Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 26 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo vinte e três

 

Nina percebeu que tinha perdido a hora quando acordou com o sol alto, o quarto desarrumado e o chá frio feito gelo ao lado da cama. Praguejando, ela saltou da cama, lembrando-se de que a nova funcionária começaria aquele dia. Onde ela estava? Ela não a tinha acordado? Será que não podia ter entrado e a chamado? O que ela estava fazendo – sentada lá fora vendo a vida passar?

Nina estava irritada consigo mesma. Olhando-se no espelho, já podia ver que seus cabelos estavam bastante embaraçados. Os seios já eram volumosos, e Lennox certamente, de seu jeito discreto, os apreciava muito, mas agora pareciam estar ganhando vida própria, além de apontarem para direções completamente diferentes. E ela se sentia horrível. Estava no segundo trimestre, ora essa; devia estar reluzindo feito uma deusa, planando magnânima pela vida. Em vez disso, ela se sentia mal o tempo todo.

– Ora, francamente – sibilou ela, entrando no banho e então lembrando a si mesma de não fazer nada com pressa, pois, se ela caísse (e ela quase escorregou), não conseguiria levantar de novo.

Então foi com um humor do cão que ela se aproximou do pequeno Renault verde de Zoe, não encontrou ninguém e ainda viu as portas do micro-ônibus escancaradas. Marchou até lá, decidida a dizer poucas e boas sobre como manter as galinhas longe da livraria era algo que ela realmente queria encorajar. Não conseguiu evitar, contudo, ficar perplexa ao ver a garota e o menininho acomodados nas almofadas das crianças no canto, ambos completamente absortos.

– Hum – Nina pigarreou.

Zoe se sobressaltou, sentindo que tinha sido pega fazendo algo que não devia.

– Hã, olá – cumprimentou, alisando cuidadosamente o livro e colocando-o de volta na prateleira como se não tivesse sido pega. – Hum, desculpe. Eu só estava… Eu não sabia onde…

– Por que você não tocou a campainha? – indagou Nina, ainda irritada consigo mesma, mas, de alguma forma, percebendo que estava descontando em Zoe por não conseguir mais enxergar os dedos dos próprios pés.

– Eu não estava… Eu não queria… Quer dizer, aquela não é a sua casa? – disse Zoe aos gaguejos, com uma expressão de pura desolação.

– Obviamente.

– Eu não… Eu não sabia ao certo o que deveria fazer.

– Por que você não me ligou?

Zoe ergueu o celular pré-pago modesto.

– Estou sem sinal aqui, desculpe… Desculpe mesmo. Eu não…

Nina deu de ombros.

– Não se preocupe. Vamos andando. Você já foi à creche?

– Não, eu pensei…

A verdade era que Zoe estava morrendo de medo de ir à creche. Ter que explicar tudo; conseguir um laudo do médico; saber se Hari ficaria terrivelmente infeliz sem que ela pudesse evitar ou fazer qualquer coisa para remediar a situação.

Enquanto olhava para os campos e as nuvens baixas e ameaçadoras, contudo, ela se sentiu terrivelmente sozinha.

– Pensei em ficarmos aqui por um ou dois dias… Tudo bem?

Nina fungou e olhou para o garotinho.

– Só… Nada de comida na van, está bem?

– É claro – concordou Zoe rapidamente. – Ele é muito bonzinho, não vai atrapalhar.

– Está bem – respondeu Nina e suspirou. – Suponho que em breve eu também tenha que resolver essa questão, mas tenho certeza de que poderei simplesmente trazer o carrinho e deixar no canto.

Zoe não conseguiu conter uma risadinha que tentou desesperadamente transformar em uma tosse.

– O que foi? – indagou Nina, desconfiada.

– Nada! – exclamou Zoe. – É só que… pode ser um pouco complicado eles ficarem no carrinho.

– Eles ficam simplesmente deitados lá, não ficam? – perguntou Nina.

– Bem, alguns ficam – respondeu Zoe.

Nina sentiu-se irritadiça. Ela estava ajudando a moça; não precisava que ela bancasse a superior quanto às suas experiências maternais.

– Bem – disse Zoe após uma pausa levemente constrangedora –, posso começar?

 

Nina dirigiu até o correio, onde várias caixas novas estavam aguardando. Ela abriu um largo sorriso.

– Ah, sim – disse, erguendo os olhos. – Uma bela faxina na casa. Muitos livros novos comprados, mas nunca lidos. – Ela suspirou. – É muito triste.

– Você os está trazendo de volta à vida – disse Zoe, tentando ser encorajadora e também porque sentia que elas tinham começado com o pé esquerdo.

– Espero que sim – respondeu Nina. – Mas, ainda assim, é triste… Pensar que você tem todo o tempo do mundo para ler!

– Em breve você terá menos ainda! – comentou Zoe alegremente, mas logo desejou, de todo o coração, ter mordido a língua ao ver que o rosto de Nina se anuviou de novo.

Ela estava apenas brincando; Nina parecia pensar que, em vez disso, ela estava lhe dando lições sobre maternidade a cada dois segundos.

– Apesar de que – acrescentou Zoe rapidamente – você pode ler enquanto amamenta, sabe?

Nina piscou.

– Jura?

– Claro! Você vai precisar de uma almofada e aí fica facinho.

– Mas você não apoia o livro na cabeça do bebê?

– Não! – garantiu Zoe. – Quer dizer, você só encosta de leve. Ele vai estar mamando, não vai se importar.

Nina franziu novamente a testa e elas continuaram tirando os livros das caixas em silêncio. Deixado de lado, Hari entrou em uma das caixas e fingiu estar pilotando um barco. Ele estava muito decepcionado por estar tão perto da água e não ter entrado em um. Aquele era seu sonho. Ele nunca tinha estado em um barco antes. Apenas no ônibus, e, enquanto eles atravessavam Londres de norte a sul, de vez em quando ele ficava olhando para o rio movimentado, fascinado.

Zoe não fazia ideia disso. Os desenhos dele de barcos pareciam simplesmente linhas bem compridas. Na verdade, ela achava que ele fazia belos desenhos de cobras e minhocas e o tinha, por conta disso, levado ao parque das borboletas em um dia em que a entrada era mais barata; lá colocaram cobras em cima dele e tiraram fotos sem que ele parecesse particularmente contente nem aflito.

Nina se alegrou ao encontrar mais tesouros na caixa: livros de capa dura intocados e um exemplar lindamente ilustrado de Peter Pan.

– Consigo metade do meu estoque em compras como essa – explicou ela, reembalando cuidadosamente os livros que não queria para mandá-los para um sebo. – O restante são livros novos que compro de atacadistas. Você vai precisar desempacotar e marcá-los como recebidos. É complexo porque fazemos pedidos bem pequenos, mas são todos muito bons. Você acha que consegue fazer isso?

Zoe confirmou. Então, enquanto estava erguendo a caixa de descartes, ela franziu a testa e pescou algo. Era um romance pequeno, bastante simples, com capa de tecido rosa-claro em ótimo estado, sem título algum, com apenas um pequeno par de sapatilhas na capa.

Ela o abriu com cuidado. De fato, era uma versão bem antiga do clássico de Noel Streatfeild, completa e com gravuras coloridas e desenhos lineares. O livro tinha um leve cheiro de verniz antigo e madeira, mas estava em perfeitas condições. Não havia sequer um nome mal rabiscado na folha de rosto, mas um ex-líbris dourado lindo que dizia: “A Lady Violet Greene, os melhores votos, Mary.”

O livro era deslumbrante.

– Hum, Nina – disse Zoe, sem querer ser presunçosa. – Quer dizer, só pra eu ter certeza de como você organiza as coisas e tudo mais… Eu só não consigo entender bem… Desculpe, por que você não quer este aqui?

Nina ergueu os olhos, pronta para explicar algumas coisas a Zoe sobre o mercado editorial.

Nina não era nem um pouco vaidosa, mas se havia uma coisa de que ela entendia, de que ela tinha certeza absoluta, eram livros. Livros que ela amava. Livros que mudaram sua vida. Livros que talvez não fossem os mais bem escritos, mas que ficaram com ela. Livros que deixavam as pessoas geladas de medo, ou faziam o coração bater mais rápido, ou que faziam pessoas tristes rir e esquecer seus problemas apenas por alguns instantes. Ela entendia de livros. Então precisaria explicar a Zoe que aquilo era algo do fundo de sua alma; um sentimento, uma sensação de quais livros entrariam na sua vida um dia e se tornariam seus amigos para sempre.

– Bem – começou ela –, o que você precisa entender é…

Então ela viu o que Zoe estava segurado.

– Ah! – exclamou, pegando o livro com reverência. – Ah, olhe só pra isso.

Ela abriu a capa e arfou.

– Minha nossa – disse ela. – Deve ser meu cérebro de grávida. Eu devo…

Ela estava furiosa consigo mesma.

– Eu acho… Você sabia que o nome verdadeiro da Noel Streatfeild era Mary? – comentou com Zoe.

Ela procurou o nome rapidamente no Google e, de fato, a letra era a mesma.

– Assinado pela autora! – exclamou, assobiando por entre os dentes.

Ela olhou para Zoe, envergonhada.

– Mandou bem – disse ela.

– Eu amei – afirmou Zoe.

– Eu também – confessou Nina, desejando poder levá-lo consigo, voltar para a cama, dormir ainda mais e recomeçar o dia.