Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 28 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo vinte e cinco

 

 

Houve um claro desinteresse pela van depois daquilo e Zoe ficou bastante contente em escapulir para dar uma olhada na creche. Sua mente fervilhava. Muitas crianças, pensou ela. Talvez não de 9 anos, mas… Por um instante ela pensou na expressão de tremendo desdém no rosto de Mary. Bem, ao menos Hari detestava ficar longe do seu campo de visão, esse era um ponto positivo. E talvez a creche fosse incrível.

Ela seguiu as instruções de Nina. Era difícil se perder em Kirrinfief. Havia a praça central, com o pub do Wullie, o memorial de guerra, o ponto de ônibus no qual o transporte passava em horários irregulares e um pequeno parque com canteiros de flores silvestres (o Conselho havia mandado fazer para tentar salvar algumas abelhas. Todos os anos uma criança era picada e rolava um alvoroço acerca da gestão das abelhas, mas, até então, os insetos estavam vencendo, e as flores eram, afinal de contas, uma beleza).

Quatro quadras da praça – sobe duas, desce duas. Na direção sul, caminhava-se na direção do lago e boa parte das casas – a maioria, chalés cinza térreos geminados, como costumava ser antigamente, mesmo que os telhados de palha já tivessem sido substituídos há tempos, e quase todas com mansardas – subia a lateral do morro em zigue-zague, cada vez mais alto, de modo que quase todo mundo tinha uma vista do lago e do vale eternamente mutante, com sua longa e brilhosa ferrovia. Isso também significava que todos tinham que fazer uma pequena escalada para voltar para casa com as sacolas de compras, mas não havia como evitar e devia ser bom para a saúde.

A creche, contudo, era morro abaixo, logo ao lado da escola. Era um edifício baixo, originalmente construído como um centro comunitário, que agora passava boa parte do dia atuando como centro de um pequeno tufão e era usado à noite para diversos propósitos, inclusive aulas de adestramento de cães. Não eram poucos as mães e os pais que chegavam tarde para pegar seus filhos e se perguntavam por que não podiam usar algumas regras do treinamento de cães nos próprios filhos.

O centro era administrado por uma mulher chamada Tara, um tipo que Zoe conhecia muito bem de sua experiência cuidando de crianças: voz de comandante, esmerada em sua condescendência para com crianças bem pequenas e, por vezes, quase completamente ineficaz. Ela estava usando um avental roxo e um cachecol rosa-shocking com penduricalhos prateados amarrado no cabelo.

De fato, era um caos dentro da creche: um borrão de pessoinhas correndo para lá e para cá.

– VOCÊ É INGLESA! – berrou Tara. – BEM-VINDA! Meu sotaque parece inglês, mas meu coração e minha paixão estão aqui, nas minhas formosas Terras Altas natais.

O sotaque dela realmente parecia o de alguém de Surrey, pensou Zoe.

– Então, veja, nós gostamos que nossas crianças tenham liberdade de se expressar.

Com o canto do olho, Zoe avistou um garotinho de uns 3 anos – mas bem grande e corpulento – se expressando ao bater um brinquedo sem parar na cabeça de outra criança.

Tara olhou para Zoe com uma expressão compassiva e se ajoelhou ao lado do garoto.

– Escuta, Rory – disse ela no que claramente achava ser um tom muito encantador –, você está se sentindo mal hoje? É por isso que está usando o carrinho de um jeito não muito gentil?

Rory apenas grunhiu e pegou o carrinho de volta.

– Você quer me dar esse carrinho para que eu guarde pra você por enquanto?

Rory não queria. A criança que estivera apanhando continuava chorando baixinho e sendo completamente ignorada enquanto Tara adulava o agressor. Zoe fechou os olhos e ficou pensando se um vilarejo do tamanho de Kirrinfief comportaria outra creche.

Ela concluiu: não.

Hari estava segurando sua mão de um jeito que ela sabia significar “Me tira daqui agora mesmo”.

– Bem, vou deixar você ficar com o carro só desta vez, meu anjo – disse Tara a um Rory que ainda exibia uma expressão rebelde. – Desde que você prometa ser gentil!

Rory não prometeu coisa alguma, enquanto Tara seguia adiante.

– Nós fazemos nossas pinturas aqui – explicou ao chegar a um canto que estava coberto por manchas de tinta.

Uma mulher mais jovem, com uma aparência atormentada e olheiras, ergueu os olhos.

– Ah, Tara, você tem um minuto?

– Estou mostrando a creche para uma mãe nova! – exclamou Tara. – Mostrando a eles nosso maravilhoso espírito de comunidade! E nosso ambiente feliz!

Definitivamente havia um tom de alerta permeando as palavras de Tara e a mulher voltou a tentar separar umas meninas que estavam borrifando tinta no cabelo umas das outras.

Zoe teria saído correndo dali em um minuto, em um segundo.

Mas então ela olhou para fora da enorme janela nos fundos do edifício. Ela dava vista para um jardim.

Havia algo que eles chamavam de “jardim” na creche de Londres, mas essa era uma hipérbole, porque se tratava, na verdade, de um pequeno terraço com uns poucos triciclos e um pedacinho de grama que ocasionalmente permitia uma guerra de bolas de neve quando nevava, o que nunca acontecia. Às vezes, elas juntavam as crianças em fileiras triplas de carrinhos e as levavam ao outro lado da rua, até o negligenciado parquinho na esquina, sempre morrendo de medo de que alguma delas acabasse atropelada ou roubada, todas elas com jaquetas fosforescentes. E olha que aquela era uma creche cara e seleta.

Ali havia um gramado extenso que levava a uma parede de pedras no final. Embora o dia não estivesse particularmente quente, um grupo de crianças pequenas estava correndo para lá e para cá, supervisionadas por uma jovem que estava mexendo no celular. Elas pulavam, riam e se jogavam para dentro e para fora de um enorme tanque de areia com total e completa liberdade. Duas menininhas estavam sentadas, tentando fazer colares de margaridas. Um garoto estava dependurado em uma árvore pequena, balançando de cabeça para baixo, segurando-se pelas pernas, rindo estrondosamente.

Zoe congelou, olhando aquela cena, então olhou para Hari, escondido atrás de seus joelhos, completamente apavorado.

A sensação era terrível, quase cruel. Mas ele precisava daquilo. Ele precisava.

 

Tara levou Zoe até um escritório grande e bem dividido no final do corredor e fechou a porta.

– É aqui que eu venho para ter um pouco de paz e sossego! – disse ela com um riso nervoso. – Não que eu não ame essas gracinhas. Cada uma delas. E então, você está com a papelada do Conselho?

De repente tudo eram negócios. Zoe tinha mandado um e-mail para ela antes, recortando e colando as informações dos laudos de Hari.

– Você precisa preencher isto aqui para que o governo nos reembolse. Estamos tão animados por ele ser portador de deficiência! Ele requer educação especial?

– Não – respondeu Zoe. – Mas tem mutismo eletivo.

Tara colocou os óculos de aro vermelho vivo e inclinou a cabeça para o lado.

– Sabe – disse ela –, nós não chamamos mais assim.

– Estou ciente – retrucou Zoe friamente. – Mas ele não tem mutismo seletivo. Ele não fala nunca.

– Bem, teremos que colocar “mutismo seletivo” no formulário.

Zoe apertou os dedos com força e estampou uma falsa expressão neutra no rosto.

Hari ficou olhando para ela. O coração de Zoe ficou apertado ao pensar em deixá-lo à mercê de todas aquelas crianças que corriam por ali. Por outro lado, pensou ela, todos os pais se sentiam assim ao deixar seus filhos numa creche. Eles precisavam fazer aquilo. Com certeza.

– E – sussurrou Tara em tom confidencial – acho que já sei seu endereço. Estou certa?

Zoe confirmou. O rosto de Tara se iluminou.

– Me conte – pediu ela. – Como é? Como ele é? Você já viu o Ramsay? Como ele está? Pobrezinho. Foi uma tragédia quando ela fugiu. Deixou tudo para trás. Aquela casa enorme. Aquelas crianças adoráveis. Quer dizer, como alguém consegue, sendo mãe?

– Eu só o vi brevemente – respondeu Zoe.

– Uma tragédia… Bem, é o que dizem. Quer dizer, ninguém sabe ao certo. Tipo, as roupas dela ainda estão na casa? – A cabeça dela ainda estava inclinada. – E como estão os pequenos? Sabe, eles nunca frequentaram a creche. Eu nunca entendi como eles não estariam melhor em um ambiente criativo maravilhoso como o que temos aqui. Nós teríamos amado tê-los em nossa família. Eu amo todas as crianças daqui como se fossem família.

Zoe sorriu.

– Bom… – começou ela. Mas então decidiu que a melhor coisa a fazer seria mentir: – Está tudo bem. Quando o Hari pode começar?

– Pode ser amanhã pela manhã – respondeu Tara. – É estranho, sabe, parece que perdemos alguns alunos nos últimos tempos. Bem, essas coisas acontecem!

E então eles saíram, em meio ao caos, com Hari apertando sua mão com tanta força que doía. Zoe lembrou que tinha que voltar para o casarão, com seus detentos aparentemente violentos, e tentar preparar o jantar para todos.

Já tinha sido um longo dia.