Um novo capítulo para o amor
Capítulo quarenta
Zoe estava tão irritada ao sair de casa que não reparou nas nuvens encharcando o topo das montanhas. Como boa londrina, ela estava acostumada a que o tempo fosse de variações amenas do dia anterior; normalmente não havia mudanças drásticas. Ela sequer checou a previsão. Naquele instante, contudo, quando ligou o rádio – que certamente a estava ajudando a compreender o sotaque local, então ela tentava manter ligado o tempo todo, além de o Hari gostar da música –, ela os ouviu falando sobre alertas de temporais e cabos de energia e para tomar cuidado, mas não prestou muita atenção. Em vez disso, estava perdida em seus pensamentos, praguejando por ser tão estúpida, por pensar que talvez pudesse fazer diferença.
A Sra. MacGlone sabia exatamente o que Zoe deveria estar fazendo: mantendo a cabeça baixa, sendo grata pelo teto, pela comida e pelo dinheiro que estava recebendo até deixar as crianças como todas faziam, com suas roupas pequenas demais e a dieta à base de torradas, totalmente separadas e isoladas do mundo.
Mas ela estava errada? Por que ele não enxergava? Ela estava pensando em Ramsay, furiosa, enquanto dirigia. Qual era o problema dos pais? Hari mal conhecia o dele, mas Ramsay estava ali, com três crianças traumatizadas que precisavam desesperadamente dele. Como podia ser tão insensível? Seria porque era tão rico? Ou algum tipo de sociopata maluco, algo que a ex havia descoberto e que lhe custara a vida?
Bem, talvez ela não conseguisse mudar as coisas, pensou, assim como a Sra. MacGlone havia dito, mas não ficaria parada sem fazer nada. Alguém precisava cuidar das crianças. Até mesmo de crianças terríveis. Embora ela tivesse inevitavelmente criado certo afeto pelo Patrick. Qualquer um que fosse bacana com seu filho ganhava sua lealdade eterna.
Ela olhou para Hari no banco de trás.
– Certo! – disse ela em seu tom de voz mais alegre. – Hoje tem creche!
Hari a fitou com olhos totalmente enojados.
– Ahá! – exclamou Tara ao vê-los por lá de novo. – Excelente, Hari! Nós já íamos cantar uma musiquinha sobre autoestima. Você gosta de cantar, né?
– Bem... – começou Zoe.
– Ah! – exclamou Tara ao ver a expressão desanimada no rosto de Hari. – Não se preocupe! Vamos colocar você no fundo, fora do círculo, e você pode bater palmas!
– Serão só algumas horas – disse Zoe, desesperada. – É só um pouquinho, Hari. Só um pouquinho. Você pode brincar lá fora.
E ela fez: de alguma forma, conseguiu endurecer seu coração novamente, virar as costas e deixar seu garotinho para trás. Era pelo bem dele, repetiu para si mesma. Aquilo não a ajudou a acreditar.
Aos prantos, pegou a van dos livros, reparando no capim alto dos campos se curvando ao vento, mas não deu muita bola, embora o mato estivesse quase encostando no chão. Todas as vacas e ovelhas do campo estavam sentadas, mas isso não significava absolutamente nada para Zoe. Ela passou o aspirador, preparou-se e, com as habilidades práticas um pouquinho mais treinadas, fez a volta com cuidado em torno do ponto central da galinha imóvel e desceu o morro.
Lennox estava no campo, certificando-se de que os fardos de feno estavam devidamente amarrados, quando a viu e saiu correndo do celeiro, agitando os braços feroz porém inutilmente atrás da van que se afastava. A previsão do tempo era terrível e certamente não era uma boa ideia sair com veículos altos. Ele não sabia o que ela estava pensando; Nina não teria saído de jeito nenhum. Na verdade, era melhor não mencionar que Zoe tinha saído com a van durante um alerta laranja. Se ela conseguisse chegar ao vilarejo e depois voltar, talvez ele pudesse guardar segredo. Tentou ligar para Zoe. Sem sucesso, é claro. Havia vários pontos na estrada sem sinal de celular e o peso das nuvens que se aproximavam também não ajudava.
Na verdade, Zoe tinha decidido ir mais longe aquele dia. Ela sentia que tinha exaurido a curiosidade do pessoal de Kirrinfief depois que eles: a) descobriram que Nina era maravilhosa, nem mais nem menos; b) deixaram várias peças de tricô para ela – aquele seria, Zoe concluiu, o bebê mais lanuginoso da história –; e c) perceberam que não sabiam ao certo de que tipo de livro estavam a fim, simplesmente esperando que Nina lhes dissesse, obrigado. Ela sempre sabia.
Tocar uma livraria parecia tão civilizado, tão simples. E não ficar olhando inexpressivamente para uma senhorinha gentil que lhe pedira bem alto e repetidas vezes um livro que com certeza não tivesse lido, mas de que fosse gostar, e cada vez que Zoe sugeria algo, meneava a cabeça e dizia: “Não, nada desse tipo.”
Nina tinha deixado algumas anotações sobre os vilarejos da região e onde ela podia estacionar de tempos em tempos, geralmente às terças e quintas, para seguir o cronograma das feiras locais. Ela também deixara um mapa, visto que tentar conseguir conexão 4G nas Terras Altas era uma tarefa ingrata, na melhor das hipóteses, e Zoe estava tentando dirigir e entender o caminho ao mesmo tempo.
Não estava trovejando – não era esse tipo de temporal –, mas a chuva começou a cair repentinamente – uma chuva forte, de encharcar até os ossos, açoitando o para-brisa – e, quando se olhava para fora, era possível ver as árvores se curvando, pressionando as folhas no chão. Zoe piscou.
Será que ela deveria se preocupar? Todos diziam que o tempo era ruim por ali, aquilo era basicamente a primeira coisa que todo mundo dizia sobre a Escócia. Era de esperar que fosse ruim daquele jeito, não era? Provavelmente todo mundo aceitava sem nem piscar. A van derrapava de vez em quando na estrada e ela girava o grande volante de volta para o meio da pista, com o coração palpitando de leve no peito.
Zoe se deu conta de que tinha ficado mais cautelosa com o próprio bem-estar desde que Hari nascera. Antes – e muitas de suas amigas ainda agiam assim –, ela podia ser quase displicente com a própria vida. Dirigir rápido demais, ficar acordada até muito tarde, fazer coisas meio loucas, ser imprudente. Porque as pessoas simplesmente são assim.
Agora ela não era mais sozinha, e essa foi a maior mudança de todas. De repente, era de vital importância que ela não batesse o carro, nem desaparecesse ou fizesse coisas idiotas quando bebia um pouquinho além da conta, ou qualquer coisa assim. A ideia de deixar uma criança órfã, independentemente de como ela era ou de como estava se saindo como mãe, era simplesmente horrível demais para suportar. Ela quase chorava só de pensar em alguém tendo que explicar a situação para o garoto, em como o rostinho dele iria se contorcer de confusão, em como o policial que estivesse explicando teria de se esforçar ao máximo para ser delicado… Como devia ter sido horrorosa a situação dos filhos de Urquart… O que será que poderia tê-la perturbado a ponto de abandonar os filhos? O que… ou quem?
De qualquer forma, ela desacelerou o veículo, checando os retrovisores conscientemente e fazendo tudo que tinha que fazer, o que teria sido suficiente, se o fato de ela ter desacelerado naquela curva em específico – bem quando chegou no estreito que se estendia ao longo do lago, com uma saída para o centro de visitantes – não significasse que ela estaria posicionada bem na direção de um ônibus lotado, fora de controle e desequilibrado por um vento lateral porque, para falar a verdade, estava um tanto rápido demais, que invadiu sua pista desgovernado e por pouco não a atingiu, enquanto ela batia em um galho que se projetava sobre a pista e atravessou sua janela.