Um novo capítulo para o amor
Capítulo um
– Então, me fale sobre o choro.
Gentil porém formal, a mulher permanecia sentada atrás da velha e surrada mesa do Serviço Nacional de Saúde. Um pôster na parede sugeria um acrônimo confuso que a pessoa deveria lembrar se achasse que estava tendo um derrame.
A ideia de ter que lembrar de um acrônimo enquanto sofria um derrame estava deixando Zoe bastante ansiosa, mais ainda do que o mero fato de estar ali. Uma veneziana imunda mal tapava uma janelinha com vista para outro paredão de tijolos vermelhos e o carpete áspero exibia manchas de café.
– Bem, quase todas as segundas-feiras – respondeu Zoe, observando os belos e brilhosos cabelos escuros da mulher. Seus cabelos também eram escuros, mas, naquele momento, estavam presos desajeitadamente com algo que ela esperava que fosse um elástico de cabelo e não, por exemplo, um elástico que o carteiro tinha deixado cair. – E sabe como é. Quando o metrô está atrasado ou quando não consigo colocar o carrinho no vagão. Ou quando alguém reclama porque estou tentando entrar com o carrinho, porque, se eu não levo o carrinho, eu chego uma hora atrasada, embora ele já esteja grande demais pro carrinho, eu sei disso, obrigada, então pode parar de me julgar. Ou então quando fico presa no trabalho contando cada minuto até ir buscá-lo, o que estraga meu dia inteirinho de trabalho. Ou quando eu penso em, quem sabe, pegarmos o ônibus, e aí, quando chegamos ao ponto, o motorista fecha as portas, mesmo tendo me visto, porque não quer ter trabalho com o carrinho. Ou quando acaba o queijo e não posso comprar mais. Você viu o preço do queijo? Ou…
A mulher sorriu gentilmente, ao mesmo tempo que parecia um pouco ansiosa.
– Estava falando do seu filho, Sra. O’Connell. Quando é que ele chora?
– Ah! – murmurou Zoe, aturdida.
Ambas olharam para o garotinho de cabelos escuros brincando cuidadosamente com uma fazendinha montada no canto da sala. Ele as fitou, desconfiado.
– Eu… Eu não tinha entendido – respondeu Zoe, percebendo subitamente que estava prestes a chorar de novo.
A gentil Dra. Baqri empurrou em sua direção a caixa de lenços que deixava na mesa, mas não ajudou em nada. Pelo contrário.
– E é “senhorita” – corrigiu Zoe, com voz vacilante. – Bom, ele está bem… Quer dizer, algumas lágrimas, mas ele não… – Agora ela tinha certeza de que iria chorar. – Ele não… emite som algum.
Ao menos, Zoe pensou – depois de ter enxugado as lágrimas, perdido um pouco as estribeiras de novo e então se recomposto ao perceber, para seu horror, que a consulta que eles haviam esperado tantos meses para conseguir estava quase no fim e que ela havia passado boa parte do tempo aos prantos, olhando para a Dra. Baqri cheia de esperança e desespero, agora com Hari se agitando alegremente em seu colo –, ao menos a Dra. Baqri não tinha lhe dito o que as pessoas sempre diziam…
– Sabe, o Einstein… – começou a Dra. Baqri, e Zoe grunhiu internamente. Lá vinha: – … só foi começar a falar com 5 anos.
Zoe deu um meio sorriso.
– Eu sei, obrigada – respondeu ela entre dentes.
– Mutismo seletivo… Ele sofreu algum trauma?
Zoe mordeu o lábio. Céus, ela esperava que não.
– Bem, o pai dele… vai embora e volta, de vez em quando – contou ela, acrescentando em um tom suplicante, como que esperando que a médica a aprovasse: – M-mas isso não é incomum, né? Você gosta de ver o seu pai, não gosta?
Ao ouvir falar no pai, o rostinho de Hari se iluminou, como sempre acontecia, e ele enfiou um dedinho gorducho inquisitivamente na bochecha dela.
– Logo – disse Zoe a ele.
– Quando foi a última vez que você o viu? – perguntou a médica.
– Hã… Três… Seis…
Zoe tentou lembrar. Jaz passara o verão todo longe, para falar a verdade. Ela vivia dizendo a si mesma para parar de segui-lo no Instagram, mas era como um vício terrível. Ele tinha ido a uns quatro festivais. Havia várias fotos dele com chapéus coloridos.
– Bem – disse a médica, que tinha jogado um joguinho de cartas com Hari, ensinado o garoto a estalar os dedos, brincado de “Cadê o bebê?” com ele e feito o pequeno encontrar coisas que ela havia escondido pela sala, todas ações que o menininho de 4 anos tentara executar, retornando nervosa e constantemente para o colo da mamãe com os olhos escuros arregalados e assustados. – Trata-se de um distúrbio de ansiedade social.
– Eu sei.
– É bastante incomum – a médica examinou suas anotações – uma criança não falar nem mesmo com a mãe ou o pai. Tem algo em casa que ele ache perturbador?
Eles viviam no térreo de um sobrado vitoriano horroroso em uma rua movimentada em Wembley. Os canos rangiam, o vizinho de cima vivia chegando em casa bêbado e ouvia música nas alturas até de madrugada. Às vezes ele recebia uns amigos em casa, que batiam na porta e riam alto. Juntar dinheiro para a caução de um novo lugar – sem contar o aluguel – era um sonho impossível. O Conselho tinha lhe sugerido uma hospedaria, mas ela achava que poderia ser ainda pior. Sua mãe não podia ajudar – ela se mudara para a Espanha há algum tempo e estava achando cada vez mais caro, virando-se com uma pensão em libras e trabalhando em um bar pavoroso com imagens de ovos fritos na janela.
Além disso, desde que engravidara sem querer de Hari, Zoe passava um tempão fingindo para sua família e seus amigos que estava bem, que estava tudo sob controle. Ela não suportaria encarar a seriedade de toda aquela situação. As consequências, contudo, eram dramáticas.
A Dra. Baqri percebeu a expressão de Zoe.
– Não estou… Não estou culpando você.
O lábio de Zoe voltou a tremer.
– Quer saber? – continuou a médica. – O vínculo de vocês parece bem forte. Ele é tímido, mas não acho que esteja traumatizado. Às vezes… Às vezes as coisas são simplesmente assim.
Houve uma pausa bem longa.
– Essa – disse Zoe baixinho – foi a coisa mais gentil que alguém me disse em muito tempo.
– Nós normalmente começamos com um sistema de recompensa por esforço – explicou a Dra. Baqri, entregando a ela uma pilha de gráficos e listas de objetivos. – Nada além de encorajamento, é claro. Oferecer algo legal em troca de um sussurro… uma guloseima em troca de uma canção.
Zoe piscou, tentando descobrir de onde tiraria o dinheiro para guloseimas, sendo que ela já estava desesperada por não saber o que eles fariam quando ficasse frio demais para Hari usar suas sandálias de verão todo dia.
– Podemos entrar com medicação se isso não funcionar.
Zoe ficou apenas olhando para ela. Medicar seu garotinho lindo. Aquele era o fim da linha – literalmente: eles tinham levado duas horas para atravessar Londres em um dia escaldante para uma consulta com uma fonoaudióloga de renome, depois de terem aguardado por oito meses na lista de espera.
– Você conversa bastante com ele? – quis saber a Dra. Baqri.
– Aham – respondeu Zoe, finalmente feliz por haver algo que não parecia ser culpa sua. – Sim! Eu faço isso! O tempo todo!
– Bem, certifique-se de não falar demais. Se você entende tudo que ele precisa e quer, não há motivação para ele falar. E é disso que precisamos.
A Dra. Baqri se levantou. Ao ver a expressão chocada de Zoe, ela sorriu.
– Eu sei que é difícil aceitar que não existe uma fórmula mágica – disse ela, juntando os folhetos.
Zoe sentiu o nó na garganta novamente.
– É difícil mesmo – respondeu ela.
Era difícil mesmo.
Zoe tentou sorrir encorajadoramente para seu menino. Mas durante o trajeto naqueles dois ônibus lotados e barulhentos, cheio de adolescentes voltando da escola, gritando e berrando e assistindo a vídeos em seus celulares, e pessoas amontoadas, e o ônibus andando penosamente devagar, e Hari tendo que sentar em seu colo para dar lugar a outras pessoas e fazendo sua perna ficar dormente, e tentando não calcular quanto tinha custado mais uma falta ao trabalho, e como sua chefe, Xania, realmente estava no limite da paciência, porque ela vivia tirando folgas, mas não podia perder o emprego, tudo parecia demais para suportar. E quando eles enfim chegaram em casa, fechando a imunda porta interna de aparas de madeira, com Hari cambaleando de cansaço, havia uma carta no tapete que estava prestes a tornar tudo substancialmente pior.