A Primeira Luz da Madrugada
Livro Nono, Cap. 1.º, Pt. Ii
O nde o debate principia com uma longa e tremenda lamentação do professor Eleazar Melkievstein sobre o descalabro civilizacional que tão pateticamente se abateu sobre o século XX.
Ashverus retira o Sepher Yetzirah da confusão que a excitação canina armou ainda há pouco à sua volta, limpa-o carinhosamente, volta a desenhar a estrela de seis pontas e a colocar o livro sagrado no centro, e depois senta-se de pernas cruzadas ao seu lado, a meio caminho entre os dois homens em contenda.
Falem, ordena por fim.
Vocês cegaram o mundo, dispara imediatamente Eleazar.
Pasteur suspira e acaricia o cabelo grisalho com demora, com todo o ar de quem já ouviu aquela conversa por várias vezes, e que já por várias vezes pensou cuidadosamente sobre ela.
Vocês convenceram os crédulos e incautos que vos ouviam de que a ciência ia salvar toda a gente de tudo. E, a partir desse dia, nunca mais ninguém pensou. Foram vocês, vocês, mais ninguém, homens arrogantes e triunfalistas do nefasto século XX, que venderam ao mundo inteiro a grande fraude de que não é preciso continuar a pensar quando já não existem problemas. E conseguiram convencer todos os que vos escutaram, e foram mesmo todos, tal era o deslumbre causado pelos vossos artifícios, de que vocês lhes resolveriam os problemas até ao último.
Eli, atalha Ashverus, determinado a arbitrar firmemente a batalha. Olha que podes estar a tirar conclusões apressadas do brilho justo da tua ira. Se calhar, não foi por acreditarem que iam deixar de ter problemas que as pessoas deixaram de pensar. Se calhar, se calhar, as pessoas pura e simplesmente não gostavam de ter que pensar. E só pensaram enquanto a sua fragilidade perante os perigos do mundo a tanto as obrigou.
É possível, troveja Eleazar em resposta. É possível que as massas não pensem. Mas eles, Ash, eles, com a sua presunção de fazerem da ciência a grande rameira dos bordéis universais, vibraram no pensamento humano o golpe mais rude e mais bruto que ele mesmo guarda em toda a sua memória. Tu e o teu microscópio, Louis. Porquê? Para quê? Olha à tua volta, olha agora, basta rodares os olhos daqui mesmo da praia, olha bem para este caos, vê o que os homens fizeram das tuas promessas. Olha-me para estas construções filhas da barbárie, pejadas de hospitais, de centros de saúde, de casas de repouso privadas, de laboratórios de análises clínicas e de instrumentos desmesurados para investigarem dentro das gentes tudo e mais alguma cousa, de máquinas que revelam num zumbido que já nem é deste nosso universo as degenerescências e excrescências mais absurdas e patéticas que um ser humano possa carregar dentro de si. Para quê? Porque é que os fizeste viverem mais tempo? Porque é que os quiseste vivos para lá dos limites da dignidade? Porque te repugnaram assim tanto os caminhos naturais que a morte escolhe para cada um de nós? Olha o que resta da tua imodéstia. Olha como eles vivem, com dores crónicas insuportáveis, com próteses que lhes deformam os gestos, com máquinas estranhas enfiadas dentro do corpo ou amarrados a elas por fios tirânicos de que não podem nunca desligar-se, em camas de onde não podem levantar-se, em cadeiras que rodam por eles e tanto podem que tudo escravizam, com todos os outros que ainda não vacilaram sob o peso dos anos a passarem-lhes ao lado e a desviarem os olhos porque a compaixão já desapareceu da cultura e já ninguém tem sequer paciência para as doenças. Sabes que lhes injectam células de porco no cérebro? E que lhes põem pilhas onde devia estar o coração? E que os entubam com veias e artérias de plástico? Era isto que querias? Era? Era assim que ia funcionar a tua preciosa bala mágica?
A bala mágica é dos alemães, interrompe Ashverus com firmeza. Tu descendes de uma família de Worms, e isso, pelo menos, tens que saber. É um conceito que aparece ainda antes do século XX, quando
se esboça a primeira ideia de que existem receptores específicos no organismo onde podem ir ligar-se substâncias capazes de lutarem contra o agente causal da doença. Qualquer tolo sabe esta parte da história, Eli. Ainda por cima a bala mágica é um termo cunhado pelo Ehrlich, que era um dos discípulos dilectos do Koch, na altura o grande rival aqui do Louis, à boa maneira da luta de alemães contra franceses que se mantém na ciência ao longo de todo o século xix. Não estás autorizado a golpes abaixo da cintura, ouviste?
Pronto, rosna Eleazar. Leva a taça. O termo será do Ehrlich, mas a ideia foi deles todos. E este senhor foi tão eficaz como os outros na sua disseminação pelo Ocidente atordoado. Foste ou não foste, Louis? E para quê? Porquê? Para que é que convenceste os homens dessa impostura? Como foi possível converter a humanidade à crença pagã e primitiva de que em breve para todos os males existiria um remédio? Vês o que acontece agora? Vês estas novas pestes, estas novas epidemias, todas estas novas pragas assustadoras, e com elas estas novas mortes lentas e degradantes e cada vez mais estendidas como garras de vergonha sobre a Terra, e os teus seguidores como crianças tontas, à procura do remédio, à procura do remédio, à procura do remédio, como se a seguir não viesse um novo mal sem remédio afligi-los de novo a todos?
Cuidado com as palavras, adverte Ashverus. Se as usares sem as pesares, podem ser de mau gosto. O primeiro grande caso de sucesso do Louis foi com uma criança. Uma criança tonta, certamente, como tu as descreves na tua retórica amargurada. Mas pronto, coitadinha, tinha sido mordida por um cão raivoso. E Pasteur curou-a.
Está bem, quase que cospe Eleazar. Está bem, curou-a, e depois? Grande coisa, descobrir a cura para a raiva. A seguir até descobriram a cura para a cólera. E quem identificou o bicho foi o outro. O Koch. O inimigo alemão. Ainda antes do inimigo francês dar com o bicho da raiva. Eh eh. Curas espantosas para terríveis doenças, de facto. E então? Que diferença fez? Estoutros aqui, eles curaram a raiva. Eles curaram a cólera. E desapareceram elas do mundo, porventura? Não foi o século XX o século mais raivoso e colérico de que há memória nos anais de todas as nossas memórias?
Eli, retoma Ashverus. Eli, não brinques com as palavras quando são as ideias que estão em causa. Apresenta os teus argumentos com clareza, que sabes bem fazê-lo, e deves. Louis Pasteur, aqui presente, descobriu a cura para a raiva. De que o acusas, então, com tanta acrimónia?
Ash, brada Eleazar de mãos erguidas. Ash, tu não viste o que ele fez com essa cura? Tu achas mesmo que a cura para a raiva lhe dava autoridade para começar a comportar-se como se pudesse operar milagres? Tu achas, tu, Louis, com toda a tua fé católica? Olha, profano, todas as fés eu respeito; mas abomino os abusos que delas se fazem. Achaste que já podias ser Jesus, Louis? Ou apenas te divertiste a fazer de conta que eras Jesus para impressionares o povo, como os jesuítas que foram para a América do Sul curar os índios para os converterem à fé cristã, porque esse era o grande milagre que Jesus gostava tanto de fazer, curar os doentes? É bom, não é, imaginarmos que fazemos milagres? É emocionante, deve ser, sentirmo-nos com os poderes de Jesus. Mas tu não brincavas, tu não convertias, tu não experimentavas apenas o efeito dos teus novos poderes sobre as pessoas. Tu comportavas-te como um verdadeiro Filho do Homem, e deixavas que te retratassem assim. Sonhaste, porventura, quando estavas perfeitamente acordado, que agora, com os teus novos remédios, também tu, meu pobre e patético mero monte de pó cinza e nada, também tu eras o Filho de Deus? Foi? Porque é que convenceste os homens do perpétuo milagre que ia ser operado pela medicina? Para que é que lhes disseste que o reinado milenário das doenças ia acabar? Onde foi que te esqueceste, Louis, como foi que te esqueceste, que a natureza é, porque sempre foi, porque sempre será, um alvo em movimento
— e que, portanto, nenhuma bala mágica acerta na mouche para sempre? Louis, meu pobre Louis, onde foi que te perdeste, sabes ao menos a que distância deixaste o teu coração?