Um novo capítulo para o amor
Capítulo trinta
A galinha estava bem. Alarmantemente, Nina não estava. Zoe saltou da van assim que conseguiu desligar aquela coisa e correu para o outro lado do veículo. Nina estava muito pálida.
– Minha nossa, você está bem? Me desculpe! Me desculpe! – suplicou Zoe.
– Tudo…
Nina fez uma careta.
– Desculpe, eu só… Eu só…
Nina vomitou rapidamente pela porta da van, por pouco não acertando os sapatos de Zoe, o que foi um alívio, pois eram os únicos bons que ela tinha.
Zoe segurou a mão dela.
– Você parece… Você não parece nada bem – disse ela.
Nina estava muito pálida e suada. Zoe buscou a pulsação dela. Estava acelerada.
– Você poderia…? Posso levar você ao médico?
– Você atolou a van.
– Ainda tenho o carro – disse Zoe.
– Ah, tenho certeza que não é nada. Não. Não… Não…
Nina vomitou novamente.
– Eu só… estou me sentindo muito, muito mal – murmurou enquanto Zoe lhe entregava uma garrafa d’água. – Eu só preciso dormir, só isso.
– Deve ser só uma virose – diagnosticou a prática Zoe. – Mas é melhor dar uma olhada.
– Estou com muito, muito calor – disse Nina. Ambas pararam por um instante quando a galinha começou a bicar o vômito e Nina grunhiu profundamente. – Não chame o médico.
Zoe já estava procurando no Google.
– Há quanto tempo você está se sentindo mal?
Nina suspirou.
– Um tempo – respondeu baixinho.
– Por que você não contou a ninguém?
– Porque…
Nina não gostava da resposta. Porque ela não estava pronta para abrir mão da van. Porque ela não podia evitar o ressentimento por Zoe ter aparecido com seu filhinho lindo e bem-comportado e tomado seu emprego e sua vida e não ter problema algum para desempenhar qualquer atividade e ter obviamente tido uma gravidez tranquila, enquanto Nina sentia que estava clara e visivelmente fracassando em sua gestação.
Porque ela estava com inveja e porque o que ela tinha com Lennox era perfeito demais e ela não podia suportar que mudasse. Por causa de razões estúpidas.
Ela não disse coisa alguma.
– Bem, eu estou aqui agora – disse Zoe. – Quer que eu chame o seu namorado?
Nina meneou a cabeça.
– Eu não… Eu não quero preocupá-lo.
– Se você não está se sentindo bem durante a gravidez, preocupe todo mundo! – aconselhou Zoe, arriscando um sorriso. – É sério. Cause um alvoroço.
Zoe a ajudou a descer e ficou surpresa ao ver como Nina estava trêmula e instável.
– Tenho certeza que foi algo que eu comi – disse Nina, sentindo-se enjoada e em pânico e péssima e querendo desesperadamente se deitar. – Posso só ir pra cama? Pra minha cama?
– O médico pode vir aqui? – perguntou Zoe, pensando que esse talvez fosse o melhor plano de ação.
– Sim, pode – respondeu Nina em uma voz fraquinha.
Zoe a levou para dentro da casa. Como todos que entravam lá, ela ficou surpresa com a decoração moderna e minimalista. Nina nunca teve muito motivo para pensar coisas boas de Kate, a artística ex de Lennox, mas sempre admirara seu bom gosto.
Sentindo-se um pouco estranha – por outro lado, sentir-se estranha e invadir casas alheias parecia ser basicamente tudo que Zoe fazia nos últimos tempos –, ela ajudou Nina a se deitar, pegou uma bacia na qual ela podia vomitar, que Nina utilizou instantaneamente, fez um pouco de chá de verdade para ela – que Nina não conseguiu manter no estômago – e ligou para o consultório do clínico geral da região. Ela foi transferida para a médica, então colocou Nina na linha e, depois disso, as coisas aconteceram em uma velocidade bastante alarmante.
A médica local, Joan, era uma mulher extremamente prática com cabelos curtos, Crocs, uma atitude peremptória com relação aos seres humanos e uma devoção obstinada a todos os animais. Ela apareceu em sua SUV suja e repleta de pelos com um cachorro na parte de trás – certamente infringindo as diretrizes do Serviço Nacional de Saúde –, lavou as mãos, deu uma olhada rápida para Nina e chamou a ambulância.
Então as duas garotas ficaram apavoradas. Nina agarrou a mão de Zoe, esquecendo completamente que elas não eram tão próximas assim, e pediu a ela que encontrasse Lennox, que devia estar no campo de cima; não haveria sinal de celular.
– É claro – disse Zoe, sem pensar nos próprios sapatos nem por um segundo. Correu até a porta e então se virou. – Como ele é?
– É o mais gato – respondeu Nina, seu rosto pálido e suado.
– Hum, certo – disse Zoe.
– Magricela com cabelos claros – informou a Dra. Joan, que acariciava a galinha no colo e perguntava às meninas quanto vômito, exatamente, a pobrezinha havia comido.
Zoe saiu da casa como um raio.
O vento estava forte, empurrando as nuvens contra o sol, de modo que o mundo parecia se mover sob seus pés – sol, sombra, sol, sombra – enquanto ela corria, fustigando seu rosto, fazendo seus olhos arderem. Seus pés afundavam nos sulcos de terra recém-lavrados dos campos outonais e ela se lembrou – mais por conta de suas leituras devotadas de Andorinhas e amazonas do que por sua experiência campestre – de fechar os portões ao sair. Ela se percebeu correndo em pastos de ovelhas que, sob quaisquer outras circunstâncias, iria querer parar para admirar.
Em vez disso, ela só gritou “Lennox! Lennox!” ao vento até um trabalhador rural aparecer e ficar olhando para ela com curiosidade.
– Lennox? – indagou ela.
Ele meneou a cabeça e apontou para um celeiro tão distante que não passava de um pontinho no horizonte. Zoe estava com lama até os tornozelos. Ela se lembrou vagamente da fileira de galochas ao lado da porta de The Beeches, que eram em número muito maior do que as pessoas que viviam lá, e agora ela entendia o motivo. Era tarde demais, de toda forma: seus sapatos estavam arruinados. Olhou para eles. Pertenciam a uma vida de muito tempo atrás.
Zoe recuperou o fôlego e voltou a correr, finalmente chegando à porta do celeiro, percebendo que não corria havia anos. Se a situação não fosse tão horrível, seria bem libertador correr morro acima a todo vapor em um dia limpo e ensolarado e ficar totalmente ofegante e esgotada. Algo diferente.
– Desculpe, mas de onde diabos você surgiu? – perguntou uma voz nada desagradável.
– Você é o Lennox? – perguntou ela, arfando, chocada ao perceber como sua garganta estava seca.
– Sim.
Lennox olhou para ela. Ele estava cuidando de uma ovelha doente e fazendo o que fazia todos os dias: focando inteiramente na tarefa em questão, excluindo todo o restante, inclusive o que Nina poderia estar aprontando (esse foco excepcional em geral deixava Nina louca da vida e a fazia virar bicho).
– É a Nina – disse ela depressa. – Você precisa vir.
O rosto de Lennox mudou imediatamente e ele saltou para a frente, franzindo a testa.
– O que… O que aconteceu? – perguntou, saindo correndo do celeiro.
Ele a colocou na garupa do quadriciclo – Zoe nunca tinha chegado perto de um na vida; nenhum dos dois estava usando capacete – e desceu o morro a toda a velocidade, sacolejando ao passar por cima de raízes, praticamente planando nas partes mais gramadas. Zoe não teve chance alguma de recuperar o fôlego. Novamente, se a situação não fosse tão grave, talvez ela tivesse adorado aquela aventura.
Joan estava esperando por eles; a ambulância ainda estava a caminho.
– O que foi, Joan? – perguntou ele, correndo para dentro da casa.
Zoe precisou se virar sozinha para descer do quadriciclo.
– Você já ouviu falar em toxemia?
Lennox permaneceu parado, em choque, à porta.
– Sim – disse ele. – Caramba. Isso mata as ovelhas! Envenena e mata.
– Não, não, não é tão ruim assim, de verdade. Exemplo ruim – afirmou Joan. – Não é tão ruim assim em seres humanos. É possível tratar, se diagnosticada a tempo, e nós conseguimos. Nós conseguiremos.
Ela olhou para o relógio.
– Há quanto tempo você vem se sentindo mal? – perguntou ele quando entrou no quarto para ver Nina, que estava branca feito papel na cama. Como ele não tinha reparado? Maldita colheita. – Por que não me contou?
O rosto de Nina se contorceu.
– Porque você estava ocupado e eu estava ocupada e… eu achei que fosse… Eu achei que as coisas seriam melhores que isso…
Ela começou a chorar e ele se acomodou ao lado dela na cama e começou a fazer cafuné.
– Pronto, pronto – disse ele, tentando acalmá-la – Pronto.
Exatamente como se ela fosse uma de suas ovelhas doentes. Mesmo depois de perceber isso, Nina se aninhou no tronco musculoso dele e sentiu-se reconfortada.