A Primeira Luz da Madrugada
Livro Sexto, Cap. 1.º
Onde o Judeu Errante, solene e compungido, conta à assembleia a história de como a noviça das
agostinhas foi muito sabiamente lançada às feras, e seguidamente salva das garras das mesmas por
uns milagres bastantes simples efectuados por ele próprio.
Eu fui com vocês?, pergunta Ana Maria, razoavelmente compenetrada das circunstâncias. Assim, sem mais nada? As freiras deixaram-me ir contigo? Ou tive que fugir pela janela?
Oh, minha querida, comove-se Ashverus. Tão ingénua hoje como naqueles dias. Claro que tiveste que fugir. E não foi das freiras. Foi mesmo do povo. O povo tinha-te memorizado comigo nas ruas, digamos que tu eras assaz inesquecível. Uma noviça tão fresquinha e radiosa com um velho penitente pela mão, aquilo não podia deixar de dar nas vistas. Suspeitaram das minhas feições. Viram como tu acudias indiferentemente a cristãos e a judeus, e te garanto que marcaram com ferro em brasa a memória de como não tiveste pudor de, à frente de toda a gente, de mangas arregaçadas, e com o teu próprio véu já sujo do sangue, do suor, e do pó dos aflitos, andar a escoltar os trapos com os feridos judeus lá dentro para a enfermaria do teu próprio convento. Começaste a embaraçar seriamente as agostinhas. Elas tinham-te inebriado com as devoções do grande amor de Deus por todos os Seus filhos, com a certeza de que todos os homens eram irmãos em Cristo, e agora ninguém conseguia explicar-te convenientemente que ele há sempre filhos e enteados, tal como há sempre uns irmãos que são mais irmãos do que os outros.
Bom, defende-se Ana Maria. Eu só tinha quinze anos, é preciso ver.
O que tu afligiste aquelas venerandas madres, sorri Ashverus. O desespero delas, quando o povo que te espiava começou a contar-lhes que tu partilhavas comigo a tua enxerga à noite, no segredo da tua cela. E tu, completamente virgem, completamente tola, a reclamares o teu dever de dar abrigo a um penitente exausto e o teu direito a aprenderes comigo todos os segredos e caminhos da história universal. Tinhas a voz mais linda do coro, o coração mais generoso do convento, a mente mais ágil do noviciado, toda a gente te dava já por santa. E olha. Por via das dúvidas, a abadessa acabou por achar que o melhor era mesmo acabares como mártir, que assim até te canonizavam mais depressa. Foram elas que te arrancaram o véu e te trancaram os portões nas costas. Lançaram-te às feras. O povo estava todo cá fora, pronto para uma grande festança de violação e chacina.
Espero que me tenhas defendido convenientemente, adverte Ana Maria.
Ou não tivesse eu os poderes especiais que têm os mitos, retribui Ashverus, orgulhoso. Houve só um pequeno tremor de terra, nada mais. O suficiente para se racharem algumas fendas no caminho, se abrirem brechas nalgumas paredes, caírem uns telhados ao chão, só dois minutinhos e pronto. Fugimos para o meio da judiaria, onde todos se lembravam dos teus mimos e te receberam com o maior dos desvelos. Para te protegerem, vestiram-te de homem. Com os teus caracóis curtinhos e esse nariz arrebitado passavas bem por rapaz, e nem sequer tinhas assim um busto, quer dizer, proeminente, enfim, que te denunciasse.
Ainda hoje, suspira Ana Maria, resignada.
Ficavas tão galante, recorda Ashverus. Olha, se eu não estivesse já completamente apaixonado por ti, tinha-me apaixonado nessa altura. O gozo com que pisavas o chão descalça, a rapidez com que preparavas o frangão para os febris e mudavas os pensos aos feridos sem mais véus que te atrapalhassem os movimentos, a maneira como começaste a falar mais alto e a erguer mais o queixo e tu nem davas por isso, uma vez experimentei passar-te o cachimbo e tu chupaste-o ali mesmo, sem uma hesitação, como se sempre tivesses fumado na vida.
Desta vez também comecei a fumar aos quinze anos, recorda Ana Maria, impressionada. Mas espera aí, que houve uma parte que me fez confusão. No meio de tantos dares e tomares, onde é que eu ia buscar esses frangos assim tão grandes para dar aos doentes? E porque é que só os doentes é que tinham direito a frangos enormes, já agora? Isso parece-me um incentivo à doença, bolas. Está mal pensado.
Linda Dinamene, sussurra-lhe Eleazar Melkievstein, não sem deitar uma piscadela de olho a Fra Mauro, e aproveitando para presentear a mãe solitária com o mais terno dos sorrisos que sorriu até agora. Escuta. Frangão era o nome que o povo português dava à canja de galinha que se enfiava pela goela dos doentes assim que entravam nas enfermarias. Mal não fazia, compreendes? Sabia a remédio. E, de facto, possuía uns vagos poderes curativos, aqueles que a humanidade só veio a decifrar bastante mais tarde.
E a maneira como ouvias os homens, prossegue Ashverus, indiferente às interrupções da amada e às divagações académicas do homem que dedicou a sua vida a estudar a dele. Não tinhas paciência nenhuma para rapazes da tua idade. Era mesmo os homens que tu querias ouvir. Chupavas-lhes as palavras como uma esponja. Uns mal tinham tido tempo de se adaptarem aos vários países por que haviam passado, vieram alturas em que já ninguém sabia exactamente em que língua é que estava a falar, e tu até os coloquialismos mais requintados dos povos sefarditas conseguias enfiar nas tuas frases sem esforço.
Eras a nossa luz, a nossa grande fonte de energia. Ficaste mesmo até ao fim, até quando já era mesmo perigoso andar por Lisboa, e já pululavam lendas e conjuras sobre a prostituta gentia mascarada de rapaz, fugida do convento para saciar os circuncisados. Passava-te tudo ao lado. Não vias o perigo. Nunca agarraste sequer num punhal. Quando tivemos mesmo que fugir, já com o povo incendiário a perseguir-nos pelos becos de archote na mão, só te agarraste a mim. E eu, é verdade, fiz um bocadinho de batota para te depositar a salvo para lá da loucura mais depressa. Mas só um bocadinho. Uns fogos-de-santelmo nos barcos que estavam no cais, um efeito de que muito gosto, é bonito. E, sobretudo, é deveras conveniente nisto de impressionar a populaça e lançar nas hostes a dúvida e a desorientação sobre o sentido da mensagem e como agir em consequência. Tu parecias ter molas nas pernas e asas nos pés, e nunca querias seguir em frente enquanto não tivesses a certeza de que já todos os mais fracos tinham atravessado as barreiras que estavam sempre a aparecer-nos pela frente.