Um novo capítulo para o amor
Capítulo trinta e um
Nenhum livro seria vendido aquele dia. (Na verdade, em meio a todo o drama, elas se esqueceram completamente de mencionar a van atolada para Lennox, o que significou que, quando choveu aquela noite, a van ficou atascada em um atoleiro gigantesco que por fim se transformou em areia movediça e desatolar o veículo acabou virando um trabalho para cinco pessoas, além de demandar o aluguel de uma escavadeira, que Lennox gentilmente listou como uma despesa da fazenda e nunca mencionou para Nina.)
Nina estava aliviada. A pré-eclâmpsia foi diagnosticada rapidamente e sem alvoroço, indicando que a equipe já havia visto situações como aquela um milhão de vezes, embora a médica tivesse baixado os óculos e o tom de voz antes de comunicar a terrível notícia de que Nina precisaria ficar no hospital provavelmente até o bebê nascer, em repouso e se movimentando o mínimo possível.
Nina só piscou.
– É sério?
– Sinto muito – disse a médica. – Você vai ficar bastante entediada.
Nina franziu a testa.
– Mas posso ler, certo?
– Pode, sim!
– Não vai prejudicar o bebê?
– De forma alguma.
Nina se recostou nos travesseiros.
– Acho… – disse ela enquanto Lennox a abraçava forte – … Acho que vai ficar tudo bem.
Zoe estava sentada ao lado de Lennox no Land Rover, olhando para o nada enquanto ele dirigia.
Definitivamente, não era assim que ela esperava que fosse. Ela esperava estar trabalhando com alguém em um emprego agradável em uma livraria. Havia fantasiado sobre um cantinho aconchegante em uma bela casa, não um quarto de empregada com camas de ferro e uma banheira de água fria. Também não era isso.
Zoe sorriu com pesar diante da imagem que havia feito de si mesma, lendo com tranquilidade todos os livros novos que eram lançados, levando luz à vida de algumas criancinhas órfãs e, no geral, ajudando pessoas que se encontravam em momentos complicados, uma espécie de combinação de Julie Andrews com a Super Nanny. Ela não se lembrava de haver, em suas fantasias, uma galinha comendo vômito. Refletiu que muitos sonhos de sua vida acabaram não saindo como ela havia planejado.
Atrás deles, um carro desacelerou e buzinou ruidosamente. Ela se virou, assustada, perguntando-se para quem estariam buzinando. Zoe e Lennox ficaram olhando. Era Joan, a médica.
– BOM TRABALHO HOJE – berrou ela para Zoe pela janela. Na parte de trás do carro, vários cachorros concordaram em um coro de latidos. – VOCÊ TINHA TODA A RAZÃO EM LEVAR A SÉRIO. TODA A RAZÃO DO MUNDO!
Então ela subiu novamente o vidro e foi embora, cantando pneu e espirrando lama pra todo lado. O carro, Zoe reparou, estava imundo. Ela esperava que Joan não precisasse fazer muitas cirurgias.
Lennox se virou para ela, como se só então tivesse percebido que estava ali, e largou-a do lado de seu carrinho verde.
– É – disse ele, meio rouco. – É. Obrigado. Ainda bem que você existe.
Zoe saiu do Land Rover. A galinha a fitou com olhos cruéis, sem piscar.
“É. Ainda bem que eu existo”, ela queria dizer à ave. E quando entrou no Renault para ir embora, percebeu que alguém tinha deixado uma cesta de ovos fresquinhos, alguns ainda quentes, com penas coladas neles, no banco do passageiro.