Um novo capítulo para o amor
Capítulo dois
– Para quem você alugou o celeiro? Eles não podem ajudar?
Surinder Mehta estava ao telefone, sentada na cozinha de sua pequena casa em Birmingham, tentando dar conselhos construtivos a sua amiga Nina, que estava fazendo o que as pessoas costumam fazer quando recebem conselhos construtivos – rebatendo tudinho.
Nina administrava uma livraria móvel nas Terras Altas da Escócia. Isso estava prestes a se tornar temporariamente complicado, visto que ela também tinha se apaixonado por um fazendeiro muito bonito e o inverno tinha sido particularmente longo, sombrio e aconchegante, e, francamente, essas coisas aconteciam. Lá na Escócia, ela acariciou a barriga de grávida, irritada. Eles não tinham conseguido colocar a livraria à venda.
– Eles trabalham na lavoura! Estão ocupados!
– Deve ter alguém que possa ajudar. E aquela garota que costumava fazer faxina pra vocês?
– A Ainslee está na faculdade agora. Simplesmente não tem… Todo mundo por aqui já tem três empregos. Aqui é assim. Simplesmente não tem gente suficiente.
Nina olhou pela janela da fazenda. Era época de colheita e todos estavam com a mão na massa. Ela conseguia avistar figuras distantes nos campos, abaixadas. A luz era dourada, o vento soprava pelos campos de cevada. Ela tinha sido poupada da colheita aquele ano, mas ainda precisaria cuidar de muita coisa. E então teve que voltar à fazenda para fazer sopa para todos que estavam trabalhando até tarde.
– Bem – disse ela por fim –, pense no assunto.
– Não vou largar meu trabalho para cobrir a sua licença-maternidade! – disse Surinder. – Isso não significa que eu não te ame, então não distorça as coisas.
Nina permaneceu sentada na cozinha depois que elas desligaram, suspirando. Tudo tinha começado tão bem… Ela relembrou o dia: Lennox estava supervisionando o parto das ovelhas no campo de cima; a primavera havia chegado tarde e muitos cordeirinhos precisavam nascer em condições difíceis, com ventos cortantes e, em muitos casos, neve. Ela não tinha certeza absoluta de qual seria a reação de Lennox. Ele já havia sido casado e ela não queria que ele pensasse que ela estava fazendo cobranças – ela estava perfeitamente feliz com aquela situação. E ele não iria querer um alvoroço; estardalhaços não faziam o estilo dele.
Ela ficara tão distraída aquele dia que tentou vender o mesmo romance de Dorothy Whipple duas vezes para a Sra. McGleachin, o que teria causado um incidente diplomático de pequeno porte. Ela também distribuiu as apostilas erradas para o exame simulado e se pegou escondendo O que esperar quando você está esperando atrás das costas toda vez que alguém subia os degraus da pequena livraria volante. A lojinha, com seu candelabro oscilante e as prateleiras azuis, o cantinho dos pufes para a criançada e a mesa pequenina, agora contava com uma rede sem fio, da qual Nina se orgulhava tremendamente (quando funcionava, se o wi-fi estivesse soprando na direção certa) e que muitos dos residentes mais antigos de Kirrinfief consideravam bruxaria.
Finalmente, Nina desceu o morro com a van, checou o cozido que deixara no fogo aquela manhã e cumprimentou o exausto Lennox com um sorriso delicado e um beijo intenso.
– Livro? – sugeriu ela após o jantar.
– Ah, Nina. Eu tive uns problemas com o gado hoje… – respondeu ele. Mas então ele viu a expressão dela. – Tá, tudo bem, só um pouquinho – aquiesceu, puxando Salsinha, o cão pastor, para baixo de seu braço.
Com o coração palpitando enlouquecidamente, Nina tirou o livro que escolhera do saquinho de papel reciclado que usara para manter a capa limpa. O título era simplesmente Olá e a obra era lindamente ilustrada com uma série de gravuras impressionistas que mostravam como um bebê aprendia a enxergar, começando em preto e branco, com as bordas bem borradas, e, à medida que as páginas avançavam, ficando cada vez mais focadas e coloridas – do movimento das nuvens à sensação do vento –, até chegar à última página, que exibia uma imagem muito bem desenhada, superdetalhada, de um bebê e uma mãe olhando um nos olhos do outro, com uma única palavra: “Olá.”
Em vez de pegar no sono como geralmente acontecia, Lennox ficou o tempo todo petrificado, enquanto a voz de Nina vacilava à medida que ela virava cada página. Ele olhava para ela como se nunca a tivesse visto. Até mesmo Salsinha permaneceu acordado, sentindo uma tensão no ambiente.
Quando terminou, com as mãos tremendo de leve, Nina fechou o livrinho cartonado com um ar decidido, baixando os olhos. Houve uma longa pausa; não se ouvia nada além do tique-taque do velho relógio, no qual era preciso dar corda uma vez por semana, em cima do aparador de madeira. Tique, taque, tique, taque.
Nina não conseguiu suportar. Lentamente ela ergueu os olhos. Lennox estava olhando para ela com uma expressão de incredulidade no rosto.
– Acho que você deveria me dizer se está feliz – disse Nina rapidamente.
– Ah! – exclamou ele. E, de seu jeito nada efusivo, disse: – Bem, caramba.
Nina olhou ansiosa para o rosto dele.
– Sei que não discutimos essa questão – disse ela. – Mas também não decidimos não discutir…
Ele concordou com a cabeça.
– Então…
– Esta é uma daquelas ocasiões em que vamos ter que conversar – ponderou Nina. – Em que você precisa abrir a boca pra falar. Tipo, você está contente? Está feliz?
Ele a fitou, consternado.
– É claro que estou – afirmou ele, como se estivesse chocado por ela sequer ter pensado que ele poderia sentir outra coisa (como, de fato, sentia).
– Quer dizer, a gente faz aquilo bastante – murmurou Nina. – É meio que uma consequência.
– Eu sei, obrigado. Sou fazendeiro.
Ela sorriu para ele enquanto ele estendia os braços e a colocava em seu colo, beijando-a delicadamente. As mãos dele desceram até sua barriga.
– Essa barriga é só a minha de sempre ainda – disse Nina. – Acho que o bebê é do tamanho de uma ervilhinha.
– Bem, também gosto de você. Então… pra quando?
– Acho que novembro. Vai ser legal fazer aniversário em um mês bastante chuvoso e enfadonho, quando não há muito o que fazer.
Ele soltou um longo suspiro e apoiou a cabeça grande na cabeça pequenininha de Nina.
– Bem – disse ele. – Vai ser… Vai ser…
Nina riu.
– Diga alguma coisa.
Houve uma longa pausa enquanto ele a abraçava forte.
– Perfeito – concluiu ele enfim, bem baixinho. – Vai ser perfeito.
E eles ficaram daquele jeito por um bom tempo.
Então, isso estava nos conformes. Todo o resto, nem tanto.