A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 43 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Oitavo

 

Onde, uma vez mais, se regressa à compilação de dados sobre o mito do Judeu Errante

pacientemente efectuada pelo professor Eleazar Melkievstein. Com uma nota de protesto do próprio

sobre as alterações introduzidas nas fontes pela literatura secundária.

“Conta-nos Melkievstein”, prossegue então o professor, não sem primeiro aclarar devidamente a garganta para recomeçar com voz de peito, “que, a apurar pelos relatos da época, desde que o Judeu teve a sua vida expandida, se tornou silencioso e reservado, e passou a caracterizar-se por só responder a perguntas directas. Diz-se que, quando o convidam como hóspede, come com extrema parcimónia, e bebe com grande moderação; depois do que parte rapidamente, nunca se demorando muito num único lugar. Quando lhe oferecem dinheiro, aceita pouco, e logo o distribui pelos pobres, como emblema de não precisar de bens materiais, porque Deus lhos fornece enquanto expia os pecados que cometeu em ignorância. No período a que nos referimos anteriormente, enquanto esteve em Hamburgo, nunca ninguém o ouviu rir. A qualquer terra onde fosse, falava a língua local. Aqui na Saxónia, por exemplo, dizem que falava como um nativo. Muitos vieram então ver este homem, e todos os que assim fizeram ficaram convencidos de que”… oy, vou citar, gosto desta minha passagem: “e todos os que assim fizeram ficaram convencidos de que a providência de Deus se exercia nele de maneira notável”. Um pouco pretensioso, mas alguns destes escritos datam da minha juventude. Adiante. “O Judeu ouvia com alegria a palavra de Deus, ou mostrava sinais de grande gravidade e compunção, e até reverenciava com suspiros o nome de Deus ou de Jesus Cristo; mas sempre que ouvia alguém jurar pelas dores ou morte de Deus, mostrava-se indignado, e exclamava com veemência: ‘Mau homem e miserável criatura, que assim abusas do nome de Deus nosso Senhor, e dos Seus amargos sofrimentos e paixão. Se tivesses visto, como eu vi, as chagas

profundas no Corpo de Deus, sofridas por ti e por mim, nunca pronunciarias o Seu nome em vão![26]’

“O autor deste relato, Chrysostomus Duduloeus von Westphalus, data-o do primeiro dia de Agosto de 1613, afirmando que a história lhe foi transmitida pessoalmente por Paul von Eitzen. E acrescenta ainda as seguintes palavras, para reforçar a convicção generalizada de que o Judeu Errante se fez notar por esses tempos em vários lugares com frequência admirável:

“‘No ano de 1575 o secretário Christopher Krause, e o mestre Jacob von Holstein, legados da corte de Espanha, e depois mandados aos Países Baixos para pagarem aos soldados que servem Sua Majestade naquele país, relataram que no seu regresso a casa em Schleswig, e confirmaram com juramentos solenes, que se encontraram com o mesmo indivíduo misterioso em Madrid de Espanha, na aparência, forma de vida, hábitos, vestuário, exactamente o mesmo que estivera em Hamburgo. Foram vários os que aqui o abordaram, e gentes de várias classes confirmaram que falava espanhol fluentemente. No ano de 1599, em Dezembro, um homem de confiança escreveu de Brunswick para Estrasburgo, relatando que a mesma pessoa estranha já mencionada fora vista viva em Viena, e que se dirigia à Polónia, para depois seguir para Moscovo. Este Ahasverus estava em Lubeck em 1601, por volta da mesma data em Revel, na

Lionnia, e em Cracóvia na Polónia. Em Moscovo foi visto por muitos e conversou com muitos’”[27].

Eleazar lê o parágrafo seguinte de sobrolho franzido, cofiando a barba. Depois suspira. A assembleia suspende a respiração. O professor encara-os, com a voz calma mas assoprada de uma irritação inescapável.

Desculpem, Amigos, mas detesto quando estas coisas acontecem. Oy. Vei. Sabem? Quando, alguns séculos depois, encontramos as fontes secundárias a atribuírem-nos palavras que nunca foram as nossas? Pois, esbarrei num caso desses. Aqui o estudante de Harvard atribui-me uma série de divagações que não me recordo minimamente de ter escrito, e mais acrescento que é falso que eu tenha concluído esta passagem, sem dúvida saída dos seus brios juvenis depois de muitas horas trancado na cave escura da biblioteca gigantesca, comentando, à laia de conclusão:

“O que é que os homens inteligentes e tementes a Deus devem pensar desta referida pessoa é a sua opção pessoal e não pode traduzir-se em recomendações gerais: pensemos, apenas, que os trabalhos de Deus são assombrosos e para além do entendimento, e são manifestos de dia para dia, para só serem

totalmente esclarecidos no último grande dia da Revelação”[28].

Ó professor, interrompe Fra Mauro. Não me leve a mal, mas eu, pessoalmente, acho essa passagem bonita. Pode não a ter escrito, mas o menino de Harvard também não lhe fez grande ofensa ao atribuir-lha. Ponha-se no lugar dele. Provavelmente, só quis dignificá-lo a si, com um toque simultaneamente apocalíptico e ecuménico à laia de conclusão.

Um toque imediatista, é o que é, protesta Eleazar. Os rapazinhos e as rapariguinhas que hoje mergulham nos nossos escritos estão minados pelas ideias do seu próprio tempo, e não é raro esquecerem-se de as tirarem do caminho antes de começarem a citar-nos. Vai daí, atribuem-nos tiradas ridículas, que é aquilo que eles imaginam que nós diríamos perante as situações que confrontávamos, simplificando grotescamente o nosso pensamento, que na realidade era muito mais sofisticado. Dizer de mim que eu escrevi isto é tão absurdo e falsificador da realidade histórica como dizer que, até ao século XIX , a medicina europeia consistia em sangrar as pessoas a torto e a direito e sem qualquer critério, até que elas morriam da cura, que assim como assim talvez fosse mais misericordioso do que morrer do mal. Vocês não me puxem pela língua sobre as falácias das fontes secundárias, senão é que nunca mais daqui saímos, mesmo. Para que conste: eu deixei bem claro, nos meus estudos, que nem todas as versões da vida de Ashverus coincidiam no tempo, no espaço e nos factos, e ainda que, ademais, foram várias as vozes que se levantaram em negação da existência deste personagem. Desculpa lá o mau jeito, meu bom Ash, mas um historiador tem que ser imparcial perante as fontes.

Oy, meu caro Eli, responde Ashverus reclinado negligentemente nas areias escuras, já todo descontraído e bem-disposto depois dos beijos de Ana Maria que lhe chegaram aos lábios. Vei. Mas eu sou um mito medieval, vejamos. É apenas normal que as fontes discordem a meu respeito. Tu julgas que, se houver necessidade de pensamento no futuro, alguém vai acreditar que eu me infiltrei no Lidl para invocar o Segundo Regresso? Deixa lá isso. É a parte mais divertida. Conta-nos as divergências, vá.