Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 44 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo quarenta e um

 

O barulho foi indescritível. Repentinamente, assim que a janela se estilhaçou com um ruído ensurdecedor, os uivos enlouquecidos do vento, como uma força sombria e malévola, a assolaram.

Zoe arfou, abrindo a boca para gritar enquanto o galho irrompia na sua janela; ele caiu debaixo das rodas do carro e um cheiro forte de amianto dos freios a atingiu quando os pneus travaram e o grande veículo começou a girar no próprio eixo, invadindo o outro lado da pista, onde o grande ônibus que vinha do lago continuava a se dirigir descontrolado em sua direção.

Zoe esticou os braços para o lado, tentando desesperadamente proteger seu bebê, e então percebeu que ele não estava ali.

Numa fração de segundo que durou uma eternidade, ela pensou que aquela não poderia ser a hora e pensou em Hari e no rostinho de Hari e, de alguma forma, conseguiu tirar o pé do freio e colocar as duas mãos no volante, girando-o com fúria até a trajetória amedrontadora do veículo se acertar, e, na verdade, por algum instinto escondido dentro dela, fazer exatamente o que deveria ter feito: girou o volante com força para a esquerda e pisou fundo no acelerador. A van saltou para a frente, espatifando-se no chão do bosque; os dois pneus da frente furaram, mas, mesmo assim, continuaram se movendo no acostamento esquerdo da pista, onde ela tentava de todas as formas controlar o movimento do veículo de cinco toneladas e avistava a saída à esquerda para o centro de visitantes logo adiante.

Rezando para que nada mais estivesse vindo em sua direção, ela passou gritando pelo ônibus, cheia de cacos de vidro nos cabelos e nas roupas, alheia aos cortes e hematomas em seu rosto, e direcionou a van para a saída de acesso, finalmente pisando no freio e fazendo o veículo parar. Enquanto isso, o motorista do ônibus perdeu por completo o controle, saindo da pista e caindo em uma vala com um ruído nauseante.

 

Zoe ficou sentada na van, cujo motor estalava e cacarejava, nada contente, enquanto esfriava. Ela olhou para a frente, mesmo com o vento açoitando seu rosto, tremendo e sem perceber o que escorria em seu rosto e pingava em sua camiseta: sangue.

Após alguns instantes – que pareceram horas – de silêncio total, as pessoas do centro de visitantes vieram correndo, gritando e preocupadas, juntamente com diversos turistas falando vários idiomas. Zoe continuou sem se mover; ficou apenas sentada ali, inerte pelo choque, olhando para o além.

– Você está bem? – A voz era grave e rouca e transpassou o estado congelado de Zoe. – Ei! Me ouça! – disse a voz, um pouquinho mais alto e um tanto mais irritada. – Me ouça. Você precisa me ouvir. Você precisa sair da van.

Zoe ergueu as mãos e olhou para elas desapaixonadamente, como se não fossem suas.

– Sangue – disse ela.

– O seu para-brisa foi arrebentado – disse a voz. – Você precisa sair pra que possamos ver se você está bem.

Zoe conseguia ouvir a voz e entender o que ela dizia, mas as palavras não pareciam ter qualquer relevância. Ela não sentia necessidade de fazer qualquer coisa. Estava usando o cinto de segurança. Talvez fosse simplesmente permanecer ali.

No segundo seguinte – ou minuto, ou hora, ela não tinha como saber –, braços fortes a tiraram do veículo e a colocaram no chão. Estilhaços de vidro caíram nos paralelepípedos do estacionamento. O vento uivava em meio às árvores agitadas e arqueadas.

– Venha, vamos entrar antes que alguma coisa caia em cima da gente – disse uma voz.

– Os livros! – berrou Zoe, subitamente em pânico. Tudo estava na parte de trás da van. – E os livros? E se a van explodir? Alguém precisa salvar os livros!

A mesma voz que ela tinha ouvido antes riu.

– Bem, não acho que essa lata velha tenha vigor pra explodir. Mas acredite em mim, se fosse explodir, o que não vai acontecer, eu não arriscaria, de jeito nenhum, que alguém entrasse ali pra salvar uns livrinhos.

Um par de mãos a encaminhou, meio que aos empurrões, para o grande edifício à frente; havia obviamente uma espécie de hotel ao lado do centro de visitantes. A recepcionista bonita que Zoe havia encontrado antes, Agnieszka, que não servia café para viagem, estava parada ao lado da grande lareira e colocou as mãos diante da boca quando a viu, então chamou imediatamente alguém em uma sala nos fundos, que saiu correndo de lá com um rolo de papel toalha.

– Desculpe – disse ela. – Mas você se importaria muito em pisar nisso aqui?

Zoe não se importava com coisa alguma; ela não conseguia ver nem pensar direito.

– E o kit de primeiros socorros? – gritou a recepcionista. – Ah, pobrezinha, você está bem?

Zoe não fazia a menor ideia e deixou que Agnieszka a conduzisse até o banheiro.

– Pronto, pronto – disse ela, enquanto Zoe olhava para um rosto ensanguentado que não reconhecia.

Ela então olhou para suas mãos sujas de sangue. Estava tremendo.

– Você sofreu um pequeno acidente – explicou Agnieszka, examinando-a atentamente. – Mas acho, acho, que você vai ficar bem. Alguma coisa dói?

Zoe olhou-se de cima a baixo no espelho novamente e engoliu em seco.

– Acho que não.

– Espere aí – ordenou a mulher, desaparecendo e depois retornando com um frasco de um líquido marrom. – Sente-se. Beba isto.

Zoe fez conforme instruído, então engasgou e tossiu.

– Ah, pronto – disse Agnieszka, balançando a cabeça em aprovação. – Isso vai servir.

Lágrimas se empoçaram nos olhos de Zoe.

– É misturado – comentou Agnieszka em tom misterioso.

Independentemente do que fosse, Zoe sentiu-se retornando aos poucos a seu estado normal.

– Meu Deus – disse ela, vacilando de leve. – Meu Deus.

– Eu sei – concordou a mulher. – Está um pandemônio lá fora. Graças a Deus você está bem.

Zoe começou a lavar os braços.

– Você está bem mesmo? – perguntou a mulher ansiosamente.

– Acho que sim – respondeu Zoe, ainda tremendo. – Meu Deus… Uma árvore. Uma árvore me atacou. Meu Deus. Preciso… Preciso falar com o Hari. Não. Não preciso. Ninguém pode contar pra ele. Meu Deus. Meu Deus. Eu o deixo sozinho por um dia e quase morro. Um dia.

– Quer que eu ligue pra alguém? – ofereceu a moça, gentil.

Zoe ficou olhando para seu reflexo no espelho e uma lágrima escorreu por seu rosto. Ela percebeu, triste, que não havia ninguém que ela precisasse contatar. Sua mãe surtaria e estava longe demais. Jaz não se importaria. Nina apenas se preocuparia com sua preciosa van. De repente ela se sentiu muito triste e sozinha. Jogou uma água no rosto, começando a limpar o sangue.

– Estou bem – afirmou ela por fim. – Estou perfeitamente bem.

– Você não parece bem – observou Agnieszka. – Está branca feito papel. Venha, tome mais um uísque. Embora eu provavelmente vá ter que te cobrar por este.

Zoe voltou ao saguão, que agora estava repleto de turistas igualmente chocados, embora não tão esfolados e surrados, aglomerando-se ao redor do bar e pedindo, em um inglês de sotaque carregado, uísque e chá. A mulher sorriu para ela com uma expressão de desculpas, indicou um sofá vazio e entrou atrás do bar. Zoe cambaleou na direção do sofá. Um homem alto se aproximou.

– Você está bem?

Zoe piscou para ele.

– Eu… Eu que te trouxe aqui pra dentro agora há pouco.

Ele entrou e saiu de foco de leve. Ombros largos. Aparência robusta. Cabelos escuros encaracolados. Suéter grande.

O homem estendeu a mão.

– Murdo. Prazer. Você está bem? Parece um pouco chocada.

– Estou… Estou bem – disse Zoe, olhando para todas as pessoas ao redor, o barulho e os sorrisos amigáveis de todos aqueles estranhos, e desmaiou no carpete antes de conseguir dar mais um passo.

 

A Dra. Joan estava segurando um estilhaço de vidro contra a luz, mas Zoe não fazia ideia de onde estava.

– Olhe só pra isto! – exclamou Joan. – É como naquela vez em que eu tirei um carretel inteirinho de arame farpado do estômago de um cavalo.

– Por diversão? – perguntou alguém, e Joan fez questão de não responder.

Zoe piscou e olhou para o próprio braço.

– Ai! – gritou.

– Sim, de fato – disse Joan. – Infelizmente, você estava inconsciente, então eu não podia pedir sua autorização para aplicar anestesia. Mas tirei mesmo assim.

– Aaaahhh – lamuriou-se Zoe à medida que a dor a inundava. – Tenho certeza que não foi culpa minha.

– Sim, a Nina sempre teve dificuldade em dirigir aquela van – concordou alguém sabiamente.

– Eu não estava com dificuldade! – protestou Zoe, ficando de repente bem alerta. – O ônibus estava com dificuldade! Estava vindo bem na minha direção.

– É uma van muito grande pra uma moça tão pequenininha – acrescentou outra pessoa.

Zoe se virou.

– Eu desviei pra não bater no ônibus! – reiterou. – Vocês deveriam estar me falando como eu fui corajosa e como salvei a vida de todos naquele ônibus evitando a batida!

As pessoas se voltaram para um homem baixinho e gorducho que estava usando uma gravata com nó pronto, uma camisa de manga curta e óculos de lentes bifocais coloridas – claramente, o motorista do ônibus. Ele ergueu as mãos.

– Dia ruim de tempestade pra todo mundo, né? – disse ele. – Ah, mocinha, fico feliz que você não tenha causado uma travessura.

– Você é que quase me causou uma travessura! – esbravejou Zoe, furiosa.

A proprietária a acalmou.

– Está tudo bem – disse ela. – Você sofreu um choque.

– Dois! – ralhou Zoe. – Primeiro tive que bater a minha van e agora o motorista está espalhando um monte de mentiras!

– Só estou contente por você não ter se machucado – murmurou o motorista. – Quando bateu a sua van.

– Eu estou machucada – disse Zoe, sacudindo o braço.

– Sabe… – continuou o motorista do ônibus. Alguém tinha entregado uma dose de uísque para ele também e ele parecia estar se tornando o herói do momento. – A última garota que dirigiu aquela van… A gente vê em todo lugar, é uma ameaça… – Para ser totalmente justa com o motorista do ônibus, às vezes era mesmo uma ameaça. – A última garota quase foi abalroada na passagem de nível. – Ele sorriu, benevolente, para Zoe. – Fico muito feliz por ter conseguido desviar de você.

– Sim, muito bem – concordaram algumas pessoas.

– É difícil para os ingleses – disse uma voz. – Eles não conhecem as estradas, não é mesmo?

Houve um murmúrio de concordância geral de que os ingleses não poderiam, de fato, conhecer as estradas. Zoe teria considerado ameaçá-los com um processo, não fosse pelo fato de que parecia cada vez mais provável que o motorista do ônibus encontraria 250 pessoas que achavam ser testemunhas oculares genuínas e deporiam a favor dele. Ela olhou para o braço dolorido.

– Ora, francamente – disse ela. – Só quero ir pra casa.

– Ótimo – disse o homem chamado Murdo. – Parece que você já está pensando com mais clareza.

– Estou – confirmou Zoe, franzindo o cenho para o motorista do ônibus, que agora estava sendo reconfortado e aplaudido pelos passageiros como uma espécie de herói. – Estou pensando que tudo isso aqui é uma imensa bobagem.

A van estava uma bagunça, livros por todo lado, o para-brisa não existia mais. Alguém tinha gentilmente removido o vidro quebrado. Mas e dali em diante?

Bem, a melhor coisa a fazer era ligar para alguém. Mas Nina estava no hospital e a última coisa de que ela precisava era um choque daqueles. Não havia ninguém no casarão para quem ela pudesse ligar – o que a Sra. MacGlone poderia fazer, afinal de contas? Ela suspirou e ficou olhando para o celular.

Atrás dela estava o homem que a tinha ajudado, seguindo na direção do que parecia ser um barco na beira da água.

– Você está bem? – perguntou ele.

– Não sei o que fazer – confessou Zoe, tremendo.

– Bem, ligue pra alguém, eu acho – respondeu ele, olhando para o buraco do para-brisa.

– Você sabe para quem ligar?

Ele sabia.

 

Os mecânicos ficaram presos atrás de algumas árvores que haviam tombado na estrada, mas, se ela pudesse esperar, eles chegariam lá. O mesmo valia para o ônibus. Lá dentro do hotel, Agnieszka estava ficando vermelha de entusiasmo com a quantidade de almoços que teria que preparar. As opções eram sanduíches de queijo ou sanduíches de queijo e presunto, então ela ficaria bem ocupada.

Zoe saiu para a estrada e começou a pegar os livros que haviam se espalhado quando a van sacolejou toda. Alguns estavam sujos e um pouquinho úmidos; outros tinham saído quase ilesos. Ela pensou que talvez pudesse fazer uma liquidação.

Murdo se aproximou dela e pegou um exemplar de O terror.

– O que é este aqui? – quis saber ele, olhando para o navio da capa com interesse.

– Ah, o Erebus e o Terror – disse Zoe. – Dois navios que foram tentar encontrar a Passagem do Noroeste e nunca mais foram vistos.

– E foi isso que aconteceu com eles?

– É um palpite – respondeu Zoe. – É bem horripilante, incrivelmente sombrio e muito, muito longo. – Ela refletiu. – Um livro quase perfeito, pra falar a verdade. Quanto mais você se deixa envolver pela história, mais gosta de ver como os personagens sofrem.

Murdo continuou olhando para o livro.

– Talvez eu fique com ele.

– Se estiver avariado, posso te dar um desconto – disse Zoe.

Murdo não mencionou que tinha pensado – depois de tê-la catado do chão, salvado de morrer queimada e ligado para a oficina mecânica – que provavelmente merecia ganhar o livro de graça.

– Certo – respondeu ele. – Vou ficar. Também sou marinheiro.

– Ah, é? – exclamou Zoe, olhando para ele.

Ele era robusto, quase gordo, mas de uma maneira reconfortante, e não feia. Seu rosto franco e amável estava vermelho e ele tinha olhos muito bem-humorados e brilhantes, ela não pôde deixar de notar. Então ela lembrou a si mesma o que tinha acontecido na última vez que reparara em olhos escuros brilhantes.

– Por onde costuma navegar? – perguntou Zoe.

Murdo apontou para o lago diante deles, que lambia a pequena orla.

– Eu piloto os nossos barcos de turismo – respondeu ele. – Não é exatamente como a Passagem do Noroeste. – Ele sorriu. – Embora fique um pouquinho emocionante de vez em quando.

Ambos olharam para as águas encrespadas.

– Um pouquinho emocionante demais hoje – ponderou ele. – Não para mim, claro – acrescentou rapidamente. – Para os turistas, digo.

– Você leva as pessoas pra procurarem o monstro? – questionou Zoe.

– Você bate vans cheias de livros em ônibus? – retrucou ele.

– Não fui eu!

– Está bem – aquiesceu Murdo. – Mas todo mundo precisa ganhar seu sustento.

– Você já…

– Talvez.

– Você não sabia o que eu ia perguntar.

– Você ia perguntar se eu já vi o monstro. Porque é isso que 99,99% das pessoas me perguntam; o restante está muito bêbado.

Zoe sorriu.

– Bem, fico muito feliz por ser uma pessoa bem entediante e podermos resolver logo isso. O que você quis dizer com “talvez”? É isso que você precisa dizer porque, caso contrário, ninguém vai fazer o passeio com você?

– Talvez – respondeu ele, numa repetição irritante.

– Pensei que já tivesse sido desmentido, de toda forma – disse Zoe. – Ciência e tal.

– Ciência e tal – repetiu Murdo, contemplativo. Ele coçou a juba de cabelos grossos. – Aham.

– Ah, isso é bom – disse Zoe. – Uma espécie de truque místico que não responde à pergunta direito. Muito bom.

Eles caminharam de volta para o hotel. Vários passageiros do ônibus estavam perambulando por ali. O ônibus ia demorar para ser consertado e eles estavam olhando dentro da van com curiosidade.

– Você tem algum livro sobre o lago Ness? – quis saber uma mulher que estava usando uma parca impermeável para amenizar o vento ainda cortante.

Por acaso, Zoe tinha dois, um para adultos e outro para crianças, e vendeu ambos instantaneamente.

– Seria de pensar – observou Murdo, que deveria estar fazendo reparos e manutenção no barco durante o tempo ocioso, com tempestade, e estava muito mais contente ali, batendo papo com aquela garota de cabelos escuros – que uma pessoa que toca uma livraria perto do lago Ness teria mais livros sobre o lago Ness.

– Né? – concordou Zoe, que já estava chegando àquela conclusão por conta própria. – Acho que vou encomendar alguns.

Agnieszka emergiu do hotel com um pano de prato jogado sobre o ombro e uma expressão feliz no rosto.

– É o maior movimento que já tivemos em meses – disse ela, alegre.

– Você deveria estragar mais ônibus – disse Murdo. – Monte armadilhas, tipo pregos na estrada.

Agnieszka bateu nele carinhosamente com o pano de prato.

– Cale a boca.

Ela se virou para Zoe.

– É difícil. O centro de visitantes oficial fica lá do outro lado. Eles que ficam com boa parte da clientela. Têm um museu legal e tudo mais. A gente fica com o que sobra.

– Ainda assim, parece ser bastante – disse Zoe, lembrando-se dos ônibus que via pela manhã.

Agnieszka suspirou.

– Ah, eles vêm, tiram uma foto, às vezes compram um sanduíche, usam o banheiro e aí vão embora de novo. Na verdade, tenho tido prejuízo com a quantidade de papel higiênico que gastam.

– Você não pode cobrar deles? – perguntou Zoe.

– Seria meio…

Agnieszka contorceu o rosto.

– Eles não pegam o barco aqui?

Agnieszka lançou um olhar irritado para Murdo.

– Ah, algumas pessoas saem do centro de visitantes. E, embora vivam praticamente aqui do lado, elas vão direto pro outro lado.

Zoe olhou para Murdo.

– Você mora aqui do lado e leva o barco pro outro lado todas as manhãs?

Ele olhou de volta para ela.

– Não faz muito tempo que você está vivendo nas Terras Altas, faz?

Zoe precisou se afastar para atender alguns clientes novos, que estavam comprando qualquer coisa escocesa que pudessem encontrar – ela chegou até a vender uma reedição dos romances de Waverley (o que iria fazer Nina estranhar. Quem também iria estranhar era o pessoal do check-in da companhia aérea que cobrava a bagagem por peso, bem como os netos da senhora canadense, um dos quais iria devorar a série completa e acabaria crescendo e se tornando o primeiro historiador da Terra Nova especializado em Sir Walter Scott e um especialista internacional, com uma carreira incrivelmente bem-sucedida como acadêmico da televisão).

– Talvez – respondeu ela, refletindo. – Talvez eu devesse vir aqui com mais frequência. Especialmente em dias chuvosos.

– Sabe os ônibus que estão voltando pra Edimburgo ou pra Londres? – comentou Agnieszka. – Acho que muitas pessoas gostariam de ter algo pra ler. Traga livros com letras grandes.

– E uns livros em outras línguas? – sugeriu Murdo. – Per favore seduti.

– Uau, impressionante – disse Zoe.

– – disse Murdo.

– Certo, agora você está me assustando – brincou Zoe.

– Ele fala seis idiomas – explicou Agnieszka, olhando com ternura para Murdo.

– Falo – confirmou Murdo. – Aquilo foi “Por favor, não fique em pé no barco”.

– Continuo impressionada – reiterou Zoe.

– Et vous pouvez manger bien dans notre retour au centre – disse ele. – Essa é a parte, Agnieszka, em que eu digo para eles comerem no centro de visitantes.

– Aquele lugar é horrível – disse Agnieszka.

– Sim – concordou Murdo pacientemente. – Mas lá eles conseguem comer outras coisas além de sanduíche de queijo ou de queijo e presunto.

– Todo mundo gosta de queijo e presunto – retrucou Agnieszka.

Enquanto conversavam na van, o temporal começou a ceder e até mesmo um raio de sol úmido espiou por detrás de uma nuvem, como se o sol estivesse se desculpando timidamente por toda a fúria tempestuosa que havia despejado sobre eles pouco antes. Zoe não conseguia se acostumar com tudo aquilo; com certeza não poderia haver qualquer outro lugar no mundo onde o tempo mudava tão depressa e tão completamente. Os paralelepípedos debaixo dos pés deles já estavam secando.

Eles saíram quando a multidão diminuiu e olharam para o hotelzinho marrom. As calhas precisavam ser limpas e as molduras das janelas requeriam consertos e pintura. Agnieszka suspirou.

– Você poderia fazer isso, sabe? – disse Murdo.

– Você sairia com seu barco daqui se eu fizesse? – perguntou Agnieszka.

Murdo deu de ombros.

– Talvez.

Ele se virou para Zoe.

– Você vai trazer sua van de volta pra cá?

– Não sei – respondeu Zoe. – Será que vai ter algum motorista de ônibus maligno pronto pra me tirar da estrada?

– Não tem problema admitir quando as coisas não saíram como você esperava – disse Murdo.

Zoe o fitou com olhos ferozes, bem quando a bem-vinda van da seguradora finalmente apareceu.