Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 38 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo trinta e cinco

 

A Sra. MacGlone estava colocando o casaco.

– Tenho bingo hoje – explicou, parecendo quase alegre pela primeira vez. – Com Thea Newton. Que trapaceia. Toda vez. Passei o dia dando uma geral no piano de cauda.

– Como se trapaceia no bingo? – perguntou Zoe, confusa, mas a Sra. MacGlone já tinha saído.

Para variar, a cozinha estava tomada por migalhas de pão e Shackleton se achava sentado placidamente comendo um pote de geleia, com os olhos fixos na tela.

– Ora, pelo amor de Deus – esbravejou ela, irritada. – Chega! Vamos! Levante daí! Você vai me ajudar com a janta.

Ela iria fazer uma boa compra em um mercado grande. Assim que descobrisse onde havia um mercado grande.

Shackleton olhou para ela de esguelha

– Vai sonhando.

Zoe piscou. Então foi para trás do fogão – era muito nojento ali – e, respirando fundo e fechando os olhos, arrancou o antiquíssimo cabo de rede.

Shackleton se levantou de imediato e Zoe se lembrou subitamente de que ele era um garoto bem grande.

– Ei! – gritou ele. – Coloque de volta.

Zoe cruzou os braços.

– Não – retrucou ela.

Mary ergueu os olhos, piscando; ela parecia satisfeita por, aparentemente, ser a vez de outra pessoa pisar nos calos de Zoe.

– Babá Sete, você é ABSOLUTAMENTE ASSUSTADORA – disse uma vozinha vinda do chão.

– Cala a boca. Agora me devolva o cabo.

Com a calça de moletom velha e suja e os cabelos sem lavar, a imagem roliça, pálida e truculenta de Shackleton não era nada atraente.

– Você vai aprender a cozinhar alguma coisa – informou Zoe. – Ajudar um pouco. Se mexer.

– Não!

– Está bem – disse Zoe, segurando o cabo na mão e caminhando até a pia com ele. – Sem problemas.

Shackleton fez um bico com seu grande lábio inferior.

– Vou contar pro meu pai.

– Ele não está aqui – observou Zoe. – Onde ele está? Será que alguém aqui sabe me dizer?

As crianças deram de ombros letargicamente e Zoe ficou irritada com ele mais uma vez.

– Então… Me ajude e eu devolvo a sua internet.

– Isso é contra os meus direitos humanos – protestou Shackleton.

– Também não sei por que você vai ensinar ele a cozinhar. Ele já é balofo demais – disse Mary.

– Não se fala assim – repreendeu Zoe. – Nem de seu irmão nem de ninguém.

Mary revirou os olhos.

– Claro, na terra do faz de conta.

– Não, na terra real. Mundo real – disse Zoe, um tanto encabulada. – Talvez vocês precisem se atualizar um pouquinho sobre o mundo lá fora.

– Por quê? – indagou Mary. – É horrível!

Zoe abriu a boca, mas em seguida fechou, porque não sabia ao certo se conseguiria contra-argumentar aquilo.

– Certo – disse ela, erguendo a cesta. – Temos ovos frescos. Você sabe fazer omelete?

Shackleton olhou para ela e grunhiu.

– Isso quer dizer “sim” ou “não”?

– Quer dizer que ele não sabe o que é uma omelete – sugeriu Patrick.

– Cala a boca! – gritou Shackleton.

– Não é possível – disse Zoe. As crianças a olharam inexpressivamente. – Minha nossa. Tem algum queijo na casa?

– Tem queijinho cremoso – lembrou Patrick.

– Hum, certo, algum queijo que não seja processado?

As crianças pareciam em dúvida. Zoe vasculhou a geladeira com cuidado e encontrou um pedaço velho de queijo azul. Certo. Ela precisaria assumir que o queijo já era mofado mesmo – esse era o propósito do queijo azul, não era? Eles não iriam morrer, não é? Ou iriam? Ela podia procurar no Google. Só que não, porque tinha desligado a internet e não tinha certeza de que bastava colocar o cabo de volta para que funcionasse, além de perder completamente o propósito de toda aquela lição.

– Certo – disse ela. – O que mais temos?

– Manteiga de amendoim – respondeu Patrick.

– Hum.

Ela pegou a manteiga normal e untou uma pesada frigideira preta, depois procurou até encontrar um batedor que parecia mais velho que ela própria e começou a bater os ovos com sal e pimenta. Não havia condimento algum à vista. Ela não conseguia nem imaginar o que se passava pela cabeça da Sra. MacGlone. Então pensou nos quilômetros de carpete velho que precisavam ser aspirados, nas incontáveis prateleiras que precisavam ser desempoeiradas, na casa que um dia contara com uma multidão de empregados para limpar e polir e, agora, só tinha uma única e fiel criada com joelhos fracos, e tudo começou a fazer mais sentido.

Mas por que o pai não alimentava as crianças? Talvez ele próprio também não comesse.

– Certo – disse ela, entregando a tigela e o batedor para Shackleton, que ficou olhando para aquilo como se ela tivesse acabado de lhe entregar o rabo de um cachorro.

– Vamos lá, mexa o braço.

Ele balançou o braço de leve.

– A próxima lição vai ser sobre ovos mexidos – concluiu ela. – Continue batendo, Shackleton! Tente fazer bastante espuma!

Patrick se aproximou e enfiou o nariz na tigela.

– Ovos! – exclamou, perplexo. – Posso quebrar alguns, Babá Sete?

Zoe olhou para a cesta. Ainda havia alguns sobrando.

– Podem tentar quebrá-los numa tigela – concordou ela. – Mas só um pra cada.

Naturalmente, Patrick fez uma catástrofe com o ovo dele e pedacinhos de casca e gema foram parar na tigela e no chão. Contudo, o rostinho espantado dele se alegrou todo quando, do nada, Porteous entrou pela porta entreaberta, ofegando, com a língua para fora, e comeu cada pedacinho de ovo do chão, com casca e tudo. Foi tão rápido e inesperado que todos explodiram em risos, até mesmo – embora por um brevíssimo instante – Mary, que, assim que percebeu que Zoe estava olhando para ela, logo se retesou e retomou a habitual expressão emburrada.

Zoe ficou feliz em ver que Hari se adiantou com a mãozinha estendida, como se fosse afagar o animal grandalhão, que imediatamente se virou e o derrubou no chão.

Seguiu-se aquele instante de silêncio quando uma criança pequena cai e todos – inclusive a criança – precisam avaliar qual será o nível de drama da repercussão.

A cozinha permaneceu momentaneamente silenciosa. Então Hari soltou um gorgolejo peculiar, que se pareceu bastante com uma risada, e Patrick correu até ele.

– FOI TÃO ENGRAÇADO! – gritou ele. – Ele te derrubou! Hahahahahahaha!

O próprio Hari piscou várias vezes, afastando as lágrimas que ameaçavam se formar, e então Patrick ajudou o garoto a se levantar e os dois começaram imediatamente a quebrar outro ovo para repetir a experiência.

– Ei! – exclamou Zoe. – Nada de desperdiçar ovos! De toda forma – ela olhou furtivamente para a direita –, é a vez da Mary.

Mary estava sentada à mesa, dividida entre se recusar a participar, mesmo que brevemente, de qualquer coisa que Zoe fizesse e o óbvio interesse pelo que estava acontecendo. A manteiga estava chiando na frigideira e soltando um aroma delicioso – Zoe percebeu de repente que não tinha almoçado e estava morrendo de fome.

Tratando Mary novamente como um animal selvagem arisco, Zoe ofereceu o batedor a ela. A garota olhou para o instrumento. Então, com um movimento quase imperceptível, fez que não.

Zoe não entendeu aquilo como uma rejeição. Entendeu simplesmente como o que era: Mary reconhecendo sua existência sem ser agressiva com ela.

– Certo. Patrick – chamou ela –, sua vez.

Zoe o sentou no balcão. Hari ficou tão cabisbaixo que ela também o colocou ali, e eles mexeram o batedor juntos enquanto Zoe tocava Porteous para fora. O cachorro obedientemente saltitou de volta para a casa do jardineiro.

– Certo – disse Zoe por fim quando os ovos estavam bem espumosos. – Para trás…

Ela soltou a primeira leva na frigideira e todos observaram com mais atenção do que ela esperava. Patrick emitiu um ruído de surpresa enquanto a mistura sibilava e estalava.

– Muito bem – disse ela enquanto espalhava a mistura com outra espátula velha. – Queijo!

Ela pegou o queijo azul.

– Isso fede muito, muito, muito – murmurou Patrick, e Hari apertou o nariz e ambos riram, e Zoe riu também, e, só por um instante – um instante bem curtinho –, aquela pareceu uma cozinha normal.

No piso superior, embora estivesse ouvindo Wagner no último volume, como de costume, Ramsay parou o que estava fazendo, só por um segundo, baixou o volume, e ouviu o eco dos risos distantes e harmônicos que ele não escutava há tanto tempo, como o sussurro de sinos há muito esquecido.