Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 37 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo trinta e quatro

 

– Obrigada – Zoe se percebeu dizendo novamente.

Desatolar vans era mesmo uma tarefa terrível. Ela tinha conseguido – pelo menos, tinha se forçado a – acreditar que a noite anterior não passara de um sonho.

– Hum – murmurou Lennox.

Zoe percebeu rapidamente que ninguém estava mentindo quando dizia que ele era de poucas palavras. Ela havia levado Hari junto – pensaria na creche depois. Afinal de contas, não era a pior coisa do mundo que ele convivesse com uma pessoa que obviamente era bem-sucedida mas não sentia necessidade de falar muito.

Entretanto, Zoe não podia negar, uma parte dela tinha esperança de que a mudança de cenário, o início na creche, algo novo na vida finalmente pudesse incitar alguma coisa. Algum ruído do garoto. Isso era tudo em que ela pensava enquanto dirigia pelas longas estradas. Parecia, à medida que ela começava a conhecer mais a região, que a cada dia havia algo novo. Ela ouvia um pica-pau no bosque, batendo as asas. Peixes saltando no lago. Queria ter mais tempo para passear, mas havia coisas demais a fazer.

– Como está a Nina? – perguntou.

Lennox franziu o cenho.

– Queria dizer que está sendo difícil – respondeu ele –, mas não sei se posso. Amanhã chega um novo carregamento. Você pode escolher algum livro pra ela?

– Não acho que exista algo que ela ainda não tenha lido – refletiu Zoe.

– Pois é – foi a resposta de Lennox.

– Com certeza vou dar uma olhada. Talvez seja uma boa hora pra revisitar alguns clássicos antigos.

Lennox tinha lavado a van inteirinha, que estava brilhando.

– Tem certeza que sabe como dirigir?

– Só preciso praticar… sem ninguém olhando – garantiu Zoe com determinação.

Lennox definitivamente deu um sorriso torto.

– E não faça isso, meu bem! – acrescentou Zoe. – Esse sorrisinho torto que vocês, homens, dão. Isso só piora as coisas!

Lennox ergueu as mãos.

– Está bem, está bem.

Ele se afastou. Então deu um passo adiante novamente. Hari não estava prestando atenção; continuava agachado tentando passar a mão na galinha, que se esquivava toda vez que ele chegava perto demais.

Zoe sorriu, observando-o perseguir a galinha. Ela havia dormido incrivelmente bem na noite anterior. Tinha a ver, ela achava, com o frescor do ar noturno – Londres continuava quente; os próprios prédios exalavam calor.

Ali a brisa era fresca e, quando ela se deitava na cama com a janela um pouquinho aberta, era um verdadeiro luxo não precisar se preocupar em ser despertada por ladrões, traficantes, sirenes, helicópteros, motoristas de Uber gritando ou brigas na rua.

Embora sua vida estivesse em um limbo – e ela ainda não tivesse 100% de certeza de que não havia uma mulher maluca presa no sótão da casa em que ela estava hospedada –, tudo parecia estranhamente seguro. O ar fresco, Hari dormindo tranquilo, o ocasional chilro de uma coruja ou o pio de outro bicho fugindo de uma coruja, o aroma de frutas vermelhas no ar.

Após a interrupção da noite anterior, ela voltara para a cama emocionalmente exausta e imaginava que fosse se debater sem parar e se preocupar com tudo. Em vez disso, tinha ficado deitada lá por um instante, apenas se sentindo ninada pelo céu noturno, que ela conseguia avistar por entre as cortinas abertas, com estrelas que reluziam no ar não poluído. Ela chegou a se virar com a intenção de pegar o livro, mas então se percebeu, logo depois que o pegou, caindo num sono profundo, despencando como Alice, e acordou, renovada, com uma corrente de ar cortante e um raio de sol gelado que penetravam pela janela entreaberta e, como sempre, um garotinho sentado em cima dela.

 

Arriscada e dolorosamente devagar, Zoe passou com a van pelos portões da fazenda. Ela engatou a segunda, concluindo que seria o suficiente até entender o que estava fazendo. Lennox a observou se afastar, preocupado. Aquela era a menina dos olhos de Nina, sua vida todinha. Ela havia recebido orientações rigorosas do médico para não se estressar. Ele realmente esperava que Zoe não fosse estragar tudo – bater a van ou destruir o estoque ou o negócio todo. Ele suspirou. A grana deles estava realmente curta, mas ele chamaria mais um pastor para a temporada; precisava ficar com ela no hospital. Eles não conversavam muito – ele lia as notícias agrícolas; ela ganhava dele no Scrabble –, mas não importava. Ele estava lá, e isso era tudo que importava.

 

Zoe decidiu não entrar à direita na praça do vilarejo para chegar à esquina onde deveria estacionar. Em vez disso, fez toda a volta pela rota da esquerda para, por fim, chegar lá. Ela achava que provavelmente poderia fazer isso em todos os lugares aonde fosse.

O vilarejo estava lindo aquela manhã. Os paralelepípedos haviam sido lavados pela chuva recente; as chaminés dos pequenos chalés caiados dispostos em fileiras fumegavam. Crianças brincavam nas ruas, aproveitando ao máximo o feriado, e na loja da Sra. Murray havia uma bela exposição de baldinhos, pazinhas e toalhas do lado de fora para aqueles que estavam a caminho das praias do lago.

Nervosa, Zoe montou o acampamento, mudou a plaquinha de “Fechado” para “Aberto”, inspirou fundo uma última vez e abriu as portas com um sorriso esperançoso.

A manhã fora agitada, embora não particularmente lucrativa. Todos, sem exceção, queriam saber como Nina estava passando. Eles a encheram de cartões e presentinhos que Zoe acabou tendo que empilhar no banco do passageiro; geleias e molhos caseiros; gim feito em casa (“Diga a ela pra não beber muito”, aconselhou o velho Sr. Dennis, que achava que o fato de sua mãe ter bebido durante a gravidez não tinha causado grandes problemas e também achava que não havia nada de errado em ter 1,60 metro de altura). Zoe olhou para a garrafa atentamente e se perguntou se seria errado surrupiá-la e beber sozinha à noite, quando a barra pesasse demais.

Sim, concluiu ela, relutante. Seria muito, muito errado.

Era maravilhoso o fato de todos estarem lhe entregando lembranças. Infelizmente, o que eles não estavam lhe dando era dinheiro em troca de livros. “A Nina disse que ia conseguir o livro pra mim” era uma frase comum, seguida por um vácuo completo quando Zoe perguntava qual era o livro. “Estou procurando aquele livro com a capa vermelha.” Ou: “Sabe aquele do médico? Um médico mau.”

O pior de tudo era que, enquanto tentava desesperadamente recomendar obras, ela sabia que Nina saberia. Zoe estava tentando obedecer às instruções de Lennox e não ligar para ela a cada segundo – na única vez que tentara (alguém tinha quase certeza absoluta de que Nina saberia se o livro sobre morsas havia chegado e Zoe revirara a van, sendo que, no fim das contas, talvez se tratasse de focas), o telefone de Nina estava ocupado e Zoe concluiu corretamente que ela estava falando com a mãe.

Ela estava exausta quando estacionou a van com cuidado, tentando evitar a área lamacenta e o caminho daquela galinha idiota. Tirou Hari com cadeirinha e tudo da van, embora pesasse uma tonelada – ela vivia se perguntando por que não tinha os braços maravilhosamente torneados da Thandie Newton, com a quantidade de levantamentos de garotinhos de 4 anos que fazia.Não parecia justo –, colocou-o no carrinho verde e quase esmagou outra bela cesta de ovos que havia sido posta ali.

Virou-se e colocou Hari no chão.

– Eita! – exclamou. – Olhe só! Isso podia ter dado muito errado, hein?

Hari piscou.

– Bem, a janta está decidida – disse ela, olhando em volta para ver se Lennox ou qualquer outra pessoa estava por perto para agradecer, mas o quintal parecia deserto.

Então ela agradeceu à galinha demoníaca antes de dar a volta com cuidado em torno dela com o carro.