A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 25 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Quarto, Adenda

 

Onde ocorre abruptamente uma interrupção perigosa logo na primeira história do Judeu Errante, no caso vertente para um intervalo de meditação sobre o horror inominável dos massacres culturais.

Oy, suspira o professor Melkievstein. Vei. Que visão horrorosa. Vocês reparem bem, Amigos, como se tortura a cultura e se fere de morte o pensamento com esta infantilidade dos homens que os empurra para as aventuras dúbias da guerra e do imperialismo. A certa altura, vai um delegado inglês à China para falar directamente com o imperador. A arrogância desta gente. Um bárbaro qualquer sem credenciais nem conhecimentos de caligrafia entra pelo palácio dentro, diz que quer falar com o imperador, e espera ser recebido logo ali? Olhem, o imperador fê-lo esperar mais de um mês. E depois mandou-o embora completamente humilhado. O inglês, vocês estão a ver os Ingleses, voltou para a Índia furioso. E pior: com um sólido conhecimento de causa de que o Império do Meio já não tinha recursos bélicos para responder às investidas do exterior. A Grande Muralha estava em ruínas, as armas haviam-se tornado anacrónicas, os soldados estavam mal treinados. Foi o suficiente para os franceses e os ingleses unirem esforços, e, para enriquecerem as suas respectivas Companhias das Índias Orientais, mandarem dizer aos chineses que exigiam que, a partir daquela data, o ópio lhes fosse comprado a eles. Ambas as potências coloniais dominavam os territórios mais ricos em papoila branca, e há milhares de anos que os chineses consumiam ópio, compreende-se. Em resposta, o imperador ordenou ao povo chinês que parasse imediatamente de fumar ópio. O povo acatou a medida. E olhem: foi a chamada Guerra do Ópio. Franceses e ingleses invadiram a China e saquearam tudo o que puderam, incluindo as riquezas incontáveis do Palácio de Verão, do qual, ouço dizer, só resta agora um jardim indescritível de tão formoso. E o imperador ficou trancado dentro da Cidade Proibida, enquanto, cá fora, no centro de Pequim, se instalava um bairro inteiro de representações estrangeiras, umas mais políticas que coloniais e outras mais coloniais do que políticas, mas todas igualmente rapinantes. Pronto, aqui entra em cena a mãe do imperador, que começa a reunir secretamente com sociedades secretas chinesas que costumavam, elas próprias, conspirar contra o imperador. Estes homens formavam a “Harmonia Correcta dos Punhos”, ou as “Sociedades dos Punhos Correctos”, e praticavam uma modalidade de kung-fu que, se desenvolvida ao seu extremo de perfeição, deveria dar-lhes poderes mágicos como voar e serem invulneráveis às balas ocidentais. Eram complementados por grupos de mulheres, as “Lanternas Vermelhas”, a quem as artes marciais deveriam também dar o poder de mudar os ventos. Como eram peritos numa espécie de boxe, os ingleses chamavam-lhes os “Boxers”. O plano era convencê-los a unirem antes esforços contra os europeus que estavam a tomar conta da China. Foi assim que começou a Guerra dos Boxers, e mais não explico porque eu cá estudo a história de mitos, não perco tempo com a história do colonialismo, que é sempre a mesma, tem sempre os mesmos princípios motores, e dá sempre mau resultado. E, de facto, assim aconteceu na China, como era inevitável que acontecesse. Neste caso concreto, uma das primeiras coisas que os revoltosos fizeram foi deitar fogo à Biblioteca, para que o fumo expulsasse de suas casas as representações estrangeiras, todas instaladas ali mesmo ao lado. Perdeu-se o que foi escrito pelo punho de Confúcio. Ah, e claro, perdeu-se a guerra, também, já que, bem vistas as coisas, ninguém voava, ninguém mudava os ventos, e sobretudo ninguém era imune às balas. Perdoem, Amigos, mas estou a ficar nauseado com a obscenidade da minha própria história. Conta lá o que fizeste quando os franceses incendiaram as carretas do Talmude, Ashverus.