A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 50 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Nono, Cap. 2.º

 

 

Onde é imperioso que se diga o último adeus àqueles de entre os membros da assembleia que não não foram chamados ao cargo de funcionário ou cliente do Lidl.

É agora, agora mesmo, que se ouve, vindo do largo, ainda ao longe, o motor fora de borda do barco da guarda costeira.

Tens que regressar com eles, Louis, explica Ashverus, passando o braço em torno do ombro do homem que sonhou com o maior benefício para a humanidade. Foi de um grande chutzpah, a tua visita. Mas agora só podem estar aqui comigo aqueles que trabalham na limpeza do Lidl.

Compreendo, responde Pasteur, olhos nos olhos.

Apertam as mãos com firmeza, depois com calor. E, logo a seguir, ainda no mesmo movimento, irresistivelmente, abraçam-se.

Depois é a Shoan inteira que fica a acenar ao barco da guarda costeira, que leva Louis Pasteur a bordo de retorno ao tempo em que existiram os últimos sonhos heróicos ao mesmo tempo que se extinguiam os últimos heróis. Com o focinho sobre os pés de Ana Maria, o cão chora baixinho. As nuvens grossas desceram até quase tocarem as águas, e um frio cortante passa de rajada pelos homens que têm que aguardar sozinhos o Segundo Regresso.

E é agora que, na estação, soa com toda a força o apito do comboio, ao mesmo tempo que uma luz vermelha começa a piscar com insistência.

Também tu, Eleazar Melkievstein, suspira o Judeu Errante. Também tu, por muito chutzpah que te tenha trazido até nós, tens destarte que partir. Não quiseram os caminhos que trabalhasses connosco no Lidl.

Instintivamente, todos os trabalhadores do Lidl se encostam uns aos outros. Uns abraçam-se. Outros dão as mãos. Ana Maria recolhe-se com eles, os dois braços passados em torno do pescoço húmido do cão. É Ashverus quem levanta do chão o livro sagrado, sacode a areia de todos os papéis, acaricia por uma última vez cada um dos saberes guardados dentro da mala de cabedal, e, por fim, fecha o trinco. O abraço entre os dois homens é longo e triste, como um pranto contido que sabe que o mundo não merece vê-lo soltar-se. Beijam-se em silêncio em ambas as faces.

Eleazar parte sozinho, sem nunca olhar para trás, balançando devagar a sua mala.

Aqueles que faziam turnos no Lidl não podem nem caminhar até à estação.

A solidão da longa espera começa a pesar-lhes nos ombros. Quando Eleazar desaparece entre os passageiros que procuram as portas mais próximas do comboio, toda a Shoan puxa das mantas e vem rodear as brasas, ateando-as para que não morram ainda, mas sem puxar demasiado pelos arroubos da chama. Estes homens estão cansados. Querem sentar-se, depois reclinar-se, depois dobrar as pernas e deixar cair a cabeça sobre mochilas e camisolas, puxar bonés e chapéus para os olhos, esquecer a luz, esquecer o dia, esquecer todos os séculos que já por ali passaram, e dormir por fim um sono que os liberte de tantas vozes, tantos sonhos descartados, tantas batalhas, demasiadas memórias para um dia apenas. Encostados uns aos outros no calor que sobe devagar do fundo da quietude, estes homens, agora, querem desaparecer da face da consciência e deixar o Judeu Errante entregue ao seu amor por Ana Maria, e os dois sozinhos na antecâmara do Segundo Regresso, que só pode estar para breve, porque está a ficar escuro na praia. E sabe-se, sabe-se porque assim ficou disposto no início dos dois mil anos da Jornada, que, ao fim da noite a madrugada já não vai deixar o mundo continuar o rumo que teve até agora. E ninguém sabe o que é que virá a seguir.

Em menos de cinco minutos, os cinco trabalhadores do Lidl, os cinco homens vindos de todas as partes do tempo e da geografia para se juntarem ao Judeu Errante, estão a dormir como crianças.