Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 6 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo quatro

 

É claro que Jaz estava atrasado. É claro que estava. Depois de um milhão de mensagens para conseguir que ele concordasse com um horário. Zoe certa vez tentara ponderar com ele: e se acontecesse algo com Hari? E se eles estivessem no hospital? Ele simplesmente reagiu como sempre: dispensando-a, dando de ombros e dizendo “Não se preocupe… É só me mandar uma mensagem, gata”.

Zoe olhou para o balcão do café. Era um estabelecimento sofisticado, repleto de mães louras e magras e pais altos e bonitos carregando seus filhotes nos ombros, comprando suntuosas bandejas cheias de bolos e cafés caros, como se o dinheiro não significasse nada para eles, encontrando-se com grupos de amigos com labradores e frisbees.

Ela se acomodou, com Hari sentado em seu colo, no final de uma mesa grande, sem comprar nada. Cada vez mais gente se unia a um grupo enorme de pessoas chamadas Fizz, Charlie, Ollie, Fifi e coisas do tipo, carregando pipas, bolas, cestas de piquenique e caixas térmicas e conversando sobre como o dia estava lindo, enquanto eles dois se encolhiam ainda mais no canto, sentindo-se mal por estarem ocupando espaço. Zoe acabou comprando uma xícara de chá, o item mais barato em que conseguiu pensar, e recebeu olhares martirizados das louras magras que tinham encostado seus carrinhos de bebê requintados nas pernas do banco dela. Ela se concentrou com afinco no novo livro de Michael Lewis que a biblioteca reservara para ela. Livros: a única coisa que nunca a decepcionava. “Com tanta leitura!”, sua mãe costumava dizer depois de ter tomado umas, o que era bastante frequente. “Jamais pensaria que você acabaria grávida!” E também: “Ah, querida, você sabe que só estou implicando com você.”

Por fim, Jaz apareceu. Zoe não pôde deixar de notar que ele estava cada vez mais jovem. A camiseta por cima da bermuda fazia com que parecesse uma criança grandalhona; a barba excessivamente cuidada parecia um tanto adolescente. Zoe sentia que estava simplesmente ficando mais velha a cada dia, com o mundo pesando sobre seus ombros.

Ele ainda era bonito, é claro, ainda exibia aquele sorriso lindo e avassalador.

Ao vê-lo, a boca de Hari formou um “O” de alegria e ele se agitou para descer do colo.

– Diga “por favor”! – exclamou uma das mães louras para ele com vivacidade, mas, no fundo, falando muito sério, e Zoe suspirou, sem querer, naquele momento, explicar qualquer coisa, então simplesmente colocou Hari no chão, sentindo que estava sendo julgada, e ele correu até o pai que adorava com cada fibra de seu pequenino corpo.

– Meu chapa! – exclamou Jaz, pegando-o e girando-o no ar.

Zoe gostaria que ele não o chamasse assim – eles não eram “chapas”, aquilo não ajudava em nada –, mas Jaz chamava todo mundo daquele jeito, era praticamente um tique nervoso.

– O que você tem pra me dizer hoje?

Hari não disse coisa alguma, é claro, mas sorriu para o pai, que o segurava acima da cabeça – um daqueles sorrisos de puro amor que faziam Zoe praguejar, porque ela estava presa a Jaz para sempre e também porque precisava ser civilizada com ele, para impedir que aquele sorriso de amor um dia se apagasse. Zoe um dia também achou que o amava. Isso foi pouco antes de ele deixá-la e contribuir para ela ficar sem teto.

– E aí? – perguntou ele casualmente.

Zoe agora estava ciente de que eles eram o centro das atenções de praticamente todo o café. Jaz nunca se importara em ter vários olhos fixos nele.

– Vamos dar uma volta? – sugeriu ela, sem querer divulgar seus problemas para toda aquela multidão de famílias abastadas, com suas roupinhas sofisticadas da Boden, as mamães praticantes de ioga, que moravam em casas maravilhosas e viviam tirando miniférias, que Zoe gostaria de odiar, mas de quem sentia uma inveja desesperadora.

– Vou só pegar um café, gata… Quer alguma coisa?

Por força do hábito, Zoe meneou a cabeça, então viu Jaz gastar 9,75 libras em um café com leite grande e um muffin enorme para ele e outro para Hari, que ficou olhando para o bolinho como se estivesse calculando se conseguiria comer algo tão gigantesco (ele comeu, e tanto ele quanto Zoe se arrependeram depois).

Finalmente eles escaparam da atmosfera da cafeteria e conseguiram abrir caminho pelo gramado na direção da lagoa dos patos – passando pelas pessoas que liam preguiçosamente ou se beijavam, sozinhas ou em grupos, com tempo de sobra para curtir o parque, permitindo que o dia ensolarado as inundasse.

Hari caminhava despreocupadamente, lambuzando cada centímetro do corpo com o muffin com tanta consistência que Zoe pensou que não precisaria passar protetor solar nele – o que era um alívio, pois custava uma fortuna.

– O que foi? – perguntou Jaz por fim, em tom defensivo.

– O aluguel – respondeu Zoe sem rodeios.

Jaz balançou a cabeça, compreensivo.

– Sim, mas, gata… – choramingou ele. – Eu perdi o emprego.

Ele ergueu as mãos em um gesto de “fazer o quê?”. Zoe não perguntou a ele o motivo. Ela já tinha visto, quando ele morava na quitinete. Dormindo até tarde; ligando para avisar que não iria trabalhar por estar doente, quando na verdade não estava a fim de trabalhar; reclamando quando seus chefes às vezes exigiam que ele trabalhasse um pouco.

– Vão aumentar o aluguel – informou ela com firmeza.

Jaz suspirou.

– Sinto muito – disse ele. – Não posso ajudar. Simplesmente não tenho dinheiro.

Zoe já tinha pensado no assunto. Ele podia ajudar. Ele podia conseguir o dinheiro. Se ele contasse aos pais, eles certamente o ajudariam. Eles estavam bem em Birmingham; tinham grana suficiente para bancar um carro para ele. Se soubessem que tinham um neto… talvez eles ficassem chocados em um primeiro momento, mas o susto passaria…

A boca de Jaz se contraía em uma linha fina toda vez que ela mencionava seus pais. Sob hipótese alguma. Zero chance.

– É só por um ano – suplicou Zoe. – Aí ele vai pra escola e eu vou poder trabalhar mais horas, e tudo se ajeita.

– Você não pode ir pra casa da sua mãe?

– Na Espanha?

Ao menos ele teve a decência de parecer envergonhado.

– Ei! – chamou uma voz requintada. Um dos pais perfeitos irritantes do café, com sua calça de sarja, a camiseta de rúgbi e os cabelos imaculados. – Aquele não é o garoto de vocês?

Ambos se viraram e lá estava ele, bem na beirada íngreme do lago, enquanto um pato nervoso avançava em seu muffin.

– HARI! – berraram os dois.

O garoto se virou bem quando o pato abocanhou o muffin e o desequilibrou. Em um piscar de olhos, Jaz estava lá, pegando-o no colo, enfiando a cabeça do garoto em sua jaqueta lustrosa, com os pedaços de muffin e tudo.

– Está tudo bem, rapazinho – cantarolou ele, enquanto os olhos do garoto se enchiam de lágrimas silenciosas, que começaram a escorrer, molhando a camisa de grife de Jaz enquanto ele o abraçava forte. – Está tudo bem. Está tudo bem, meu rapazinho. Papai está aqui. Papai está aqui.

Só que não estava. Zoe pensou ironicamente nisso enquanto se virava para voltar para casa. Pai inconsistente. Cuidados precários. Zero grana. Um distúrbio comportamental. Nada a fazer e nenhum lugar para ir além de ficar dentro de casa ou na biblioteca (a gentil bibliotecária, aliás, tinha sido a primeira a lhe perguntar se ela não estava preocupada por Hari não falar).

E agora os dois lugares estavam totalmente abarrotados.