Um novo capítulo para o amor
Capítulo trinta e nove
A Sra. MacGlone, é claro, ficou furiosa.
Se até então Zoe tinha conseguido manter um território bastante neutro entre elas – em sua maior parte, porque a Sra. MacGlone não esperava que ela ficasse; não esperava que ninguém ficasse e lidasse com a preguiça de Shackleton, com a grosseria inacreditável de Mary e com a tagarelice de Patrick (ela jamais teria imaginado como seria agridoce, porém agradável, para Zoe, ter uma criança barulhenta por perto) –, aquela tinha sido uma declaração de guerra: no território da Sra. MacGlone, é claro. Ela havia deixado Shackleton encostar no candelabro!
É claro que ela percebia que não conseguia manter a casa nos padrões que o velho Sr. Urquart julgaria aceitáveis. Naquele tempo, havia três empregadas, uma cozinheira, uma lavadeira, uma governanta e um mordomo, bem como os encarregados do jardim. Essa era a equipe necessária para manter as coisas em ordem, independentemente do que aquela garota magricela estivesse pensando. Ela provavelmente se achava muito esperta, pintando a Sra. MacGlone como preguiçosa ou desleixada – coisa que ela, definitivamente, não era –; ela mal tinha tempo para deixar a cozinha, os banheiros e os quartos mais ou menos arrumados, o carpete aspirado e as roupas limpas, fazendo tudo do jeito que sempre fez desde que tinha pouco mais que a idade de Mary. Quando ela terminava de arrumar a comida e fazer as compras, não sobrava mais nem um segundo do dia.
Ela preparara todo um discurso furioso para fazer a Ramsay no dia seguinte, então foi duplamente irritante quando ele, como era de seu costume, passou o dia todo trancafiado na biblioteca sem ver ninguém.
E se a mocinha pensava que conquistaria aquelas crianças com comida chique e panquecas e enchendo a cabeça delas com besteiras, ela estava redondamente enganada. Suborná-las não funcionaria por muito tempo; ela já tinha visto isso acontecer. Maria Teresa tentara suborná-los com tudo quanto é tipo de doce; o resultado foi que Patrick perdeu um dente, porque ela não supervisionava a escovação, Mary se recusou a comer qualquer coisa e uma discussão ferrenha se instaurou entre todos eles, culminando, inevitavelmente, com Maria Teresa e sua mala no olho da rua. Às vezes as meninas escapuliam às escondidas. Maria Teresa tinha, de forma até bem ousada, ido com o Renault verde até a estação de Inverness e largado o carro lá com a chave dentro. Ninguém o tinha roubado até Ramsay pedir a Lennox que o levasse até lá para recuperar o carro.
Ela abordou Zoe cedo pela manhã, antes mesmo de entrarem na cozinha.
– O que é que aconteceu por aqui? – perguntou ela.
– Ah – disse Zoe, dando um sorriso nervoso. – Pensei que podíamos dar uma mãozinha pra você na casa.
– Então você acha que eu não consigo fazer o meu trabalho?
A boca da Sra. MacGlone estava contraída em uma linha fina.
– Não é nada disso! Acho que você faz um trabalho maravilhoso! – garantiu Zoe. – Eu só pensei que talvez fosse bom que as crianças… ajudassem…
– Então você chegou aqui há cinco minutos e já sabe o que é melhor pra elas? – esbravejou a Sra. MacGlone.
Zoe engoliu a resposta de que poucas coisas poderiam ser piores do que o bando de gente esquisita com que ela tinha se deparado, como um pequeno bote salva-vidas cheio de sobreviventes de um naufrágio, carregados pelas ondas até a praia agarrados a azulejos de cozinha.
A Sra. MacGlone a peitou.
– As pessoas vêm e vão embora da vida dessas crianças – disse em uma voz que se tornava ainda mais ameaçadora pelo tom baixo, para que ninguém a ouvisse. – Elas vêm, causam um alvoroço, não melhoram nada por aqui e aí vão embora, e nós voltamos à estaca zero. Quanto menos você fizer e mudar, melhor, mocinha.
– Talvez eu não seja assim – ponderou Zoe, com a voz trêmula.
– Ah, sim, você é diferente – zombou a Sra. MacGlone. – Você veio pra cá nas suas férias lá de Londres, arrastando aquele molequinho, procurando por uma cama grátis. Vai ficar um tempo aqui e, assim que estiver numa situação melhor, vai embora de novo, de volta pra Inglaterra.
Ela disse “Inglaterra” como se fosse um palavrão. As crianças passaram por elas para tomar o café da manhã e não se deram ao trabalho de dar bom-dia; era como se nada tivesse mudado.