Um novo capítulo para o amor
Capítulo três
Zoe ligou para Jaz. Não o via há semanas.
Ela se perguntou, como fazia com frequência, como é que tinha acabado naquela situação. Como qualquer um acabava em qualquer situação?, pensou.
Ah, Jaz. DJ celebridade, lá vamos nós. Originalmente de Birmingham, ele sempre pareceu muito mais novo do que seus atuais 28 anos.
Ele e Zoe nunca haviam morado juntos; ela nunca conhecera a família dele – e, nesse ponto, Zoe sabe que você deve estar pensando “Você é uma idiota completa, como foi que acabou engravidando?”, o que, posso lhe dizer, é basicamente o que a mãe e todos os amigos dela disseram, só que num tom ainda mais cruel.
Como uma desculpa que agora parecia mais furada que os bolsos dela, o cara era – é – absurdamente bonito, tinha cílios que quase batiam na testa, ombros largos, pernas longas… Zoe tentou. Ela realmente tentou. E Jaz também, por um tempo. Mas ficar amarrado e cuidando de criança não era “o estilo dele, gata”, dissera ele com sinceridade.
Eles alugaram uma quitinete pavorosa em Wembley e Zoe pintou tudo da melhor forma que pôde, embora o papel de parede estivesse soltando e o corredor exalasse um cheiro terrível de comida, e ela não conseguisse passar com o carrinho por causa das bicicletas das outras pessoas.
Zoe tirou o mínimo de licença-maternidade possível (ironicamente, ela trabalhava em uma creche superchique – chique demais para ela conseguir colocar o próprio filho nela) e Jaz tentou se estabelecer, arranjou um emprego num escritório. Então Hari nasceu (de um jeito calmo e direto, segundo a parteira, e, segundo Zoe, de um jeito bastante traumático e extraordinário).
Por um curto período de tempo, ambos se esqueceram de todo o resto e se deliciaram com a beleza do bebê; como ele era maravilhoso e perfeito – com as unhazinhas cor-de-rosa, os cílios do pai, seus olhos sonolentos e a boquinha fofa. Ele era quietinho – tranquilo, totalmente amado – e os amigos deles, que ainda eram jovens e viviam em baladas e festivais, apareciam com presentes que eles não tinham onde guardar e faziam o maior alvoroço em torno deles, e a mãe de Zoe tinha vindo da Espanha para visitá-los e ficado toda emocionada com tudo, de um jeito bem novelístico, e por um tempo, só por um tempinho, Zoe pensou que, talvez, tudo fosse ficar bem.
E então Jaz decidiu, de repente, que iria sair para tomar uma cerveja com os amigos, praticar um pouco suas habilidades de DJ, e aí ele passou a acordar atrasado para o trabalho e, ocasionalmente, não queria ter que cuidar de Hari, é claro; ele era superfofo, mas a questão dos bebês, Zoe percebeu, era que eles estavam ali o tempo todo, a cada segundo, e se você parasse de observá-los um milissegundo que fosse, eles provavelmente morreriam engasgados ou algo assim.
Então, para evitar as brigas, Jaz parou de voltar para casa, vindo cada vez menos. Aquele foi um verão quente demais e não havia qualquer espaço externo ou lugar aonde Zoe pudesse ir para escapar. E ela passava os dias olhando para as quatro paredes da quitinete, sentindo-se como aquela mulher do filme que vivia presa em um quarto.
Só que Zoe não era prisioneira. Ela só não tinha dinheiro para nada, absolutamente nada, exceto trabalhar e existir. Naquele ciclo londrino de atrocidades, ela voltou a trabalhar em uma creche incrível e superchique, que tinha alimentação orgânica e aulas de Kumon para as crianças privilegiadas que a frequentavam, mas apenas porque deixava Hari num berçário bem básico, onde achava que os cuidadores simplesmente largavam os bebês de frente para a TV.
Se ela perguntasse a Jaz sobre o futuro, ele imediatamente puxava uma briga enorme, saía às pressas e passava dias sem aparecer, e Zoe tinha que alimentar Hari com a papinha mais barata que pudesse encontrar e passar o tempo sentada em seu único cômodo, perguntando-se o que é que tinha acontecido com ela, Zoe O’Connell, 28 anos, profissional promissora em início de carreira, que vinha considerando fazer um mestrado e até mesmo abrir a própria creche um dia. Mas lá estava ela. Empacada. Com farelo de cereal nos cabelos e um filho que tinha um problema de fala, e agora, após duas viagens de ônibus até um hospital do outro lado da cidade onde lhe disseram para basicamente se virar sozinha, ela havia chegado em casa e encontrado um aviso de “reajuste” do aluguel.
Ela sabia. Ela havia previsto. Uma nova cafeteria orgânica na esquina. Uma peixaria. Rumores de um supermercado. Para a maioria de seus vizinhos, eram boas notícias. Para ela, promessas nefastas de mudança. Seu locador queria que ela saísse e uns profissionais jovens e ricos tomassem seu lugar. Para falar a verdade, os verdureiros tinham pendurado umas luzinhas brancas diante do hortifrúti e pintado o local de verde; a loja de ferragens agora se promovia como “vintage”. Havia rumores de uma obra de Banksy (Zoe queria matá-lo). Os dedos coloridos gentrificadores da Farrow and Ball estavam se estendendo. E agora tentavam alcançá-la.
A carta estava sobre a mesa do corredor. Zoe não compreendia como algo tão inócuo podia parecer tão malévolo, mas ela sentia medo de tocá-la.
Zoe não poderia bancar, de jeito nenhum. De jeito absolutamente nenhum. E a grana do programa de distribuição de renda do governo não seria de muita ajuda. Se Jaz não pudesse pagar o aluguel, percebeu Zoe olhando para o papel, ela poderia se considerar sem-teto e se submeter à misericórdia do conselho do bairro, o que era uma perspectiva aterrorizante, e sabe lá Deus onde é que eles iriam parar. Ela não podia. Ela não podia ficar sem casa. Aquilo era ridículo. Absurdo.
Ou então teria que ir para a Espanha, viver no minúsculo apartamento de um quarto de sua mãe, arranjar um emprego em um bar… Havia muitos empregos em bares por lá. Mas mudar para outro país… Seu filho não conseguia dizer uma única palavra nem mesmo em seu idioma materno.
Zoe percebeu que estava entrando em pânico, seu coração batendo acelerado, mesmo enquanto Hari procurava o velho e estilhaçado tablet e o pegava.
O que ela faria? Sua mão estava tremendo. Havia diversas vagas para babás que moravam na casa dos patrões, mas ninguém aceitaria que ela levasse um filho junto. Nenhum dos empregos diurnos que ela poderia arrumar pagaria o suficiente. Ela engoliu o choro e ligou para Jaz, ou melhor, mandou uma mensagem, porque ele nunca atenderia o telefone se visse que era ela, e insistiu que eles se encontrassem.