Um novo capítulo para o amor
Capítulo vinte e nove
– Sabe – disse Zoe, ainda nas nuvens enquanto se preparava para sair –, eu provavelmente conseguiria colocar o Patrick na creche também. Tenho certeza de que tem vaga.
Seria legal para Hari ter um amiguinho, pensou ela. A Sra. MacGlone deu de ombros.
– Não acho que o patrão vá aprovar – respondeu ela. – Muita…
Zoe piscou. Ela não sabia o que a mulher estava querendo dizer.
– Muita… especulação. – A Sra. MacGlone disse aquela última palavra bem baixinho, lançando um olhar de advertência na direção de Patrick. – Já tivemos problemas demais na escola.
– Bem, eles vão ter que voltar à escola – ponderou Zoe. – Posso perguntar…? – continuou ela, decidindo mergulhar de cabeça.
Patrick e Hari agora estavam correndo atrás de Porteous ao redor da mesa da cozinha, fazendo a maior algazarra. Shackleton às vezes esticava a perna para derrubar Patrick, que o chutava ferozmente.
– Não pode, não – determinou a Sra. MacGlone, estreitando os lábios. – Não sou de encorajar fofoca e especulação, Srta. O’Connell. Já tem boatos demais circulando sobre esta família.
Ela marchou para fora da cozinha levando uma lata de polidor de metal e um calhamaço de jornais velhos.
– Eles ficam chateados – disse ela ao passar por Zoe. – Você não percebe? Qualquer um ficaria. E o patrão não vai gostar nem um pouquinho. Se você quer continuar aqui, é melhor não se meter.
Mesmo assim, o ânimo de Zoe estava melhor do que no dia anterior enquanto ela sacolejava estrada abaixo com Hari, depois que eles passaram por Mary, perambulando sozinha pela grama alta na direção do lago. Zoe a observou. Ela sabia que a garota jamais pensaria que um adulto terrível, como ela, poderia entender exatamente o que estava passando – solidão e perda. Observou a menina pegar uma pedra e arremessar, formando um arco perfeito no ar enevoado, aterrissando no lago inerte com um barulho que ela não conseguiu ouvir por causa do motor ruidoso do carro.
Ela seguiu dirigindo, passando pelos ônibus que abarrotavam o estacionamento próximo ao lago Ness, o que a fez pensar que, caso realmente existisse um monstro que já vivia ali há centenas de anos, se tinha uma coisa que ele devia ter aprendido a evitar era um estacionamento cheio de gente barulhenta procurando por ele.
Para se distrair, ficou inventando musiquinhas bobas sobre cachorros para Hari que encaixavam nas canções que estavam tocando no rádio. Naquele dia ela seria pontual, organizada, útil e mais aberta com Nina para tentar convencê-la, de alguma forma, de que contratá-la não tinha sido um caso terrível de caridade mal direcionada.
Zoe olhou para Hari.
– Você vai adorar a creche – afirmou ela, fingindo entusiasmo. – De verdade. Todo mundo vai ser superlegal com você. Vou garantir que aquele menino grandalhão não te machuque.
Hari olhou para ela. Ela não conseguiu ler a expressão dele.
– Ah! – exclamou Tara, correndo até eles. – Aqui está nosso menino lindo que é tão bonzinho e quietinho.
Zoe fez uma careta.
– Já mandei a papelada – informou Tara. – Vamos receber aquela ajuda extra logo, logo! Entrem, entrem, tem um gancho aqui pro seu casaco… Ah, não, parece que não tem. Deixa pra lá!
Hari estava parado, em choque. Zoe se ajoelhou.
– Meu querido – disse ela; seu bom humor evaporou.
Aquilo era ridículo. As pessoas mandavam os filhos pra creche todo dia.
Mas mesmo assim. Desde que nascera, ele era só seu, mimado e paparicado. Ela não tinha precisado dividi-lo com mais ninguém; apenas Jaz, quando ele se dava ao trabalho de aparecer. O resto do tempo, ele era só seu, nos momentos de alegria e de tristeza – mais tristeza do que alegria, pra falar a verdade. Mas naquele instante ela só conseguia se lembrar das noites gostosas que eles passavam aconchegados lendo Pêssego, pera, ameixa no pomar, dos sorrisos preguiçosos dele nas frias manhãs de inverno; dele sentado no cadeirão, esticando as mãozinhas para pedir mais papinha de ameixa ou fechando a boca apertado quando chegava a vez do brócolis; da maneira como ele sacolejava para cima e para baixo no metrô; da carinha de alegria dele quando ela se abaixava para limpar o nariz dele no carrinho; das botas de neve que a mãe dela tinha mandado no inverno mais rigoroso; das luvinhas que ele vivia arrancando com os dentes, lacerando o elástico, e rolavam por baixo das rodas do carrinho.
Todo o turbilhão exaustivo e encantador da primeira infância que eles tinham deixado para trás com a mesma certeza de quando se livraram do penico, da cadeirinha de segunda mão que nunca usaram, dos paninhos de boca e das grandes latas de leite em pó; das pequeninas colheres de plástico e chapeuzinhos macios de algodão; do antialérgico, dos lencinhos umedecidos e das mamadeiras esterilizadas pegando fogo ao serem tiradas do lava-louça; dos pequenos lençóis com ouriços estampados e da pequena toalha com capuz, na qual ela o enrolava como um bebê urso e brincava de “Cadê o bebê?”, deitados diante do aquecedor elétrico sobre o tapete barato, soprando ruidosamente na axila dele enquanto ele ria sem parar, sem fazer ideia de que o mundo fora do pequeno círculo de calor em torno deles dois era um lugar frio.
– Chore bastante mesmo, querida! – exclamou Tara, irritada, embora o comentário dela tenha, na verdade, sido um pouco útil, já que Zoe sentiu instantaneamente menos vontade de chorar.
É que ele era… tão pequeno. E indefeso.
Enquanto ela estava pensando isso, Rory, o monstrinho, marchou até eles. Ele estava segurando um barco de brinquedo. Hari estendeu a mão para pegá-lo. Rory bateu nele com o barco.
– Rory! – repreendeu Tara. – Aqui, na creche Pure Tots, nós não nos comportamos desse jeito com os outros. Nós conversamos sobre os nossos sentimentos e nos expressamos.
– Quer saber? – disse Zoe. – Por que não tentamos de novo numa próxima vez?
– Mas tem aula de meditação esta manhã! – informou Tara.
Zoe sentia-se terrível e totalmente dividida. Então olhou pela janela novamente para o jardim. Aquela era a coisa certa a fazer. Ela sabia. Não podia deixá-lo com aquelas crianças infelizes no casarão e não podia arrastá-lo para o trabalho junto com ela todos os dias. Não podia mantê-lo amarrado a ela, por mais que quisesse.
– Vá lá fora – sussurrou. – Vá brincar lá fora, meu amor.
E então ela foi embora sem olhar para o rostinho dele e chorou durante todo o caminho até a fazenda.
Nina, que estava se sentindo bastante mal, a aguardava ansiosa, em boa parte porque não queria ter que passar o aspirador. Ela franziu o cenho.
– Como foi na creche?
Zoe fez uma careta e deu a volta na galinha, que parecia não ter se movido desde o dia anterior e agitou as penas para ela de um jeito bastante agressivo. Ela esfregou o rosto rapidamente com o dorso da mão e olhou ao redor. Uma figura alta estava marchando morro acima, assobiando, enquanto um cachorro saltitava ao seu lado. Devia ser a cara-metade de Nina. Como ela era sortuda.
– Dia agitado pela frente? – perguntou ela, tentando se animar.
– Espero que sim. – Nina franziu a testa. Ela queria muito ter podido dormir até tarde. – Normalmente descemos até Farr, mas ainda não é bem a temporada. Vai rolar uma convenção de montanhistas em mais ou menos um mês; vendemos muitas obras do Alfred Wainwright.
Ela apontou para uma pilha de guias de montanhismo e Zoe os pegou e começou a tirar o pó.
– Onde é que a gente pode conseguir um chá? – perguntou Zoe.
– Pois é, eles acham um pouco estranho ferver água numa van em movimento – respondeu Nina.
– Ah, sim. Talvez eles tenham mesmo razão – ponderou Zoe.
– Tudo bem, o pessoal do pub nos deixa pegar deles. Mas eu odeio chá de ervas. Concluí que já que abri mão do café, do álcool, do remédio pra resfriado e do queijo fresco, o bebê vai ter que me deixar tomar uma xícara de chá.
– E sushi – lembrou Zoe.
– Sim – concordou Nina. – Esse não é um problema muito grande por aqui.
– Certo – disse Zoe. – Eu não tenho dinheiro mesmo. Ah, você já leu…
– Já – respondeu Nina.
– Você não sabia o que eu ia dizer.
– Sabia – retrucou Nina. – Só cortando caminho.
Zoe sorriu.
– Não sabia, não!
– Sabia, sim! Sushi para iniciantes.
– Não era… Ah. Sim. Era mesmo.
Nina endireitou-se no banco do motorista, esticando os braços, como de costume, para alcançar o volante com o barrigão no meio. Então ela refletiu. Não estava chovendo e Lennox não estava usando o trator. Havia espaço no quintal. Ela gritou para Flossie, mas, como sempre, a galinha era estúpida demais para sair do caminho, então ela desceu, pegou o bicho e apoiou suas patas enlameadas no espaço que ainda restava de seu colo após se acomodar no banco do passageiro.
– Certo – disse ela. – Você vai precisar aprender a dirigir esta coisa em algum momento. Por que não agora?
Zoe engoliu em seco.
– É sério? – indagou.
– Bem, você veio até aqui dirigindo, não foi? Quer dizer, você claramente sabe dirigir.
– Eu passei no exame – respondeu Zoe, começando a tagarelar: – Você sabe, é difícil dirigir em Londres. Bem, eu não consegui passar no exame em Londres, pra falar a verdade, acabei indo até uma amiga, em Kent, porque eu sabia que o trânsito não seria tão apavorante e terrível, e eu não precisaria me preocupar tanto, e, tudo bem, foram algumas tentativas, e eu obviamente não conseguiria comprar um carro em Londres, não faz muito sentido, tem tanto transporte público e…
Nina piscou.
– Por favor. Diga que você consegue dirigir esta van.
– Provavelmente – respondeu Zoe. – Você precisa mesmo ficar olhando?
– Sim – afirmou Nina com alguma aspereza. – Caso você engate a ré e bata na minha casa.
– E a galinha vai ficar me olhando – disse Zoe, deixando a pergunta no ar.
– A galinha não está olhando você – respondeu Nina. A galinha continuou a encarar Zoe com seus olhinhos pretos brilhantes. – Está bem – aquiesceu ela. – Ela está, mas não faz a menor ideia do que você deveria estar fazendo.
– Somos duas – murmurou Zoe, acomodando-se no banco do motorista.
Zoe parecia estar bem longe do chão. Ela procurou o retrovisor interno. Não havia um.
– Tem uma van repleta de livros entre nós e a rua – explicou Nina. – Use os espelhos laterais.
Zoe olhou para o câmbio. Era um negócio enorme, com uma bola branca na ponta.
– Esse é o câmbio – explicou Nina, e Zoe tentou não se irritar.
– Certo, certo, me dê um minuto… Olha no espelho, dá sinal, manobra.
Zoe tentou olhar novamente no retrovisor inexistente, então xingou a si mesma.
– Estou realmente atrapalhada – confessou ela.
– Sinto muito – disse Nina. – Mas você precisa mesmo de mim aqui pra lhe mostrar onde ficam as luzes e tudo mais.
– Na real, é a galinha.
– Esqueça a galinha!
– Cocó! – reiterou a galinha.
Vermelha de vergonha, Zoe tentou engatar a marcha a ré no pesado câmbio. Ela não soube ao certo o que aconteceu, mas não engatou e, em vez de se mover para trás, o veículo se deslocou para a frente, sacolejando. Ouviu-se um ruído agourento de queda na parte de trás. Nina se esforçou ao máximo para não se encolher visivelmente. Quando tentou mais uma vez, Zoe fez a van ir para a frente, afundando ainda mais na lama; os pneus traseiros perderam contato com o chão e começaram a patinar.
Nina tentou se lembrar de como ela tinha tido dificuldades em dirigir a van logo no início e tentou ser mais compreensiva, e então, com um leve atraso, também lembrou que, quando ela aprendera a dirigi-la, não havia uma carga preciosa de livros maravilhosos dentro do veículo. Ela piscou com força enquanto Zoe forçava o motor ainda mais e um leve cheiro de queimado impregnava o ar.
– Deixa que eu tiro a gente do lugar rapidinho – disse Nina, ponderadamente tirando o cinto de segurança e começando a descer da van. Ela abriu um pouco a porta.
– Não, está tudo bem, está tudo bem, eu consigo! – garantiu Zoe, sentindo um ligeiro pânico.
Ela finalmente conseguiu engatar a ré, pisou fundo no acelerador e colocou uma leve pressão no imenso volante, o que fez a van se mover para trás com um tranco e chacoalhar toda; o que, por sua vez, assustou a galinha; que, por sua vez, saltou alvoroçada pela janela semiaberta; o que, por sua vez, fez Zoe gritar “MERDA, A GALINHA!” e girar novamente o volante; o que fez com que a van se atascasse de vez na lama e essa mesma lama cobrisse toda a lateral da van.
Olhando pelo lado positivo, a galinha estava perfeitamente bem.