A Primeira Luz da Madrugada
Livro Segundo, Cap. 1.º, Pt. Ii
Onde por fim se conhece a história completa daquele que pela primeira vez se apresenta enquanto filho ilegítimo de Matteo Ricci, tal como contada por ele próprio à assembleia deliciada; incluindo, para deleite de todos os presentes, numerosos considerandos sobre a Medicina tradicional chinesa no domínio específico da sexualidade.
Pois, confirma o rapaz que decora tudo, com um sorriso contristado. Como já vos contei, para aprender cantonês e mandarim, e para conhecer de perto os hábitos dos Chineses, o meu pai passou alguns anos em Macau, na preparação para a longa expedição temerária. Recebeu-o em sua casa, com todos os devidos faustos, um mercador português riquíssimo, que por esses dias acabara de contrair matrimónio, no meio de ainda mais devidos faustos, com uma menina chinesa lindíssima. Versadíssima nos requintes da sua cultura. Capaz, até, de tocar flauta, e de desenhar bastantes caracteres. Além de que devidamente treinada no conhecimento dos remédios destinados às artes tradicionais da alcova, incluindo o uso da pomada para fazer encolher a vagina, magnificamente desenvolvidas na China desde o tempo da dinastia Song, entre os séculos X e xiii. Sabia falar português. Também sabia falar mandarim e cantonês, sabia cantar ópera chinesa, sabia preparar ópio, e conhecia de fio e pavio todas as infindáveis regras de etiqueta que regulavam então a vida dos Chineses. É evidente que, com aquela beleza incrível, andara a ser treinada desde cedo para se casar com o primeiro milionário que aparecesse a jeito.
Espera aí, espera aí, interrompe o Judeu Errante, lançando uma espreitadela travessa ao rosto fascinado de Ana Maria. Essa dos remédios tradicionais da arte da alcova da dinastia Song, que pelos vistos até incluem requintes como o uso de pomadas para fazer encolher a vagina, passou depressa de mais. Estamos a falar de quê, exactamente?
Oh, sorri o miúdo, gaiteiro. Digamos que de toda uma Medicina sofisticadíssima, neste caso feita de poções e de filtros, e dos prazeres deles resultantes, que de todo em todo o Ocidente desconhece.
Esclarece-nos, encoraja Eleazar, já de bloco-notas em punho.
Bom, murmura o rapaz. Tenho que limitar-me a alguns exemplos, malta. Os que agora estudam estas coisas fazem quadros e tabelas com letras minúsculas, e mesmo assim são pelo menos oito páginas de informação compactada. Mas, por exemplo. Logo no século X, por exemplo, tínhamos o Tuji San, feito com pó de galo careca e ingerido juntamente com álcool, que tratava cinco cansaços e sete feridas, e curava a impotência. Mais elaborado era o Lujiao San, este fabricado com pó de corno de veado, também de uso interno mas sem álcool, que, além do que que fazia o Tuji San, também impedia o pénis de encolher durante o coito, e mais tratava de irritações urinárias. Mas ainda melhor era o Kaixin Shuyu Shenqi Wan, feito com o yam que abre o coração e dá mais qi aos rins, para tomar misturado com mel. Além dos outros problemas, acudia à falta de apetite, à má circulação nas pontas do corpo, e à perda de desejo dos homens mais velhos, ou dos que se sentem como eles. Isto podia combinar-se com o Yuanzhi Wan, o pó de Benefício Acrescido, tomado com álcool, que aumentava e fortificava o poder do qi, endireitava as costas, tornava os cabelos brancos de novo cinzentos, e fazia a face mais lustrosa, para o homem conseguir rejuvenescer. Não para sempre, atenção. Isto não era banha-da-cobra. Era mesmo só para melhorar o sexo, e funcionava. Bem, e as tais pomadas ou supositórios, os remédios para tornar a porta de jade, ou seja, a abertura da vagina, mais pequena e mais quente, há pelo menos uns quatro diferentes logo neste período, sempre para usar como lavagem com água quente ou com aplicação no interior da dita porta. Mais tarde, começam a aparecer remédios de composição já mais hermética, como o Jinqiang Budao Fang, o Remédio para Não Deixar Cair a Espada Dourada, que se inseria na entrada da uretra, e melhorava o pénis, assegurava a permanência da actividade, e aumentava o prazer sexual. E, para as mulheres, não faltavam recursos. Existia o Han Sunfei Nuanludan, o Elixir da Rainha Sol dos Hang para Aquecer a Lareira, que se inseria dentro da vagina e diminuía-lhe o tamanho, aumentando o prazer. Passava-se exactamente o mesmo com o Lu An Gongzhu Relu Fang, o Remédio da Princesa Gong An para Aquecer a Lareira. Outros iam mais longe, como o Rolu Shuangmei Dan, o Elixir de Aquecer a Lareira e Maravilhas Paralelas, que se inseria na vagina e aumentava o apetite sexual, melhorava a sensibilidade e assegurava o prazer mútuo. Gostaram? Então tomem lá o Shuangmei Dan, o Elixir do Êxtase Paralelo, que excitava tanto o homem como a mulher e assegurava prazer imenso aos dois. E, para quem não queria parar, ainda podia acrescentar-se o Tie Qi Gao, o Gesso do Umbigo, que consistia exactamente em pôr este gesso em cima do umbigo, estabilizá-lo com uma fita de seda, e assim assegurar uma grande quantidade de coitos, juntamente com a demora nas emissões seminais. Bom, nos manuais do fim da dinastia Song, no século XIII, isto já se tinha sofisticado ao ponto de existirem elixires associados aos Imortais e aos Sábios, e elixires associados ao Palácio. Vou só dar um exemplo de cada um, boa? Estou a ficar farto deste número de compêndio de Medicina tradicional chinesa. Então, dos Imortais e dos Sábios temos o Qingong ZhuhouYupen Shuangmei Fang, o Remédio para o Elixir da Banheira da Rainha Zhu do Palácio dos Qin para Maravilhas Paralelas, com que se lavavam o corpo do homem e da mulher, para que a vagina encolhesse e o pénis alargasse. E, do Palácio, temos o Qidong Lishi Ghun, a Fonte da Emoção Que Se Move e Levanta no Tempo, com que se cobria o pénis para assegurar a capacidade de suster a emissão seminal. E cito este entre dezenas de outros porque é o único a que se associa também a possibilidade de garantir a ejaculação fora da lareira, mostrando que os Chineses já se preocupavam com o planeamento familiar quando a Europa andava descalça. Olhem, e se continuássemos de onde estávamos? Quem é que me mandou falar das medicinas de alcova da minha mãe, pobre coitada.
Tens razão, responde Ashverus. Faz parte do ser humano ser curioso, e tal se regista de forma peculiar quando se pressupõe que o móbil da curiosidade tenha a ver com sexo. Será, meus bons Camaradas, que nisto seremos diferentes depois do Segundo Regresso? A ser assim, não tenho nada a certeza de que gosto da ideia. Mas desculpa, rapaz. São divagações de um velho. Continua a tua história.
O filho ilegítimo de Matteo Ricci continua a sua história.
Ora a minha mãe, pelo milionário com que a família a casou, um gordo todo morenão com umas grandes patilhas e bigodaças, vindo de um sítio chamado Azambuja e bruto como as casas, claro que não sentia nenhum interesse especial, embora fosse conivente e submissa nos seus deveres de esposa e dona de casa. Mas, com o meu pai, a história era outra. Como é evidente e inevitável, a minha mãe tornou-se rapidamente na companhia mais assídua dele. Já vos disse que ela sabia falar português, e lembrem-se que esta língua não é assim tão diferente do italiano como isso, e ainda menos do latim. Ainda hoje recordo o meu pai como o via em miúdo, loiro e sardento, seco, limpo, desempoeirado, de costas direitas, vestido à civil para não dar nas vistas e espantar a caça, enfim. Um belo homem. Juntos, o jesuíta italiano e a esposa chinesa do comerciante português correram todos os lugares de Macau, estudaram caligrafia horas a fio, inventaram histórias que os chineses entendessem para que o meu pai fosse mais bem-sucedido quando chegasse ao coração do Império do Meio, enfim. E o comerciante feliz da vida, porque aquele conjunto explosivo da beleza que cantava ópera e do padre disfarçado que tinha vindo da Europa catequizar os Chineses transformou rapidamente o seu palácio num centro de romaria para festas mundanas e longos debates filosóficos nos salões.
Nem o meu pai nem a minha mãe me contaram nunca como foi que, finalmente, pisaram o risco; mas também essa parte dispensa explicações, não é? Estava na cara que ia acabar por acontecer. O pior foi que o comerciante ainda nunca tinha conseguido procriar, já se falava de uma qualquer maldição de infertilidade por cruzamento entre raças, e, de repente, ela aparece grávida. Ainda por cima, há já quase um ano que não recebia o marido, sendo que o homem partia várias vezes em longas expedições aquisitivas. Começa Macau inteiro a murmurar, aquilo era um meio pequeno como tudo. As mulheres dos amigos portugueses dos meus pais começam a sugerir à minha mãe uma panóplia impressionante de venenos para tirar o gordo da Azambuja do caminho, por forma a que ela e o rebento herdassem uma fortuna colossal, e o padre excitante estivesse livre para proceder como muito bem achasse, até para reclamar como seu dever espiritual educar devidamente a criança órfã. A minha mãe tentou resistir a todas essas investidas, mas as mulheres dos portugueses, portuguesas ou chinesas, é que não estavam para baixar os braços. O padre excitante, nesse meio-tempo, já se tinha transformado num troféu extremamente cobiçado em todas as casas ricas, até já circulavam romances de cordel sobre as proezas sexuais dele, a sério. Olhem, planearam tudo como deve ser, em grande minúcia chinesa, e, na noite em que eu nasci, envenenaram de uma vez só a minha mãe e o gordo. Com teias de aranha que lhes fizeram passar sobre a boca quando eles dormiam.
Belo conto, aplaude o homúnculo.
Sem dúvida, concorda Ibn Hâyan. Ainda dizia o rapaz que a sua vida era apenas banal.
E esta menina nem percebia porque é que tínhamos que vir esperar o Segundo Regresso para a terra dela, sussurra Ashverus para Ana Maria, encostando-a docemente a si. Tu não vês, rosa do mundo, que toda e qualquer história do Segundo Milénio, vá ela para onde for, esbarra sempre num português? Então, o Segundo Regresso deve aguardar-se no lugar que melhor evoque o Segundo Milénio. Por uma questão de consistência numerológica.
Tanto sofrimento, suspira Fra Mauro. Tanta prepotência. Sempre tantas conjuras dos profanos que tentam apoderar-se do nosso destino. Então e depois o que é que aconteceu, meu filho?
Bem, remata o miúdo que herdou os olhos pretos e amendoados da mãe juntamente com as madeixas loiras e as sardas do pai. O meu pai agarrou em mim, e partiu imediatamente, em segredo, numa barcaça para a China. Apresentou-me sem uma hesitação aos seus anfitriões como sendo uma criança macaísta que ele salvara das águas no momento da partida, e que agora tinha a obrigação de educar. Sempre me chamaram o Salvo das Águas, e sempre me trataram bem. O meu pai, que tinha frustrações constantes com a diletância dos seus alunos chineses, para não perder de todo a ocidentalidade canalizava uma dose impressionante de energia para mim. Fui a todas as suas aulas.
Pratiquei com ele inúmeros testes. No fim, a minha memória já ultrapassava a dele. Fazíamos juntos espectáculos para impressionar os chineses e tudo. Nessa altura, eu era feliz. Aos quinze anos, o governador quis casar-me com a filha dele. Era de cair para o lado, a miúda. Doze anos, cara de boneca, bochechinhas redondas, dedinhos finos, um primor. O meu pai opôs-se. O governador ofendeu-se. Eu revoltei-me. Armou-se a maior das desordens. O provincial dos jesuítas entendeu por bem chamar o meu pai de regresso a Roma, e eu tentei fugir com a miúda. Fomos os dois decapitados por um guarda que não sabia quem nós éramos, só viu dois vultos sobre as muralhas no escuro e pensou que eram ladrões. Coitado. Há-de ter sido decapitado a seguir, de certeza. Se é que não o torturaram barbaramente antes, como era costume nessa altura.