Um novo capítulo para o amor
Capítulo vinte e um
O “carro da babá” era um Renault verde pequenininho e todo arranhado que parecia mais velho que a própria Zoe. A manta de isolamento estava meio arrancada, então era possível ver o metal do teto, e o aquecedor era, definitivamente, idiossincrático, mas acabou funcionando, no fim das contas, e Zoe concluiu que poderia se acostumar a não ter direção hidráulica se realmente precisasse. Contudo, ela não podia negar: preferiria não precisar. Mary a tinha abalado, embora fosse ridículo se deixar abalar por uma menina tão nova.
Zoe suspirou e deu a volta na fonte seca do quintal da casa algumas vezes só para pegar o jeito, fazendo o cascalho voar.
– Eita – disse ela, e então olhou para Hari, que estava em uma cadeirinha velha e toda manchada no banco de trás.
Ele ergueu os olhos, preocupado.
– Está tudo bem – garantiu Zoe, dando mais uma volta. – Só estou me divertindo!
Sua voz não soou sincera, ela percebeu.
Deu a volta na fonte mais algumas vezes. Já fazia muito tempo que não dirigia um carro – não havia por que ter um em Londres. Ela tinha comprado um usado há um tempão, quando passara no exame; tinha sido superdivertido. Eles foram a festivais de música, cruzaram a rodovia M25, foram até Brighton e fizeram tudo quanto é tipo de coisa com os amigos – bater papo, fumar com as janelas abertas, escutar música nas alturas sob o sol escaldante do verão londrino.
Aqueles eram bons tempos, refletiu ela. Em suas lembranças, eram totalmente incríveis. E muito, muito curtos. Seria possível, se perguntou, receosa, que só tivesse vivido uns três dias bons? E que, agora, eles já tivessem ficado para trás? O carro fora vendido há muito tempo, para comprar coisas de bebê. Muitas coisas de bebê.
Zoe olhou para a lateral da imponente casa cinza sombria e ameada. No segundo piso havia, estranhamente, uma enorme janela de vitral. Parecia destoar do restante da casa. Enquanto ela olhava para cima, pensou ter visto a sombra de uma pessoa e de súbito percebeu que estava circundando a fonte já há algum tempo e provavelmente deveria ir embora de uma vez.
Seu segundo pensamento foi, ridiculamente: será que era uma pessoa à janela ou…?
Mas quando ela voltou a olhar, o vulto não estava mais lá.
O Renault verde virou à esquerda ao sair da entrada da The Beeches, então desceu sacolejando a via de faixa única pelo que pareceu serem horas. O caminho até Kirrinfief, a cidade onde a van estacionava, era praticamente uma linha reta.
O carro passou por fileiras de pinheiros, muitas árvores, e então, de repente, elas desapareceram e, para total surpresa de Zoe, ela viu um estacionamento gigantesco. Estava quase vazio, mas havia alguns carros aqui e ali, com pessoas saindo deles, muitos de capa de chuva, e alguns ônibus enormes, soltando fumaça, e mesas de piquenique, latas de lixo, e uma casa antiga com telhado de duas águas com “Ness - Centro e Café” escrito em letras desbotadas na frente. Depois do vasto silêncio na The Beeches, era como passar acidentalmente por Piccadilly Circus.
Ela olhou para o relógio. Nina tinha pedido que ela chegasse por volta das dez, mas ainda eram nove horas; Zoe ficara tão constrangida na cozinha que saiu de lá o mais rápido que pôde.
Ela parou um pouquinho.
A placa estava escrita em inglês, francês, alemão, japonês e o que pareciam ser palavras em russo e chinês recentemente acrescentadas embaixo. Era bastante malcuidada e desbotada.
Havia uma casa de arenito vermelho de tamanho médio, com empenas verdes descascadas e, na vitrine, uma seleção bastante trágica de velhos bichinhos de pelúcia do monstro do lago Ness. Uma mulher bem-apessoada se aproximou, parecendo ansiosa.
– Olá – cumprimentou Zoe alegremente. – Eu gostaria de saber se vocês têm café para viagem?
– Ah. Não – respondeu a mulher, como se aquela ideia nunca tivesse lhe ocorrido. – Você acha que deveríamos ter?
– Não sei – respondeu Zoe. – Mas tem um monte de gente lá fora que parece ter passado um tempão dentro de um ônibus.
– Ah, sim – concordou a mulher, cujo nome era Agnieszka. Ela se alegrou. – Mas fazemos sanduíches na hora do almoço! Queijo ou queijo e presunto!
– Certo – disse Zoe, sorrindo. – Obrigada!
Eles voltaram para fora.
As montanhas se erguiam bem acima da linha da água, refletindo no lago de modo que este configurava um espelho perfeito, e o sol, com o vento frio abaixo dele, era gentil e suave à luz intensa do outono.
Zoe sentiu pena dos turistas que procuravam desesperados por um monstro estúpido que não estava ali – afinal de contas, deviam ver o que estava ali: a paisagem maravilhosa, o vento fresco, o aroma intenso no ar.
Zoe piscou para si mesma enquanto Hari apontava para as pelúcias do monstro do lago Ness na vitrine do café e puxava seu braço com firmeza. Então ele apontou para algo, depois para o brinquedo que outra criança estava segurando atrás deles, arrastando-o pelo chão.
– Não vou comprar um brinquedo pra você, Hari. Não sou seu pai – disse ela, dando um beijo estalado na bochecha do garoto. – Prometo que vai ter um montão de brinquedos pra você brincar na creche nova.
Ela o sentiu enrijecer em seus braços. Bem, aquilo iria acontecer em algum momento.
– Venha, vamos embora.
E foi a coisa mais esquisita: eles se afastaram do colorido e do clamor das pessoas dos grupos de turistas diferentes, todos falando línguas diversas e usando jaquetas impermeáveis de cores vivas e capas de chuva, enquanto ônibus estacionavam, carros roncavam, os barcos do lago ligavam seus motores e tudo era ruído e algazarra – então, depois de terem andado 20 metros na estrada, tudo estava silencioso de novo; nada além de pássaros planando suavemente sobre a estrada ou o vislumbre do que talvez fossem cervos no bosque, como se nunca tivesse havido vivalma por ali.