Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 40 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo trinta e sete

 

 

Num domingo, Zoe acordou cedo, perguntando-se o que fazer. A Sra. MacGlone não estava em casa, nem Ramsay – eram apenas ela, as crianças e Hari o dia todo.

Ela estava em um lugar estranho e tinha bem pouco dinheiro. Deveria ir visitar Nina, mas concluiu – corretamente – que, sendo domingo, ela receberia muitas visitas, por isso resolveu deixar para um dia mais tranquilo.

Estava ensolarado e fresco lá fora, mas não havia ninguém à vista. Ao descer as escadas sozinha, ela se pegou olhando para o longo corredor, com o candelabro engrinaldado com teias de aranha, e subitamente foi tomada por uma ânsia de fazer alguma coisa, de fazer uma mudança.

Ela ouvia a Sra. MacGlone todos os dias: ligando a antiga e temperamental máquina de lavar, usando o velho aspirador, lavando pratos e louças à mão e desaparecendo para dar conta de serviços demorados nas profundezas da casa. Não era que ela não trabalhasse duro – ela trabalhava. Mas a quantidade de serviço que caía sobre as costas de uma única pessoa era simplesmente apavorante. A casa funcionava, mas no limite.

Zoe subiu até a enorme porta de entrada. A antiga e grossa peça de madeira erguia-se sobranceira diante dela, e ela inspecionou os dois trincos, com uma chave velha e enferrujada na fechadura. Ela abriu os dois trincos, que não eram lubrificados há eras, e girou a chave com certa dificuldade, usando todo o peso do corpo. A velha chave protestou, mas finalmente cedeu; Zoe se preocupou por um instante, achando que podia tê-la quebrado e que talvez fosse alguma chave antiga de um comandante histórico e que ela ficaria devendo um bilhão de dólares à Escócia pelo resto da vida.

Hari surgiu subitamente atrás dela. Zoe estava acostumada com as aparições silenciosas dele; ela sabia que outras pessoas achavam desconcertante. Ele ainda estava usando o pijaminha de bombeiro com pezinhos que estava ficando pequeno demais – normalmente ela cortava os pezinhos fora, mas esperava que sua situação tivesse mudado o suficiente para que não precisasse mais fazer isso. Ele não podia ter crescido naquele curto período de tempo em que estavam ali. É claro que não.

Ele estava agarrado, ela percebeu, a um velho urso de uma pelúcia aparentemente áspera. Parecia mais velho que a própria Zoe.

– Onde foi que você pegou isso? – quis saber ela, indo até ele para abraçá-lo.

O brinquedo era antigo, uma relíquia. Cheirava a caixas velhas de madeira, serragem e cavalos por algum motivo. Os olhos eram de vidro de verdade e havia um laço de tartan desbotado amarrado no pescoço. Qualquer etiqueta que pudesse haver já não existia mais há muito tempo.

Hari apontou para cima, o que não ajudou muito.

– Acho que esse urso não é seu – disse ela em tom suave. – É melhor a gente checar com o pai do Patrick pra ver se você pode brincar com ele.

Hari a encarou e meneou a cabeça, depois abraçou o urso com força, como que para mostrar que discordava da percepção de Zoe das coisas.

– Não é nosso – repetiu Zoe, suspirando. – Nada aqui é nosso, meu querido.

Hari piscou e então se virou, escondendo o urso dela. Zoe mordeu o lábio.

– Bom, você pode ficar com ele por enquanto – aquiesceu ela. – Enquanto estamos na casa. Só… não se esqueça: esse urso não é seu.

Certamente, se fosse alguma herança inestimável da família, a Sra. MacGlone relembraria esse fato a cada cinco segundos. Até lá, Zoe simplesmente precisaria ficar de olho nos dois. E Hari estava mesmo muito fofo com o brinquedo, como um Christopher Robin com um Ursinho Pooh original.

Usando as duas mãos, Zoe abriu a enorme porta, cujas dobradiças emitiram um rangido estrondoso.

Foi uma verdadeira revelação. A luz brilhante e fria se esparramou por tudo. Pássaros cantavam e papeavam; as árvores dançavam à brisa vigorosa do outro lado da via de cascalho. Era deslumbrante.

A luz exibia o velho corredor em toda sua decadência, mas também a beleza dos antigos painéis de madeira e a boa qualidade das pinturas a óleo do século XX e até mesmo a cabeça de cervo – que Hari não havia notado antes e o fez pular de susto – e os corrimãos intricadamente trabalhados da escadaria principal.

Querendo ver mais da casa, Zoe abriu a porta da sala de visitas, com o velho piano que ela havia visto no primeiro dia, as prateleiras atoladas de livros, e abriu as velhas venezianas e as pesadas cortinas dali também. Cada vez mais luz inundava a sala, revelando mapas antigos e pilhas de papel por todo lado, a poeira rodopiando no ar e vasilhas e tigelas estranhas que pareciam estar deslocadas ali.

– Certo – disse Zoe alegremente.

Não havia ninguém ali para julgá-la ou proibi-la de fazer qualquer coisa. As crianças ainda não tinham levantado. Ela foi até a cozinha e encontrou um rádio velho, coberto de farinha, e andou com ele pela casa até encontrar sinal. Ela só precisava de algo divertido e motivador, e, de fato, encontrou uma estação de músicas pop que combinavam com seu humor.

Debaixo da enorme pia em estilo fazenda da cozinha havia uma infinidade de produtos de limpeza. Zoe vestiu o velho avental da Sra. MacGlone, pegou os produtos e começou a esmiuçar tudo na sala abarrotada. Encheu sacos pretos com o que obviamente era lixo – envelopes antigos, correspondência com mais de um ano, colheres de plástico quebradas e trapos velhos. Ela encontrou uma gaveta vazia e começou a colocar nela coisas de que talvez se precisasse, então se empolgou e começou a esvaziar todas as gavetas.

Era um trabalho bobo, satisfatório e que preenchia o tempo, e Zoe não percebeu a barulheira que estava fazendo enquanto corria para lá e para cá alegremente, com o sol entrando pelas janelas, a música no talo, desinfetando e limpando e guardando e movendo, com Hari dançando e “ajudando”, até perceber uma movimentação atrás dela, virar-se e deparar com as três crianças paradas no patamar da escada, olhando para ela. Mary estava usando a camiseta de leão.

– Está vendo? – disse Patrick. – Ela ficou completamente doida.

Zoe se levantou, irritada por se sentir culpada e pega no flagra. Era ela quem tinha sido despejada ali e instruída a se virar. Que direito eles tinham de julgá-la por tentar tornar o ambiente deles melhor?

A música ainda estava nas alturas. Shackleton se abaixou e desligou. Mary deu um passo adiante. Ela estava branca feito papel e tremendo de raiva.

– O que você está fazendo? – perguntou.

Zoe olhou em volta. Tudo já estava muito melhor – o cheiro de frescor se espalhava com o vento que soprava e as janelas e prateleiras estavam brilhando. O porta-guarda-chuvas continha, agora, todos os guarda-chuvas que ela encontrou na casa em vez de estarem todos espalhados pelos mais variados lugares. Ela havia chegado até a chapelaria, à esquerda de quem entrava, onde agora os sapatos e as galochas estavam lindamente organizados em uma fileira, e todos os chapéus – alguns com penas, alguns do século passado, muitos completamente bizarros –, alinhados na estante ou empilhados cuidadosamente em uma prateleira construída com esse propósito. O espelho da sala tinha sido limpo e as cortinas, abertas, de modo que era possível ver o que as pessoas estavam vestindo.

– Limpando – respondeu ela. – Parece que a Sra. MacGlone não consegue ter tempo para fazer uma boa faxina de primavera. Ou de outono! – Ela deu um passo adiante. – Quer ajudar?

Mary a fitou com olhos raivosos.

– Por que você mudou as coisas de lugar?

– Porque – respondeu Zoe sensatamente – todos nós temos que viver aqui. Não é melhor viver em um lugar agradável?

Mary a encarou com os olhos cheios de fúria.

– É assim que é pra ser – esbravejou ela. – É assim que é pra ser. Você está estragando! Você estragou tudo!

E saiu a passos firmes pela porta da frente, desaparecendo no jardim.

– Ela faz muito isso – comentou Zoe, suspirando.

Patrick se adiantou.

– Bom – disse ele em um tom pragmático demais para sua idade –, sabe como é. Você está mexendo nas coisas que a mamãe colocou aqui. E a Mary definitivamente não gosta disso.

Era a primeira vez que Zoe ouvia qualquer um deles falar sobre a mãe por vontade própria. Ela deu um passo adiante e se ajoelhou.

– Você não acha – disse ela no tom mais delicado que conseguiu – que a sua mãe iria querer que a casa estivesse bem-cuidada? E limpa e agradável pra vocês?

Patrick deu de ombros.

– Eu não lembro – disse ele, com a vozinha mais ínfima imaginável, e Zoe se aproximou para abraçá-lo.

Foi um gesto completamente espontâneo, mas o garoto se afastou imediatamente, quase tropeçando em sua pressa de se livrar dela, e Zoe xingou a si mesma por ter tentado dar esse passo cedo demais.

Ela virou a cabeça.

– Hari – chamou baixinho. O menino se aproximou. – Você acha que poderia emprestar o seu urso pro Patrick?

Sem hesitar, Hari deu um passo adiante, oferecendo o brinquedo velho e comido pelas traças, e, sem erguer os olhos, Patrick o pegou e enterrou o rosto nele. Com a voz mais alegre e pacificadora que conseguiu fingir, Zoe anunciou que iria fazer panquecas para todos de café da manhã, esperando que Patrick a seguisse, pelo menos por curiosidade – o que ele fez –, e seu aborrecimento cessou o suficiente para que ele recuperasse o apetite até as panquecas estarem prontas.

O mais curioso de tudo foi Shackleton. Ele estava parado na cozinha e se aproximou para observá-la cozinhando. Então pigarreou – estava naquela idade em que a voz podia mudar do grave para o agudo e vice-versa numa mesma frase – e disse, hesitante:

– Eu gostaria de ajudar.

Zoe se virou. Ela não estava esperando por aquilo.

– Está falando sério?

Shackleton deu de ombros, com a boca cheia de panqueca.

– Por que não? – respondeu ele. – Você já consertou o wi-fi?

– Hum – murmurou Zoe, que não sabia como consertar. Ela havia tentado, mas sem sucesso. – Em breve. Se você me ajudar a limpar a casa, eu com certeza absoluta vou consertar o wi-fi.