Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 15 de 50

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Um novo capítulo para o amor

Capítulo doze

 

Algumas novas palavras que Zoe passaria a conhecer muito bem: cerração e bruma.

A cerração era a névoa noturna que descia das montanhas. A bruma era a névoa da manhã que subia do lago e que volta e meia era tão espessa que dava para comer com uma colher. Em muitos dias a bruma não sumia completamente, resistindo o dia todo até se mesclar com a cerração, e o mundo todo era feito de neblina durante todas as horas do dia, o que, no final de agosto, ainda acontecia na maioria dos dias.

A cerração, portanto, havia descido quando Zoe e Hari chegaram, embora eles ainda não soubessem disso. Desembarcaram após aquela maratona no ônibus, durante a qual ambos dormiram. Zoe não tinha percebido quanto aqueles dias e semanas de preocupação – meses, melhor dizendo – estavam pesando em seus ombros: sua aflição quanto ao dinheiro, a Hari, a seu emprego e ao apartamento.

Então ela tinha muito a perder: não tinha mais um lar, apenas um favor de um estranho, e estava prestes a assumir um trabalho do qual não conhecia nada nem ninguém.

Mas bem naquele exato momento, depois de todos os quilômetros e paradas de ônibus que ficaram para trás, das cidades e dos vilarejos que foram ficando cada vez mais espaçados e do cenário, que mudou dos campos cuidadosamente desenhados do sul para os morros escarpados e as paisagens montanhesas do norte, não havia nada que ela pudesse fazer. Com relação a qualquer coisa. E havia algo de estranhamente libertador nisso.

Naquele instante, ao menos, nada mais estava sob seu controle. E o movimento lento do ônibus a ninou até adormecer com a cabecinha quente de Hari em seu peito, eles dois contra o mundo. Quando ela acordou, com aquela leve ressaca de quem dormiu o dia todo, não sabia ao certo onde estava, só sabia que estava nebuloso e parecia frio do lado de fora, que o motorista tinha mudado sem que ela percebesse e que muitas pessoas já tinham descido e eles eram praticamente os únicos lá dentro.

Ela queria olhar pela janela, mas tinha neblina demais para conseguir avistar qualquer coisa; ela só teve a impressão de ver paralelepípedos, pontes e pináculos de igrejas, tudo baixo e quadrado.

– Inverness! INBHERNISH – anunciou o motorista.

O sotaque desse motorista parecia… bem, escocês, ela supunha. Zoe disse a si mesma para parar de pensar aquilo. Não seria algo incomum.

– Ah, sim. É a nossa parada – disse ela, sacudindo Hari para acordá-lo enquanto o ônibus sacolejava e se assentava com um suspiro cansado.

O motorista desceu e abriu a porta lateral, e Zoe, muito nervosa e arrastando um Hari tremendamente sonolento, pisou em terras escocesas pela primeira vez.

Parecia incrível que eles tivessem deixado para trás o calor escaldante e grudento de Londres naquela mesma manhã. Um vento fresco a atingiu por debaixo da bruma que parecia se espalhar por tudo; o ar parecia úmido. Ela não conseguiu sentir outros cheiros além dos aromas da rodoviária enquanto resgatava as malas velhas e desbotadas das profundezas do ônibus.

À sua volta, estudantes e jovens alegres pegavam suas malinhas leves e saíam bailando sabe-se lá para onde. Ela não conseguia segurar Hari no colo – ele ficava escorregando de seus braços – e as malas ao mesmo tempo. Duas malas de rodinha, dois casacos, um garotinho pesado de 4 anos, uma bolsa a tiracolo. Ela olhou ao redor em vão, mas o motorista já tinha voltado para o ônibus, tendo cumprido sua função de descarregar a bagagem, e todos os outros haviam desaparecido em meio à névoa.

– Vamos lá, Hari, você precisa caminhar – disse ela de forma mais incisiva do que pretendia.

Seu tom, combinado com o ar frio – Hari estava usando apenas uma camiseta –, o fez começar a chorar silenciosamente enquanto permanecia parado ali, totalmente chocado. Então, bem devagar, ele começou a escorregar pelas pernas dela na direção do chão imundo da rodoviária. Grandes placas azuis enunciavam RODOVIÁRIA DE INVERNESS nas antiquíssimas paredes de pedra, enquanto a neblina ocultava tudo o que era menor.

– Não – disse ela. – Não, não, não, não, não, não, por favor, Hari, por favor…

Às vezes não há como deter uma criança pequena – se elas querem deitar no chão, elas deitam no chão, não importa quantas malas você esteja carregando. Uma mala, quase explodindo de tão cheia, caiu do outro lado da rua, fazendo com que o ônibus para Aberdeen tivesse que desviar bruscamente para evitar esmagá-la em pedacinhos.

– Hari, por favor, levante, levante, levante – suplicou ela, sem conseguir, na falta de uma mão extra, pegar a mala que havia rolado para a rua, visto que, se o fizesse, deixaria Hari livre para desabar bem no caminho do próximo ônibus sacolejante.

Ele olhou para ela, os olhos arregalados, rolando no chão, sujando-se, chateado e com frio, como se tudo aquilo fosse culpa dela – e era mesmo, é claro, de certa forma –, e o vento açoitava Zoe, e ela praguejou baixinho diversas vezes, e se lembrou, não pela primeira vez, de que era a adulta ali. Ela era a única adulta, ela estava no comando e teria que engolir essa realidade, mesmo que não gostasse. E lá vinha outro ônibus!

– Por favor, levante, Hari! Eu compro… eu compro um sorvete pra você!

Hari franziu a testa. Aquele seria um gesto bem incomum. Geralmente era o pai quem lhe comprava sorvetes. Era quase noite. Estava frio. Um sorvete era uma ideia confusa. Ele permaneceu deitado no chão imundo, refletindo.

– SORVETE? SORVETE? SORVETE? – gritava Zoe, desesperada, bem quando uma mulher bonita, grávida e parecendo um pouco preocupada apareceu de repente, parando perto demais, em meio à neblina.