Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 22 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo dezenove

 

Zoe jamais teria imaginado como ficaria feliz em ver a Sra. MacGlone quando ela apareceu pontualmente às 8h30.

Nenhuma das crianças sequer ergueu os olhos quando ela entrou e colocou luvas de limpeza.

– Estou vendo que você já os conheceu – disse ela.

– Ah, sim! – respondeu Zoe, seguindo-a pelo corredor.

A Sra. MacGlone virou-se com um suspiro assim que elas ficaram longe do alcance dos ouvidos da criançada.

– Sim, a Mary é sempre daquele jeito. Sim, o Patrick tem um QI bem alto. Não, você não pode bater neles.

– Eu não planejava…

– Ah, acredite em mim, você vai querer.

– Por que eles não estão na escola? – quis saber Zoe.

A Sra. MacGlone fungou.

– A Mary foi suspensa. Aí o Shackleton brigou com alguém que zombou da irmã dele por ter sido suspensa, então também foi suspenso. O Patrick só deve começar depois do Natal.

Zoe piscou de espanto. Não tinha lhe ocorrido perguntar antes. O que é que eles faziam o dia todo?

– Por quanto tempo eles continuarão suspensos?

– Acho que a diretora é quem vai decidir isso.

– E o que eles fazem o dia todo?

– E eu lá sei? – respondeu a Sra. MacGlone, que tinha começado a polir o corrimão.

Ficou claro que havia uma única parte da casa que ela considerava sua responsabilidade, e não era a cozinha dos fundos.

Shackleton tinha começado a jogar um jogo bem alto e barulhento no computador. O som chegava lá da cozinha até elas, o que respondia ao menos a uma pergunta.

– Essas coisas barulhentas – resmungou a Sra. MacGlone.

Zoe observou o restante do largo corredor à luz do dia. Havia umas pinturas a óleo antigas nas paredes, algumas tapeçarias penduradas e uma grande cabeça de cervo com olhos brilhantes. A Sra. MacGlone a afastou do caminho, girou a maçaneta de uma enorme e pesada porta de madeira e a abriu devagar. A porta rangeu, prestativa.

O cômodo estava escuro, com as cortinas fechadas. A Sra. MacGlone estalou a língua sem paciência.

– Não tenho tempo pra isso hoje – disse. – Tenho a ala oeste, a roupa suja, a ala das crianças, as duas escadarias pra dar conta…

Ela se movia com agilidade e Zoe se perguntou quantos anos teria.

– A senhora tem muitas responsabilidades.

– Pode ter certeza que sim – resmungou ela. – Ele anda fazendo de novo… – continuou, encaminhando-se para as janelas e abrindo-as.

O sol brilhante inundou o cômodo, exibindo as partículas de pó flutuando no ar. Perplexa, Zoe virou a cabeça e, lentamente, ergueu os olhos para observar todo o espaço.

Para falar a verdade, era um salão lindo, que se estendia até uma enorme janela saliente na frente da casa – mas estava imundo. O mais impressionante era que cada centímetro quadrado das paredes era ocupado por prateleiras de livros de madeira antiga, que haviam sido construídas para se encaixarem nas paredes. O teto também era de madeira, o que tornava o cômodo bem marrom.

Mas os livros! Zoe nunca tinha visto tantos em um único lugar, nada como aquilo. Centenas e centenas, talvez milhares. Havia grandes volumes com capas de couro velhas, Bíblias e enciclopédias antiquíssimas e obras que pareciam livros de magia. Havia livros com encadernação dourada e manuscritos antigos delicadamente costurados. Guardados com cuidado atrás de um vidro havia diversos pergaminhos e – Zoe não conseguiu evitar ficar boquiaberta – um manuscrito iluminado. Um de verdade, na casa de alguém. Ela deu um passo adiante, fascinada e estranhamente tocada pela pequena figura pintada de um monge e do S rebuscado demais, emaranhado com folhas de videira, frutas e decorações meticulosas minúsculas em uma tinta que havia secado muitos e muitos séculos atrás.

Havia prateleiras repletas com as lombadas alaranjadas da Penguin Classic e prateleiras com as lombadas pretas da Penguin Classic; inúmeros atlas de todos os períodos da história empilhados; livros lindos de capa dura em vários idiomas; velhos originais de James Bond; e uma coleção antiga, com capa de tecido, de Dickens que Zoe queria tocar, mas decidiu que era melhor não.

Havia volumes enormes de história da arte, alguns livros infantis extraordinários que pareciam ser alemães e incontáveis outras obras, estendendo-se por todo o salão, ida e volta.

A mobília antiga era composta por duas poltronas diante de uma ampla lareira, uma mesa grande de tampo de couro verde com um antigo telefone de disco sobre ela, duas canetas, alguns papéis mata-borrão e nada mais.

– Minha nossa! – exclamou Zoe, quase se esquecendo do que queria dizer. – Uma biblioteca.

– Esta não é a biblioteca – corrigiu a Sra. MacGlone, franzindo o cenho. – Ninguém a usa. Não há motivo.

– Sério? – indagou Zoe, pensando nas três crianças amontoadas na cozinha, vidradas em seus celulares. – Pensei que poderia ser bastante útil.

– Pensou, é? – A voz era grave, estrondosa e, acima de tudo, parecia surpresa. Zoe virou-se, assustada.

Um homem enorme estava parado ali, ocupando todo o espaço, ao que parecia. Ele era alto demais para a porta; quase comicamente alto.

– Estou apenas mostrando a casa para a nova garota – explicou a Sra. MacGlone. – Vamos deixá-lo em paz, senhor.

– Só a mantenha longe da minha biblioteca.

– É claro!

Houve uma breve pausa e então um barulho alto:

– PAPAI!

Patrick entrou voando do corredor como uma bala de revólver. Mary apareceu logo atrás.

– A MARY está implicando comigo! E o Shackleton não me deixa jogar! E ele acabou com a geleia porque ele é PÉSSIMO.

– Papai! Pare, Patrick! Ele está mentindo! Ele é ridículo, odeio ele.

– A gente… a gente não odeia ninguém, Mary – repreendeu o homem alto, estendendo as mãos em um gesto que claramente indicava uma atitude conciliadora.

– Você pode não odiar – retrucou Mary. – Mas eu odeio.

E ela olhou diretamente para Zoe.

– Certo, certo – disse o homem, distraído.

Zoe se percebeu incomumente nervosa. Aquele era o homem que a mulher havia deixado. Ramsay Urquart. O que tinha acontecido? Será que ele era cruel?

– Tem mais! – continuou Patrick. – Tem um bebê na cozinha que não sabe o próprio nome.

– Tem, é? – indagou o homem. – Certo.

– Esta é a Zoe – apresentou a Sra. MacGlone sem entusiasmo algum.

Zoe suprimiu uma vontade idiota de fazer uma reverência.

– Olá – cumprimentou ela. – O bebê na cozinha é meu.

– Entendo – ele disse. – Então você é…

– A Babá Sete – elucidou Patrick solicitamente.

– Sei. Certo, certo – repetiu Ramsay. Zoe franziu a testa. – Bom, seja bem-vinda, acho. Tente ficar um pouco mais que as outras! Haha!

– Eu gostaria, senhor – respondeu Zoe. – Só… me diga do que elas gostam e eu tentarei fazer com que todo mundo se divirta.

Ele fez uma careta.

– Na maior parte do tempo, eles gostam de brigar, pelo que sei – disse ele. – Eu só… Bem, eu tenho muito trabalho a fazer.

– O que o senhor faz?

– Vendo livros antigos.

Zoe pareceu confusa.

– Eu compro e vendo livros velhos. Livros bem velhos. E viajo muito… por todo o país…

– É importante que ele não seja perturbado – lembrou a Sra. MacGlone.

– Extremamente importante – concordou Patrick, embora ainda estivesse agarrado à calça do pai.

– Então deixe ele em paz, aberração – sibilou Mary.

– CALA A BOCA! – berrou Patrick.

– Ora, ora – repreendeu o homem. Ele olhou para Zoe. – Então, hum… se esforce ao máximo…

– É claro – respondeu Zoe.

Ela já conhecia aquele tipo, embora em geral eles fossem homens um pouquinho mais serenos, nunca largassem o celular ou vivessem em aviões; viam os filhos como interrupções irritantes em suas vidas extremamente importantes, e ela não gostava muito deles.

– O Shackleton ainda está no computador? – perguntou Ramsay à Sra. MacGlone, que confirmou com a cabeça.

Ele suspirou. Então ajoelhou-se e tomou as duas crianças nos braços, fazendo um carinho desajeitado em seus ombros. Zoe se perguntou se seria por causa dela, o que se confirmou quando ela o ouviu sussurrar para eles:

– Por favor, sejam legais com ela. Por favor. Não podemos continuar desse jeito, não é?

Nenhuma das crianças respondeu, mas a expressão de Mary era dura. Ele se endireitou novamente.

– Ótimo! Maravilha! A Sra. MacGlone vai lhe mostrar a caixa dos produtos de limpeza, mostrar o que é o quê. Só uma coisinha…

Patrick se afastou, parecendo irritado.

– Ele vai com certeza falar sobre a biblioteca – murmurou ele para si mesmo enquanto Zoe o observava ir.

– Só… Bem, sim. Não os deixem entrar na minha biblioteca.