peixe na frigideira. Estava completamente arruinado.
– Oh, não. Me desculpe, hoje não vai ter chá.
– Acabou o chá? – Ramsay parecia confuso. – Tem dinheiro na…
– Ela está falando da janta – explicou Mary. – Ela fala umas coisas esquisitas, lá da terra dela.
Zoe enrubesceu.
– Eu… Este fogão é bem difícil de mexer, não é?
Agora era a vez de Ramsay parecer constrangido.
– Ah… Hã. É?
Shackleton se levantou e foi até a torradeira. Patrick comemorou e Hari se juntou a ele, pulando alegre várias vezes.
Ramsay não ficou por muito tempo. Ele parecia, Zoe pensou, estranhamente desconectado das crianças, como se tivesse se deparado sem querer com elas vivendo na casa dele. Ele tinha colocado umas frutas num prato e desaparecido de novo, retornando aos corredores profundos e silenciosos da casa; ela se perguntou aonde ele ia. Para a ala da frente, ela supunha, ao passo que ela, é claro, estava confinada nos aposentos dos criados.
Ela limpou as migalhas da melhor forma que pôde e pegou um Hari visivelmente sonolento.
– Vocês têm um horário pra ir pra cama? – perguntou, já sabendo a resposta.
Mary apenas bufou.
– Não! – exclamou Patrick. – Boa noite, Babá Sete.
Completamente farta daquela família peculiar e sem querer discutir, ela acenou vagamente na direção deles, deixou-os sozinhos e foi para seu quarto, colocando Hari na cama e fantasiando com nada além de um banho quente e do olvido total. Ela manteve tanto a porta do quarto quanto a porta do banheiro abertas. Ela ficaria tremendamente surpresa se Mary já tivesse, algum dia, pisado ali, mas queria pecar pelo excesso, mesmo que fosse um pouquinho estranho tirar as roupas no corredor às escuras e com os canos gorgolejando.
Zoe tinha sido – era – pobre. Pobre de verdade. Ela bancava as contas de luz com cartões pré-pagos; tinha que pensar duas vezes antes de ferver qualquer chaleira de água. Mas, quase sempre, conseguia tomar um banho de banheira quando queria. A água fria escorrendo da torneira foi a última gota. Ela desabou ao lado da banheira, abafando o rosto com a toalha, e chorou, chorou e chorou.