Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 41 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo trinta e oito

 

Então eles passaram o restante do longo e aprazível domingo mexendo nas coisas, tirando o pó, limpando e, quanto Patrick e Hari, na maior parte do tempo, caçando aranhas. Mary voltava de tempos em tempos para se certificar de que eles não estavam tirando nada do lugar e Zoe lhe mostrou solenemente o grande baú onde estavam guardadas todas as coisas – chaves, relógios quebrados, brincos sem par, cachecóis aleatórios – que pareciam ter alguma importância e a lixeira onde estava descartando todo o resto – bolas de tênis e pincéis velhos, meias esfarrapadas, folhetos, cartões de Natal, pedaços de giz de cera e raquetes sem corda.

Mary não disse nada, apenas ficou observando com atenção os procedimentos. Zoe se perguntou, enquanto a observava se afastar, se teria feito diferença se Hari fosse menina, alguém com quem ela pudesse brincar ou cuidar ou ao menos ter algum interesse. Zoe olhou novamente para ela. A pobrezinha, com os cabelos desgrenhados, mal conseguia se interessar por si mesma. Zoe determinara, com certa severidade, que Mary limparia as janelas, de modo que ela não precisaria ficar lá dentro com eles se não quisesse, e, depois de claramente cogitar uma discussão, Mary se rendeu, do jeito mais rabugento e imaturo possível, mas que já era, pensou Zoe, alguma coisa.

Patrick encontrou, para seu deleite, um baú enorme de brinquedos antigos que, de alguma forma, tinha acabado esquecido atrás de um sofá velho na sala de estar – por que é que aquilo sequer estava ali?, Zoe se perguntou – e o abriu. Em dois minutos, Patrick e Hari estavam brincando pela casa com fantasias de caubói, atirando um no outro com arminhas d’água. Patrick emitia ruídos de “bang, bang” e Zoe prestou bastante atenção caso alguma outra vozinha o ecoasse – mas nada. Eles encontraram uns cavalinhos de pau com rodinhas antiquíssimos e começaram a cavalgar por toda parte, metendo-se no caminho. A melhora nos cômodos do piso inferior foi gradual, porém definitiva, após Zoe arrancar todas as capas de almofadas e jogar na máquina de lavar. A imundície das prateleiras era bastante perturbadora e todos eles foram ficando cada vez mais sujos, com manchas de poeira no rosto, e Shackleton foi, surpreendentemente, bastante solícito, subindo escadas e usando incontáveis panos com uma energia vigorosa e bom humor. Zoe sorriu; ela não imaginaria que ele tinha aquela vitalidade toda.

– Acho que a falta do wi-fi está fazendo bem pra você – provocou ela, e ele sacudiu o espanador em sua direção de um jeito ameaçador brincalhão.

 

Ramsay estava voltando de Londres, sentindo-se indescritivelmente exausto e fatigado. Aqueles dois dias tinham sido difíceis. Ele estava com o novo catálogo da Sotheby’s, repleto de obras que não tinha dinheiro para comprar, e esperava encontrar algo bacana que pudesse vender, mas que não o deixaria triste demais por se desfazer dele.

É claro que não seria o suficiente. Nunca era. Não diante do que a casa precisava. Do que as crianças precisavam. O velho advogado de seu pai sugerira que ele vendesse parte da propriedade, que eles receberiam juros – aparentemente, a casa poderia ser transformada em um belo hotel de luxo –, mas ele não podia. Ele simplesmente… Não. Ele não podia. Eles encontrariam outra saída.

Por que tinha que ser o único que não arrumara um emprego decente, ao contrário daqueles idiotas da faculdade, que tinham mudado para a cidade e feito fortuna? Ele sempre amara livros, era só isso. Nunca realmente pensara muito no dinheiro, o que, ele admitia, era culpa só sua, por ter crescido em uma família privilegiada. Não que eles fossem tão bem de vida – seu pai também nunca tinha dinheiro. Crescer em uma propriedade como a The Beeches deveria ser uma recompensa em si – ou fardo –, e todo o dinheiro era empregado apenas em bancar as contas de luz.

Ele esperava um dia convertê-la em um lugar feliz; transformar os cômodos escuros e a decoração desgastada, e torná-la um local maravilhoso para sua família crescer e se esbaldar, assim como ele tinha feito com os amigos quando era mais jovem – pescando, caminhando todos os dias durante horas até o lago, remando pelo Ness ou construindo casas em árvores. Era por isso que tinha concordado em ficar com a propriedade, assumir sua custódia sagrada. E então seu pai falecera e ele acabara meio que preso àquela herança.

Além disso, quando seu pai partiu, com ele se foi o refúgio glorioso que ele sonhava construir para seus filhos, assim como havia sido para ele.

Aquele sonho – ele suspirou, como fazia sempre que pensava no assunto – tinha evaporado.

Enquanto subia a via de entrada da casa em seu velho Land Rover, contudo, algo o aturdiu e, por um instante, ele não conseguiu apreender o que era. Então percebeu. A porta da frente estava aberta. Em um primeiro momento, ficou preocupado – será que tinha acontecido alguma coisa? Será que alguém tinha entrado na casa? Será que alguma visita tinha aparecido?

Então notou que as venezianas da sala de visitas do piso térreo estavam abertas e que era possível ver dentro do cômodo pela primeira vez em… bem, um tempão. Aquele numa escadinha era o Shackleton? Ah, minha nossa, aquela com uma esponja na mão era a Mary?

Esfregando os olhos com as mãos grandes, Ramsay fez o melhor que pôde para assimilar aquela visão. Ele estacionou e saiu do carro devagar. Dava para ouvir… música tocando. E aquele era o Patrick rindo? O cachorro idiota do Wilby tinha se soltado de novo e estava saltitando por todo lado.

– Papai! – gritou Mary, correndo até ele e enterrando o rostinho em sua barriga, como sempre fazia, escalando-o daquele jeitinho levemente desesperado que ele conhecia bem.

– Oi, querida – disse ele, erguendo-a embora ela estivesse… Será que ela estava ficando mais pesada? Ele estava tão acostumado com ela leve como uma pluma. Bem, aquele era um bom sinal. Ele a manteve em seus braços e ela se agarrou a ele como um bebê macaco.

– O que vocês estão aprontando?

O coração de Zoe começou a palpitar no peito quando ela ouviu o carro se aproximar, mais ruidoso que o rádio. Será que ele ficaria irritado? Furioso? Indiferente? Era tão difícil. Ela estava acostumada com pais cheios de opiniões ferrenhas com relação ao que queriam que seus filhos fizessem. Aquilo tudo era novidade. Ela não fazia a menor ideia do que estava se passando na cabeça dele.

Ela precisava conversar com ele, sabia que precisava. Aquilo não era uma negligência inocente. Deixar as crianças comerem torrada o dia todo… Não irem à escola… Usarem roupas que não cabiam mais. Aquilo estava perigosamente perto de ser uma negligência de verdade. Ela precisava conversar com ele com relação àquilo. Ela iria com certeza absoluta conversar com ele.

Seu primeiro pensamento foi de como ele parecia exausto. Aquilo a irritou por motivos que ela não conseguia realmente definir; não era justo, se ele tinha dirigido um longo trajeto. Mas qual poderia ser a dificuldade em mexer com livros antigos? Ele nem sequer estava tentando vendê-los para as pessoas, como ela. E ele certamente não estava pegando no pesado com relação às crianças.

Ela não tinha parado para pensar, nem por um segundo, em como estava imunda até vê-lo olhando fixamente para seu rosto, então de repente se deu conta de que estava coberta de sujeira. Ela esfregou o nariz, que tinha uma grande mancha preta nele, perguntando-se se teria piorado (tinha) e se deveria tirar o velho cachecol que tinha usado para amarrar os cabelos ou se essa também seria uma atitude estranha.

– Hum – murmurou Ramsay.

– Papai! Venha ver! – gritou Patrick.

Ele ainda estava usando a fantasia de caubói com um vestido de princesa por cima – uma peça deslumbrante, nada parecida com aquelas fantasias de náilon do supermercado –, que devia ter sido de Mary há muito tempo. Parecia ter sido feito à mão. Mary percebeu que ela estava observando e escondeu a cabeça nos ombros do pai.

– A GENTE FEZ FAXINA! – anunciou Patrick.

Ramsay olhou para o garoto e, pela primeira vez, sorriu. O sorriso mudava o rosto dele, Zoe pensou, percebendo como se sentiu aliviada. Havia uma chance de que talvez ele ficasse furioso e começasse a esbravejar por ela ter tocado em suas coisas. Ela não fazia ideia de quem aquele homem era nem de por que a esposa o tinha deixado. Mas ela realmente não conseguia suportar viver em um lugar tão sinistro. Então…

Zoe percebeu que tinha cruzado os braços e devia estar parecendo uma Sra. MacGlone irritada, com algumas décadas a menos de idade. Ela os descruzou instantaneamente.

– Estou vendo – disse ele, entrando no corredor, com o chão lavado e brilhando, os casacos alinhados em uma fileira, as pinturas desempoeiradas e endireitadas, as paredes limpas e as janelas brilhando (depois que Zoe refizera todo o trabalho de Mary). – Minha nossa – murmurou apenas.

Então eles o levaram até a sala de visitas e ele se virou.

Ramsay se lembrou de repente, com uma clareza lancinante, do dia em que a levara para casa… Também era um dia ensolarado e ventoso, com a promessa do verão no ar, a mudança das estações, e tudo estava brilhando, ou parecia cintilante e novo, e tudo era repleto de possibilidade e esperança…

– Você não AMOU? – perguntou Patrick, confuso.

Hari tinha se escondido atrás do sofá. Homens altos o assustavam.

Ramsay piscou, olhando para algo que simplesmente não estava ali.

– Eu… Sim – respondeu ele. – Eu… Eu gostei mesmo. – Ele olhou para Zoe. – Obrigado…

– Babá Sete – informou Patrick, solícito.

– Hum… – Ramsay vasculhou seu cérebro. Minha nossa, ela realmente estava imunda. Será que ela sabia como estava suja? Qual era mesmo o nome dela? – … Zoe.

– De nada – respondeu Zoe.

Ela olhou em volta. Eles estavam quase no fim. Ramsay e Shackleton podiam colocar os móveis de volta no lugar enquanto ela estendia as colchas sobre as velhas almofadas e arrumava os sofás. Zoe olhou para as cortinas antigas, que haviam sido aspiradas, mas agora pareciam realmente surradas em comparação com o restante do cômodo.

– As cortinas também precisam ser lavadas.

Ramsay deu um passo adiante para dar uma olhada, então seu pé enorme escorregou no piso polido molhado e ele desabou direto no sofá, parecendo bastante surpreso, sobre as almofadas recém-afofadas por Zoe.

Zoe o observou com atenção. Aquele era o tipo de coisa – um momento de perda de dignidade – que deixaria muitos homens irritados, querendo disfarçar a situação imediatamente. Homens que eram muito assustadores, que eram maus de verdade, não suportavam ser engraçados.

Ramsay explodiu em uma gargalhada por se encontrar em posição tão constrangedora.

– Vocês… limparam o candelabro? – indagou, boquiaberto, ficando ainda mais perplexo quando Zoe indicou que havia sido Shackleton quem limpara.

O sorriso dele se alargou.

– Bom, fico feliz por ter tropeçado nesses meus pezões idiotas, então… – disse ele, apertando os olhos. – Porque, vou dizer pra vocês, está tudo muito melhor. Especialmente deste ângulo.

Patrick pulou no peito do pai.

– Você pode ficar aqui e ser um cavalo? – perguntou aos gritos.

Zoe olhou para Ramsay, para os cachos que escorriam pelo rosto cansado, a expressão amável. Os olhos dele se fecharam brevemente antes de dizer “É claro” e, quando Zoe saiu para pegar chá, ela se surpreendeu ao ver Hari espiando por trás da cortina – sem participar, mas certamente observando a diversão.

– Sabe – disse ela em um tom que tentou fazer não parecer muito mandão –, é muito bom quando você passa um tempo com as crianças. Você realmente deveria fazer isso com mais frequência.

Todos congelaram. Ramsay se levantou bem devagar.

– Obrigado – disse ele em tom gélido. – Obrigado pelo conselho. Fico muito contente de ter contratado uma especialista na minha família.

E deu as costas e foi embora.

Zoe xingou a si mesma – ela esperava que talvez Ramsay se juntasse a eles para o jantar, para que ela pudesse pedir um lava-louça a ele, algo de que eles precisavam desesperadamente. Mas eles não o viram mais aquela noite.