A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 11 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Primeiro: Cap. 2.º, Pt. Iv

 

Onde, pela primeira vez, o homúnculo se apresenta à assembleia, em todo o esplendor e todo o horror que acompanham de perto, assim na Terra como no Céu, os trabalhos de Paracelso.

A que horas é que vocês recomeçam o turno?, pergunta então Ana Maria, subitamente desejosa de não ter filhos, não ter o título de professora associada com agregação, não ter obrigações profissionais, não ter nada que não seja uma necessidade imperiosa de comer pão preto com manteiga e beber café com leite num nevoeiro onde ninguém a veja.

Ah, diz-lhe o homem que já a conhecia apertando-a outra vez contra a sua camisola sem idade, e aquecendo-a outra vez até ao fundo dos ossos. Agora, só voltam a existir turnos quando o tempo voltar a existir. O que seria uma indelicadeza muito grande para com o professor Eleazar Melkievstein, que teve a chutzpah de vir de tão longe para te contar a minha história, mulher tão amada que nunca conseguiu ainda retribuir todo o seu amor. Deixa-o falar, Ana Maria. Deixa o tempo parar, que isto não acontece todos os dias. Eu sei, para falar contigo na linguagem que tu melhor e mais rapidamente apreendes, que já devias ter dado o pequeno-almoço aos putos, já devias ter tomado banho, já devias tê-los deixado na escola enquanto berravas ao telemóvel porque detestas mentecaptos, já devias ter bebido uma bica antes do engarrafamento, outra bica depois do engarrafamento, eu sei que já devias ter chegado à universidade onde tens que dar uma esfrega a um dos pós-docs do teu projecto, coisa que tu não gostas nada de fazer. E sei dizer-te tudo desta forma bizonha e bizarra porque eu gosto tanto de ti que conheço tudo o que te atormenta, pelo que até conheço a linguagem que nos teus tempos se usa, precisamente aqui, nesta tua cidade. Deixa. Não tentes olhar para o relógio, porque não vais conseguir ver nada que o teu entendimento queira ver. Eu esperei por ti. Tu vieste ter comigo. Não faças perguntas. Eu sei quem tu és, mas tu ainda não me conheces. Ouve o grande Melkievstein, descendente por linha directa do grande Eleazar de Worms que animou de vida o primeiro Golem. Vais ter que conhecer-me melhor, para podermos esperar devidamente pelo Segundo Regresso. Não é por mim. Nem por ti. É pelo que ficou disposto nas Escrituras, para nunca ser revelado aos mortais antes que chegasse a hora em que já nada seria secreto, mas todas as cousas se encontrassem manifestas.

E ele a dar-lhe, resmunga o miúdo.

Aquele imortal nunca mediu devidamente os seus limites, resmunga aquele de entre eles que se apresenta como um velho calvo e desdentado. E, ainda por cima, esta última frase dele para a donzela foi roubada ao Paracelso, sem tirar nem pôr, como é que eles praguejam no Lidl, trigo limpo, Farinha Amparo, não é? Irritam-me estas transgressões, rei dos reis e Grande Hylaster. Para que é que um condenado brilhante precisa de citar outros autores? Vais dedicar-te à política, agora, se calhar, ó Ash? E fazes o quê, aqui nestoutro sítio, sermões aos peixes?

Camarada, diz Fra Mauro, sempre com os óculos redondos, com uma das lentes partida, a escorregarem-lhe pela cana do nariz. Tu não semeies mais sementes de discórdia, que o tempo em que a retórica humana ordenava os fenómenos naturais já está esgotado, e é por isso que para aqui viemos. Faz uma pausa, segura com delicadeza a mão de Ana Maria, e aponta para o velho calvo com o queixo. Este homem acompanhou Paracelso durante toda a sua vida, Ana Maria. Foi ele que lançou o fogo à lenha quando Paracelso mandou queimar no centro da Universidade de Berna os tratados de Avicena, para acabar de vez com a velha medicina. Paracelso foi só expulso, mas estoutro aqui foi despido, e a seguir foi brutalmente zurzido perante o gáudio geral da populaça. É diferente. E, depois disso, seguiu o seu mestre tão duro e exigente, essoutro mestre tão espantoso mas tão igualmente incapaz de gratidão, em muitas frentes de combate, Ana Maria. E, obedecendo à risca às suas ordens, esfregou tantos soldados com mercúrio para lhes curar a sífilis, que acabou por perder os rins e definhar em vida. E bebeu tanto, na ânsia de conseguir decifrar os escritos mais intoxicados do mestre, que também perdeu o fígado e ainda definhou mais. Pediu-lhe o mestre, já perto da morte, que oferecesse toda a sua roupa aos pobres. Os pobres amotinaram-se e quase quiseram matar o discípulo, tal era o fedor da roupa, pois deves lembrar-te que Paracelso odiava a vaidade, e, como tal, nunca tomava banho. Voltou golpeado e esmurrado depois de ter enterrado longe da Casa a carroça de roupa fedorenta, e disse-lhe então Paracelso que a morte chegaria duas horas mais tarde. Estoutro homem, Ana Maria, esperou então, esperou por fim, esperou depois de tantos anos de dedicação e abstinência, que o grande Iluminado lhe dissesse a única cousa que ele desejava ouvir, a única cousa que sempre quisera, a única cousa que sempre lhe animara o ânimo, a frase maravilhosa que destarte tantos homens procuram durante uma vida inteira, aquele bálsamo que diz: discípulo, tu foste o filho que eu nunca tive.

Os outros empregados do Lidl entram em mais uma das suas breves altercações.

As tropas sabem lá se ele nunca teve filhos.

Então, mas se ele era castrado.

A tropa não sabe se ele era castrado. A tropa só sabe que ele dizia que a única razão por que Deus dera testículos aos homens era para poderem castrar-se e assim se purificarem do pecado original.

Ah ah. E aquela de se o sémen ficasse guardado dentro dos testículos começava a fermentar e formava terríveis homúnculos? O Mestre dava-se bem com a mãozinha, é o que é.

Chega, impõe Ashverus em voz profunda, um comando que ecoa por todos os barcos, e fábricas, e torres de apartamentos, e carcaças de redes, e palmeiras raquíticas em volta, fazendo o cão saltar do seu estupor de há já algum tempo e considerar que vem a propósito uivar, um bom uivo, daqueles bem do fundo do peito.

Fra Mauro, que tem os restos de caracóis ruivos cobertos agora de fios grisalhos, volta a segurar delicadamente na mão de Ana Maria.

Não lhes leves a mal, Hannah. Todos estes homens que aqui vês acreditaram no progresso. Pensaram que o que viria a seguir seria melhor. Estes homens foram sérios, foram dedicados, lutaram, deram as suas vidas, por vezes, e por vezes até deram as vidas das famílias inteiras. E cansa-os, sabes. Cansa-os, com o peso dos séculos, ver a humanidade inventar cada vez mais artefactos, tantos deles que só por si deveriam ser uma enorme mudança, pensa na alavanca, pensa na ferradura, pensa no zero, pensa na manivela, pensa no calendário, pensa na imprensa, pensa na gravidade, pensa na máquina a vapor, e os homens, com os anos, cansam-se. Cansam-se de criar tanto e nunca ver a humanidade alguma vez ficar melhor. E agora, agora que o grande ciclo chegou mesmo ao fim, agora que só lhes resta esperarem pelo Segundo Regresso na Cruz Quebrada, é normal, porque são homens, que rosnem, que mordam, que procurem agredir o passado com as palavras cruas que são as únicas armas de arremesso que ainda lhes restam. Aquele outro ali, o velho calvo sem dentes que serviu Paracelso a vida inteira esperando, apenas, que um dia o grande Mestre lhe dissesse que ele era o filho que nunca teve, sabes o que é que ouviu Paracelso dizer em vez disso, a duas horas da chegada do fim? Que, assim que a morte tivesse operado os seus serviços, o cortasse todo aos bocados, o mergulhasse em sangue de carneiro, e o enterrasse debaixo de uma grande pilha de estrume de cavalo, para que assim, por fermentação, pudesse renascer da terra transformado no jovem belo e simpático que nunca fora na sua primeira forma. E destarte o discípulo, com toda a aldeia a ver, todos os pobres porcos e malcriados que se tinham amotinado contra a roupa suja a espiar, todos os farejadores de feitiçaria a rondar, pois com toda esta gente a insultá-lo o bom discípulo assim fez, com muita mágoa mas também com muita esperança. Só que Paracelso deitou mal as contas aos dias. Ou então explicou-se mal, que explicar-se bem nunca foi o seu forte. A única cousa que sabemos é que o discípulo abriu o túmulo cedo de mais, e só encontrou lá dentro o que te peço que imagines para não sujarmos a manhã com o odor das palavras. E, logo a seguir, no motim desgovernado da populaça, perdeu ele também a vida e foi ele também enterrado debaixo do estrume. Não podemos pedir-lhe que ande bem-disposto, entendes?

Entendo, diz Ana Maria.

E, sem saber porquê, agarra na mão do homem que a conhece, e procura enroscar-se entre ele e o cão, que parece ter ficado satisfeito com o efeito dos seus uivos e agora encosta a cabeça nos joelhos da dona com um suspiro satisfeito.

Tanta conversa, tanta conversa, como se porventura eu andasse para aqui a pedir misericórdia, suspira o velho. Vós outros ainda nem sequer entenderam, são tão cegos que nem sequer entreviram, o que realmente é fundamental na minha história.

Então?, pergunta a assembleia, devidamente impressionada.

Eu nem sequer tenho alma, rei dos reis e Grande Hylaster!, grita o velho, já sem paciência. Paracelso não foi buscar à toa, entre os seus seguidores, um discípulo assim tão fiel. Não, ninguém com alma humana conseguiria ser-lhe tão fiel como eu lhe fui. Eu não sou filho de Adão, como vós outros. Foi Paracelso que me fabricou, dentro de um frasco. Mil milhões de fumos de enxofre do Inferno. Não estão a ver? Destarte eu sou um homúnculo, oh ridícula e miseranda desgraça.

Segue-se a agitação previsível, com toda a gente agora interessada em perscrutar o velho calvo e desdentado mais de perto, e o cão a lamber-lhe a cara numa camaradagem desenfreada.

Foste fabricado segundo a receita para produzir homúnculos constante do tratado De Natura Rerum, de 1572, atribuído a Paracelso mas talvez de autor paracelsiano anónimo?, indaga Eleazar, cofiando o bigode. Aquela que levantou tantas ondas de choque, que chegaram a agitar as águas da Revolução Científica, e mesmo do Iluminismo?

Exactamente, responde o velho.

Eu sei de cor!, grita o miúdo, que de alguma forma aprendeu as artes mágicas da memória. Eu sei de cor! Querem ouvir?

Os outros dizem todos que sim com a cabeça — mas, prudentemente, dão todos um passo atrás. O rapaz agarra na mão do homúnculo, vira-se para o grupo receoso, e entoa:

“Não devemos, de maneira nenhuma, esquecer os homúnculos (…) Porque há alguma verdade nesta coisa, embora por muito tempo mantida da forma mais oculta no maior dos secretismos, enquanto não havia senão dúvidas e questões entre alguns dos antigos filósofos, sobre se seria possível para a Natureza e para a Arte, que um homem nasça sem o corpo da fêmea e o útero natural. A isto eu respondo, que não é o caso de forma alguma oposto à Arte Espagírica e à Natureza. Não, é perfeitamente possível.”

E como é que se faz?, gritam várias vozes excitadas da assembleia.

O miúdo e o homúnculo erguem as sobrancelhas ao olhar um para o outro. Depois a boca do homúnculo dobra-se num sorriso sarcástico, ao mesmo tempo que acena afirmativamente para o miúdo. Em resposta, o miúdo enche o peito de ar.

“Deixem o sémen de um homem putrificar por si próprio dentro de uma cucurbita fechada com a mais alta putrefacção de venter equinus”… bom, quer dizer, OK, isto significa o que vem do ventre, ou seja, estrume de cavalo… portanto… “com a mais alta putrefacção de estrume de cavalo durante quarenta dias, ou até que ele comece por fim a viver, e a ficar agitado, o que pode facilmente ser visto. Neste ponto será de certa forma como um ser humano, mas, no entanto, transparente e sem corpo. Se agora, depois disto, for em cada dia alimentado e tratado cuidadosamente com o Arcano do sangue humano, e se se mantiver durante quarenta semanas no calor perpétuo e igual do venter equinus, torna-se a partir daí um verdadeiro infante, com todos os membros de uma criança que nasceu de uma mulher, mas bastante mais pequeno. A isto chamamos o homúnculo; e deve depois ser educado com o maior cuidado e zelo, até crescer e começar a mostrar inteligência.”

Mas reparem, anuncia o miúdo, abraçando o velho pelos ombros, que Paracelso não estava a propor criar homúnculos nem como curiosidades nem como criados. Tinha um desígnio muitíssimo mais grandioso em mente. Ouçam.

Volta a encher o peito.

“Agora, este é um dos grandes segredos que Deus revelou aos homens mortais e falíveis. É um milagre e uma maravilha de Deus, um arcanum sobre todos os arcana, e merece ser mantido em segredo até ao fim dos tempos, quando nada estiver escondido, mas tudo estiver manifesto. E embora até este tempo não fosse conhecido dos homens, era, no entanto, conhecido pelos espíritos dos bosques, e ninfas e gigantes, desde há muito tempo; porque destes homúnculos, quando chegam à idade adulta, nascem gigantes, pigmeus, e muitos outros povos maravilhosos, que obtêm grandes vitórias contra os seus inimigos, e conhecem todos os segredos e matérias ocultas.”

Vocês iam ser os super-homens!, grita o adolescente para o velho com uma cotovelada amistosa. Ganda pedra, meu, como eles dizem agora lá no Lidl. Iam produzir um povo melhor do que os outros.

Ah, suspira o velho, pousando a mão descarnada no cabelo despenteado do rapaz. Mas não tínhamos alma. Éramos supinamente inteligentes porque éramos o fruto supremo da inteligência humana, éramos a recriação por mãos humanas da obra mais perfeita de Deus, mas, de qualquer maneira, destarte não éramos filhos de Deus. Se nos cruzássemos com outros seres prodigiosos, podíamos fazer nascer criaturas prodigiosas, mas nunca descendentes de Adão. Para isso, teríamos que acasalar-nos com uma verdadeira mulher, para que a sua alma, essa sim, vinda de Deus, pudesse passar para o nosso filho prodigioso. E só então formaríamos o povo dos super-homens. Agora, o Mestre bem me prometia que ia arranjar-me um acasalamento com uma verdadeira filha de Adão, ou era esta, ou era aquela, mas depois nunca havia tempo, ou a donzela não comparecia à hora esperada no local esperado, ou o Mestre mudava de planos a meio porque já tinha outra em vista que era melhor que a primeira, enfim. Sei dizer-vos que nunca acasalei na triste e rizível meretriz da vida, e que, com a minha morte, morreram todos os sonhos de raças de super-homens.

É possível que o teu Mestre não tivesse só a dar-te falsas esperanças, recorda-lhe suavemente Eleazar Melkievstein. Paracelso escreveu várias páginas sobre cruzamentos de prodígios com filhos de Deus. Por exemplo, ocorre-me uma passagem no Tratado das Ninfas, Sílfides, Salamandras e Outros Seres, em que ele diz qualquer coisa como…

“… estes seres, embora tenham aparência humana, não são filhos de Adão”, atalha logo o miúdo, em pose de citação. “Tiveram uma origem completamente diferente tanto da dos homens como da dos animais. No entanto, podem acasalar-se com os homens, e desses acasalamentos nascem verdadeiros seres humanos.”

Exactamente, aplaude Eleazar. Bem citado, jovem. Amigo homúnculo, em nome da comunidade académica, eu te saúdo e felicito. E te peço que nos perdoes pela nossa arrogância de meros mortais que nada sabem, nós outros que sempre acreditámos que, como nos parecia evidente, nunca tinham existido verdadeiros homúnculos.

O homúnculo começa por encolher os ombros, mas depois esforça-se, e ainda consegue fazer um sorriso ao professor.