A Primeira Luz da Madrugada
Livro Sétimo
Onde, depois de uma longa digressão por outras águas, se
regressa agora ao mito do Judeu Errante tal como
constante da compilação doutíssima recolhida
pelo professor Eleazar Melkievstein.
Com o retomar dos linguajares
adequados ao discurso
académico.
Ana Maria vira-se para o resto do grupo com aquele sentido prático que só as mulheres é que têm, e que está fora do alcance do mundo dos homens.
Pessoal, chama ela, com um estalo dos dedos. O Ash agora entrou na espiral do judeu penitente, que é a especialidade dele, e nós não sabemos quando é que volta a sair dali. Isto que estivemos a ouvir, para nós todos, foi dose. Deixem-no. Ele precisa de chorar de joelhos, e de bater no peito. É o que faz o Judeu Errante. Entretanto, professor Eleazar, creio que, cronologicamente, regressámos às datas em que voltou a encontrar registos. Como o Ash já os conhece a todos e agora quanto menos a gente o incomodar melhor, conte-nos o que é que lhe acontece a seguir, que entretanto aquilo passa. Vocês desculpem a minha frieza, mas eu já amei, e já criei filhos. Se há uma coisa que eu sei é que alguém tem que manter a cabeça fria nestas situações extremas. E isso, regra geral, compete às mulheres, o que aliás é uma das razões por que os homens as evitam tanto desde que elas entraram para a história.
Não tivessem entrado, repete o avô de Conrad Kyesler. Fixe, atira-lhe Ana Maria, completamente despachada.
Mas, dê lá por onde der, para o melhor e para o pior, entrámos.
E eu sou a única mulher que está aqui. Por isso ninguém vai enfrascar-se, ninguém vai ficar a fumar cigarros cirílicos sem dizer uma palavra, ninguém vai apanhar a camioneta para Turlock, ninguém vai deixar o caso para mais tarde, esta praia foi minha ainda antes de ser vossa e quem manda aqui sou eu. Conte-nos o resto do mito, professor.
A menina é admirável, suspira Eleazar.
A professora doutora, para si. A menina já não existe há muito tempo. Acabe de ler o artigo que o puto de Harvard escreveu sobre o meu amor baseado nos seus escritos. Vá, acabe. A malta tem que saber. Faltam poucos minutos para o Segundo Regresso, e ainda estamos empancados no século XVI por causa de um mito que teve ciúmes de uma lenda. Desculpem, isto é ridículo. Leia-nos o resto, professor.
Muda ligeiramente de tom e fecha os olhos. Por favor, acrescenta.
Oy, responde Eleazar. Vei. A professora doutora é admirável. Deixem-me lá ver onde é que eu ia… bom… é aqui… querem ouvir?
A audiência diz que sim com a cabeça, com aquele ar meio comprometido meio interdito dos bandos de homens que acabaram de levar com uma boa descasca vinda de uma mulher.
Então, Amigos, oferece Eleazar, já de nariz enfiado nos seus papéis e de óculos em posição. Na parte em que eu fiquei, quando o Judeu Errante desaparece durante uns séculos, isto reza assim.
“Da primeira vez, encontramo-lo de forma invulgarmente descontraída, quase como que numa visita entre amigos de longa data, a prestar assistência a um tecelão chamado Kokot, no palácio real da Hungria. Estamos em 1505. Sessenta anos antes, o avô de Kokot enterrara algures por ali um grande tesouro, e o Judeu assistira a tudo, mas remetia-se agora a um mutismo absoluto sobre o assunto. Parecia-se, então, com um homem de setenta anos.” Que é isto?, salta logo Ricci Júnior. Em 1505? Exactamente na altura em que ele nos disse que andava em todas aquelas aventuras com a Hannah entre Lisboa, Antuérpia e Praga? Está errado, bolas. Alguma dessas fontes está errada. Um gajo não pode estar em dois sítios ao mesmo tempo, a fazer duas coisas diferentes.
Eu sou um mito, responde Ashverus, do fundo da sua lamentação ajoelhada, a voz ainda embargada de lágrimas. Não sou um gajo, ó vórtice infinito das desgraças. Sou um mito. É próprio dos mitos aparecerem em vários sítios ao mesmo tempo, de várias formas diferentes. E, se vós outros forem ver, apareço sempre em sítios próximos do local de repouso eterno da minha Hannah.
E tu deixa o Ash em paz, puto, adverte Ana Maria, com voz de quem não está a brincar. A ideia era ficarmos aqui calados a ouvir o professor contar o que apurou sobre o Judeu Errante, e ver se sossegamos um bocado. Não é a melhor altura para estarmos com perguntas, e ainda menos sobre minudências. Professor, por favor, desculpe. E, se faz favor, continue.
Eleazar Melkievstein suspira, volta a compor os óculos, e volta a mergulhar na sua leitura.
“Segue-se uma menção localizada a oriente e registada logo no ano seguinte, onde, curiosamente, aquele a que até agora temos chamado José parece ser identificado directamente com o próprio profeta Elias. Esta variação aparece-nos em fontes muçulmanas de origem pouco clara, não nos tendo sido possível retraçar qualquer ponto de contacto entre os seus autores e as fontes húngaras mencionadas anteriormente. No entanto, os contornos da história remetem, inequivocamente, para mais uma menção ao mito do Judeu Errante.
“O guerreiro árabe Fadhilah, à cabeça de trezentos cavaleiros, conquistara recentemente a cidade de Elvan. De seguida, instalou o acampamento entre duas montanhas. Quando começou a oração da tarde, ouviu cada uma das suas palavras repetida exactamente como se tivesse sido dita por ele. A repetição era tão precisa, que não podia ser obra do eco. Intimidado, Fadhilah ordenou que quem quer que fosse que ali estava escondido que se revelasse, e viu aparecer à sua frente um homem velho e calvo, com um bordão na mão e a aparência de um derviche. “‘Bassi Hadhret Issa’, disse a aparição. ‘Estou aqui por ordem do Senhor Jesus, que me deixou neste mundo, para que aqui viva até que Ele volte uma segunda vez à Terra. Espero por este Senhor, que é a Fonte da Felicidade, e em obediência às suas ordens vivo
por trás da tua montanha’[20].
“Curioso, Fadhilah quis saber quando é que o Senhor Jesus apareceria, ao que a aparição respondeu que seria no fim do mundo, para presidir ao Juízo Final. Cada vez mais curioso, Fadhilah quis saber quais seriam os sinais da aproximação do fim de todas as coisas, ao que a aparição, nomeada neste texto como Zerib Bar Elia, respondeu com uma descrição da dissolução geral, social e moral, que seria o
clímax do fim da história do mundo[21]. “Em 1547, depois deste breve desvio pelo mundo árabe, o Judeu reaparece na Europa. Desta vez o eleito para receber a sua visita foi o doutor da Igreja Paul von
Einzen, bispo de Schleswig[22], quando veio visitar os pais a Hamburgo depois de concluir os seus estudos. No domingo seguinte à sua chegada, em pleno Inverno, celebrou a missa na sua cidade natal. Por entre a multidão, distinguiu um homem alto, com o cabelo caído sobre os ombros, descalço, encostado ao púlpito.
“Este homem escutava o sermão com profunda atenção, e, de cada vez que ouvia mencionar o nome de Jesus, inclinava-se humildemente, suspirando e batendo no peito. No frio áspero que envolvia toda a cena, a sua única roupa eram um cordel esfarrapado enrolado à volta dos pés, e um casaco com uma corda à cintura que roçava o chão. Parecia ter cerca de cinquenta anos.
“Por esta altura, já várias pessoas, ‘entre elas algumas de alto título e grau’ como precisa Melkievstein, relatavam terem visto esse mesmo homem na Inglaterra, em França, na Itália, na Hungria, na Pérsia, em Espanha, na Polónia, em Moscovo, na Lapónia, na Suécia, na Dinamarca, na Escócia, e noutros lugares. Esses rumores eram conhecidos do bispo alemão, bem como da congregação que o escutava. Imagina-se, portanto, a comoção que aquela figura muda e descarnada terá causado entre a assembleia. “Assim sendo, a seguir ao sermão, o doutor da Igreja mandou chamar o personagem perturbante, recebeu-o em privado, e perguntou-lhe quem era e a que vinha. A isto ele respondeu, modestamente, que era judeu por nascimento, nativo de Jerusalém, de nome Ahasverus e de profissão sapateiro; tinha presenciado a crucificação de Cristo, e estava vivo desde então, viajando por vários países e cidades, afirmação que consubstanciou com os relatos que fez. Também relatou as circunstâncias da transferência de Cristo de Pilatos para Herodes, e a Sua crucificação, juntamente com detalhes não mencionados nem por historiadores nem por evangelistas. Recordou ainda mudanças de governos em numerosos países, especialmente no Oriente, ao longo de vários séculos; e mais detalhou
circunstancialmente os trabalhos e as mortes dos Santos Apóstolos de Cristo[23].
“Eitzen, ‘ouvindo isto com profundo assombro’, quis saber mais ‘sobre esta incrível novidade, e obter informações mais correctas’. Foi assim, durante as horas perdidas da noite que se seguiram, que Ahasverus contou ao bispo a história da sua própria condenação. Disse que, quando vivia em Jerusalém onde exercia a arte de sapateiro, sempre considerara Jesus Cristo um traidor e um herege que andava a enganar os judeus. Viu-o por mais de uma vez com os seus próprios olhos, e fez tudo o que pôde, juntamente com outros que acalentavam os mesmos pensamentos, para que este impostor fosse chamado à justiça e tirado do caminho dos homens de bem. Depois da sentença de Pilatos, quando Jesus ia a passar diante da sua casa, chamou toda a família para que vissem o falso profeta de perto; e postou-se na soleira com o filho ao colo, para apreciar devidamente o espectáculo. Prostrado pelo peso da cruz, Jesus tentou parar mesmo diante da sua porta para recuperar o fôlego. Mas o sapateiro, cheio de raiva contra o falso profeta e simultaneamente desejoso de ficar bem visto perante a comunidade judaica, proibiu-o de parar e mandou-o antes andar mais depressa. Jesus obedeceu, olhou-o nos olhos, e disse: ‘Eu hei-de parar e
descansar, mas tu terás que andar até ao fim dos dias’[24]. Ao ouvir estas palavras, o sapateiro pousou a criança e seguiu o condenado até ao Calvário. Viu como foi cruelmente torturado, como sofreu, como morreu. E compreendeu então que não poderia regressar a Jerusalém, nem alguma vez voltar a ver a mulher e o filho: teria antes que partir para terras estrangeiras, que percorreria uma após outra, como um triste peregrino em luto perpétuo. Só voltou a Jerusalém depois da destruição da cidade, quando do seu antigo esplendor já não restava pedra sobre pedra; e, nessa altura, já não conseguiu distinguir um único local da sua vida anterior.
“Acredita ser o propósito de Deus, ao fazê-lo viver esta vida miserável, e ao impedi-lo de morrer, apresentá-lo perante os judeus como um símbolo vivo, para que os incréus e os que não temem a Deus possam recordar a morte de Cristo, e assim se tomem de arrependimento. Pela sua parte, ficaria feliz se
Deus no Céu o libertasse deste vale de lágrimas[25].
“Eitzen mandou chamar o reitor da escola de Hamburgo, um homem versado em história e um grande viajante, e juntos questionaram o sapateiro sobre vários acontecimentos ocorridos no Oriente depois da morte de Cristo. A quantidade de pormenores e a precisão das datas oferecidas pelo judeu convenceu-os da autenticidade da sua história, e fê-los ver ‘que o que parece impossível ao homem é, de qualquer forma, possível para Deus’.”