A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 55 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Décimo

 

Onde começam por fim a chegar à praia os herdeiros da Grande Odisseia. Com a presença tranquila e imensamente tranquilizadora do varredor municipal das ruas da Cruz Quebrada.

Conscientes da solenidade do momento, Ana Maria e Ashverus atravessam devagar as areias escuras da Cruz Quebrada, sem largarem as mãos, sem proferirem palavra. Vão em direcção à fogueira que tem em cima uma panela de qualquer coisa, que um homem está a mexer sozinho enquanto entoa uma melopeia infinita, tal como a anfisbena sem princípio nem fim.

Moambada, murmura Ana Maria num deslumbre, quando a primeira brisa vinda do interior lhe traz até aos sentidos o aroma da panela. Amor. Aquele homem está a fazer moamba de galinha. Só pode ser angolano. Tem que ser. Anda. Anda depressa.

Aceleram ambos o passo, cada vez mais embriagados pelos vapores que se escapam da panela, pertinazes e indeléveis. O cão desata a abanar furiosamente a cauda.

Eu, por acaso, até já comia qualquer coisa, grita Ana Maria para o homem solitário que canta a melopeia ancestral.

Ele levanta a cabeça e sorri-lhe um sorriso rasgado.

Ela estaca, estremece, abre a boca, volta a fechá-la, dilata as pupilas, arqueia as sobrancelhas, não consegue falar.

O homem do sorriso rasgado acena-lhe afirmativamente com a cabeça.

Isto é chutzpah, comenta Ashverus.

Há já várias décadas, aquele mesmo homem foi um jogador de futebol vindo de Angola, que se chamava Nhábola e que teve o seu píncaro de glória no plantel do Rio Ave. Marcava sobretudo em passes de cabeça, o que fazia todas as mulheres da bancada dos sócios levantarem-se à uma e bradarem em coro, como que tenazmente ensaiadas: “Nhábuola! A tua cabeceinha é d’ououro!” Como frequentemente acontece nestes casos, quase invisíveis de tão rápidos, nunca soube gerir todo o dinheiro que lhe deram nessa altura. Daí decorre que hoje, já com veios grisalhos na carapinha, seja o funcionário municipal que varre as ruas e os passeios da Cruz Quebrada.

Este varredor passa todas as semanas pela Travessa Pinto Correia. Chega impreterivelmente na hora do lobo, quando o dia está a confundir-se devagar com a noite e as almas podem momentaneamente largar os corpos que habitam. Toca sempre ao batente, para ver se a senhora a quem ele chama menina bonita está em casa. Ana Maria sente uma luz nova subir-lhe aos olhos, porque conhece aquele toque, e gosta especialmente daquela visita. Transporta essa luz consigo quando lhe acena da janela. Depois traz-lhe a cerveja, os cigarros, a cadeira de praia. E então ele senta-se, com todo o tempo do mundo, para discutir com os rapazes as mais rebuscadas minudências dos mais remotos campeonatos da época.

Nhábola, murmura Ana Maria. Nhábola, és mesmo tu que… Não sou só eu, responde Nhábola, ao mesmo tempo que deita uma colherada de moamba de galinha para uma das várias tigelas alinhadas em torno da fogueira. São os Africanos, menina bonita. Bem-aventurados os que sofrem, lembras-te? E julgas que algum povo sofreu mais que o nosso? Nós, os herdeiros da Grande Odisseia, os homens e as mulheres que brotaram do solo de onde, há milhares e milhares de anos, brotou pela primeira vez o primeiro esboço da humanidade?

Os australopitecos, murmura Ana Maria. A Lucy. Raios me partam, amor, a Grande Odisseia era o desenvolvimento da vida humana. Agora faz tudo sentido. Os Africanos. Os únicos habitantes do planeta que, por muito que todos os outros tentassem, nunca deixaram que houvesse nada, nada, nada, que corrompesse as suas ideias e modificasse os seus espíritos. Por isso tu passaste lá tanto tempo nos últimos anos. Por isso dizias que era o último continente de alma pertinaz. Até disseste uma vez que, se a raiz humana está em África, é a África que temos que ir procurá-la. Caraças. São os Africanos que vão assistir vivos ao Segundo Regresso, enquanto todos os outros mortais como nós são obrigados a dormir. Bem-aventurados os que sofrem. Pois claro. Bate tudo certo. Ash, oh, Ash, meu Ash, nós estávamos completamente ceguinhos.

Pois então que vos caiam agora as vendas, responde-lhe Nhábola, depositando uma tigela de moambada na mão de cada um dos amantes. E que sejam muito bem-vindos. Comam, bebam, aqueçam-se na fogueira, retemperem as forças e vejam chegar o meu povo.

De facto, já há algum tempo que começou a ouvir-se ao longe, ainda imensíssimamente lá ao longe, uma melopeia que ecoa o longo refrão de Nhábola. O cão tem estado a ouvi-la com as orelhas todas espetadas, e agora começou a arfar de entusiasmo. Enquanto devoram tudo o que o varredor municipal lhes deitou nas tigelas, o homem e a mulher que se amaram por seis séculos já distinguem no escuro os vultos que avançam para a praia.

Chamados pelo aroma inconfundível da última moamba de galinha que está a ser cozinhada no mundo tal como nós o conhecemos, os Eleitos vieram comparecer no local marcado para o Segundo Regresso desde a origem dos tempos.