A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 13 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Primeiro: Cap. 2.º, Pt. V, Adenda

 

Onde se desenvolve cada vez mais a história inacreditável das máquinas mágicas, agora tal como maravilhosamente contada pelo professor Eleazar Melkievstein depois de obter permissão para citar os escritos de um vivo; a cada passo devidamente adjectivada pelo avô de Conrad Kyesler, o qual, para o efeito, se apresenta pela primeira vez formalmente à assembleia.

Máquinas mágicas, murmura Ana Maria, cada vez mais perdida na espiral do tempo.

O professor tira da pasta o que parece ser uma fotocópia moderna de um artigo moderno, onde o único toque de tempos idos é aparentemente o tipo de letra gótica com que a palavra JANUS indica o nome da revista em que foi publicado.

Acho que está na altura de familiarizarmos a nossa menina com o William Eamon.

Mas ele está vivo, murmuram os pescadores da Shoan, desconfiados.

Os outros detestam-no, contrapõe o professor. Acham-no completamente fora de moda, e nunca lhe financiam os projectos. Quem estuda o que ele estuda, está aqui connosco e, portanto, por muito que não possa manifestar-se na carne, nem nos caixotes de lixo do Lidl do Dafundo, nem na praia asmática da Cruz Quebrada, pertence à nossa companhia e espera o fim connosco. Posso?

Os outros sopram nas brasas para reatearem as chamas, e depois tomam posição em torno do círculo crepitante desenhado à volta da estrela de seis pontas que tem o Sepher Yetzirah no meio. Ana Maria encosta-se ao homem que a conhece, e mergulham os dois debaixo da mesma manta áspera de riscas ocres e vermelhas. Por baixo do abafo, pela primeira vez, dão as mãos.

Agora o professor está de pé no centro do círculo, a ler o artigo do académico que os colegas humilham como quem debita uma longa prece numa missa sem tempo.

Ouve-me bem, Ana Maria. E ouçam também vós outros, homens de pouca fé.

“Durante o final da Idade Média e na Renascença, mais precisamente do século XIV para o século

XVII, o progresso tecnológico foi espantosamente rápido, tanto em termos da maior sofisticação das técnicas como da sua crescente aplicação em todos os domínios da vida quotidiana. Esta explosão do conhecimento tecnológico não passou de todo despercebida aos seus contemporâneos: há uma literatura vastíssima, datada deste período, sobre a tecnologia. Na entrada do século XVII, os intelectuais europeus elogiavam as novas invenções, que acreditavam serem a razão pela qual a Europa se tornara largamente superior a qualquer outra civilização da época, e às civilizações da Antiguidade. Mas estas convicções não fizeram a magia desaparecer: pelo contrário, a magia sofreu um grande revivalismo durante a Renascença. Sobretudo no século XVI, a magia ocupava um lugar de destaque na vida intelectual que deveria ter feito tremer qualquer escolástico digno desse nome.

“Nessa época, a magia não era vista como uma concorrente da tecnologia, mas antes como uma arte complementar. Dava à tecnologia o contexto teórico de que esta necessitava, e além disso servia para promover as ambições de grandeza dos engenheiros, dando-lhes a imagem do magus, aquele que, através das suas intervenções e manipulações dos segredos da natureza, ganha poder sobre o mundo. Deste ponto de vista, o agora chamado ‘sonho tecnológico’ do fim da Idade Média e da Renascença foi em grande parte o produto da visão mágica do Universo.

“Na sua forma mais primitiva, a magia é fundamentalmente uma forma de tecnologia: o mágico é uma pessoa que tenta utilizar ‘forças ocultas’ para atingir um objectivo específico no mundo físico. A magia não é uma forma de veneração religiosa, mas antes uma forma de impor a vontade humana ao mundo externo. Os rituais mágicos têm sempre como objectivo final prático controlarem ou alterarem os acontecimentos na natureza, sejam eles uma sanguessuga usada como objecto mágico para curar uma doença, uma mulher com poderes que prepara um filtro do amor, ou um ferreiro recitando uma oração com poderes mágicos enquanto deita o ferro derretido no molde.

“Na imaginação medieval popular, profundamente enamorada do maravilhoso, a imagem do mágico ocupava um lugar proeminente. Abundavam as lendas e canções sobre poderes sobrenaturais, que davam prazer às audiências pelo terror que lhes inspiravam. No folclore, o mágico usava estes poderes de várias maneiras e para vários fins, mas há um tema especialmente recorrente, relativo ao fabrico de engenhos mecânicos magníficos que parecem ter vida própria. Os autómatos aparecem em inúmeros contos populares do Ocidente medieval.

“Por exemplo, no texto do século XIII Parlesvans, dois homens mecânicos, ‘fez par l’art de la nigromancie’, guardam a entrada de um castelo. No poema alemão Diu Crone, de cerca de 1220, uma figura negra com um corno, também ela obra de necromante, dá um sinal de alarme sempre que um cavaleiro desconhecido se aproxima do castelo.

“Estas lendas envolviam muitas vezes homens de carne e osso que se tinham tornado famosos pela vastidão do seu conhecimento científico. O frade Roger Bacon tinha uma reputação universal de feiticeiro, que vinha da lenda de que construíra, com a ajuda de um demónio, uma cabeça falante artificial. Uma outra lenda fala de Alberto Magno construindo uma estátua falante que é destruída por um aluno assustado. O mais famoso destes mágicos mecânicos lendários, no entanto, era Virgílio, cujas invenções incluíam um cavalo de bronze animado, um candelabro maravilhoso que não podia ser apagado depois de ter sido aceso, uma cabeça falante, e uma mosca de bronze que expulsou todas as moscas da cidade de Nápoles. A transformação através da lenda do poeta Virgílio no necromante Virgílio não se restringiu ao saber popular do homem da rua, mas foi antes repetida, com grande seriedade, em vários escritos académicos da Idade Média. Era um motivo comum na literatura medieval, e, se é evidente que algumas histórias se referem a simples objectos encantados, não há dúvida que outras nos falam de engenhos mecânicos reais.

“Grande parte destas lendas parece ter vindo do Oriente, mas também aqui é possível que bastantes histórias se baseassem em factos autênticos. Há relatos medievais de viagens que descrevem autómatos em Bizâncio, nas terras do Islão, e em lugares mais para leste. O mais famoso e cantado destes objectos era o trono de Salomão na corte de Constantinopla, construído para o imperador Teófilo (829-842). Esta é a descrição de Liuprand de Cremona, que esteve em Constantinopla em 948 e 966:

“‘Diante do trono do imperador havia uma árvore, feita de bronze coberto por ouro, cujos ramos estavam cheios de pássaros, também feitos de bronze dourado, que emitiam diferentes cantos, cada um de acordo com as suas espécies variadas. O próprio trono estava tão maravilhosamente construído, que ao princípio parecia uma estrutura baixa, e a seguir levantava-se muito alto no ar. Era de tamanho imenso e guardado por leões, feitos ou de bronze ou de madeira coberta por ouro, que batiam o chão com as suas caudas e emitiam rugidos terríveis com as bocas abertas e as línguas trémulas. Levado aos ombros de dois eunucos, cheguei à presença do imperador. À minha chegada os leões começaram a rugir e os pássaros a cantar, cada um segundo a sua espécie. Depois de ter por três vezes prestado homenagem ao imperador colando a minha face ao chão, levantei a cabeça e, pasmo! O homem que ainda momentos antes estava sentado num lugar de altura moderada, encontrava-se agora sentado ao nível do tecto. Como isto foi feito não posso imaginar, a não ser talvez que fosse levantado por alguma espécie de engenho, como os que nós usamos para erguer as madeiras das prensas do vinho.’

“Em 1254, o missionário franciscano William de Robruck [13] viu uma fonte de prata extremamente elaborada, com a forma de uma árvore, na corte mongol de Karakorum. No cimo desta fonte estava um anjo mecânico que, ao receber o sinal, tocava uma trombeta e servia diferentes licores aos convidados.

“Este tipo de engenhos eram em grande medida derivados dos tratados sobre autómatos de Filo de Bizâncio (ii a.C.) e Hero de Alexandria (i d.C.), bastante difundidos no mundo árabe durante a Idade Média. Com base nestes trabalhos, um engenheiro da corte da família Artuqid, Al-Jazari, compôs em 1206 um tratado copiosamente ilustrado descrevendo fontes, relógios de água, e vasos de bebidas de uma extraordinária elegância mecânica. Um dos relógios de Al-Jazari inclui três homens mecânicos sentados sobre um elefante de cobre e estanho: um escriba marca os graus de cada hora com uma caneta, e em cada meia hora um pássaro assobia, outro homem bate na cabeça do elefante com um martelo, enquanto um falcão e uma serpente mecânicos libertam bolas que marcam a passagem das horas.

“Há vários engenhos destes mencionados na literatura medieval europeia. A Canção de Alexandre, de Lamprecht, por exemplo, descreve um magnífico escaravelho de ouro com cem cornos. Em cada corno pousa um pássaro metálico, e debaixo do mecanismo estavam vinte pares de foles, cada um operado por doze homens. Quando os homens sopravam, o ar passava pelos orifícios de cima, os pássaros cantavam, um homem sentado no escaravelho tocava uma trombeta, o seu cão ladrava, e a boca do escaravelho libertava um aroma doce. Neste exemplo, como em tantos outros, embora os mecanismos sejam explicados e ilustrados, os autómatos em si continuam a ser tratados como objectos mágicos.

“Estas descrições reflectem o fascínio genuíno por maravilhas do engenho humano que permeava a Europa Ocidental. Os autómatos e outros objectos mecânicos eram fontes de grande entretenimento nas casas dos ricos europeus, tanto como o eram entre os ricos do Islão. Em 807, Haroun al-Rashid mandou uma embaixada a Carlos Magno, e entre os presentes contava-se ‘um relógio de estanho feito com maravilhoso engenho mecânico movimentado a água, em que as doze horas são tocadas pelo número apropriado de bolas pequenas de bronze, que ao fim de cada hora caíam e nessa queda faziam tocar sinos. Ao meio-dia doze cavaleiros saíam de doze janelas, que se fechavam atrás deles’. Este relógio foi descrito com enlevo por todo o território adjacente.

“Da mesma forma, no fim do século XIII, o conde de Artois erigiu no seu palácio de Hesdin uma ‘maison d’amusements’ elaboradíssima que demorou quase meio século a construir e custou uma fortuna, equipada com autómatos, anedotas mecânicas, espelhos deformados, um quarto onde se simulava a chuva, trovões e relâmpagos, e uma galeria com ‘oito canos para molhar as senhoras por baixo e três canos que quando as pessoas se colocam à sua frente as cobrem de farinha’. Teve uma fama tal, que no fim do século XVII o bispo Huet de Avanches se queixava que muitas pessoas, ‘ultrapassando todas as convenções do bom-senso’, colocavam o paraíso terrestre em Hesdin,

‘insistindo na sua semelhança com o Éden’.

“Estes divertimentos não eram só prerrogativa das classes elevadas. A partir do século XV, existem

relatos de peepshows mecânicos ambulantes. Um destes era um presépio mecânico, com ‘Magos que oferecem presentes a Cristo, servos e soldados, e Deus Pai que parece levantar e baixar os olhos, cavalos correndo e animais pastando, sons de órgãos e de anjos e mil outras cousas estupendas’. O público comum, desde que pagasse, podia deleitar-se com estas maravilhas, tal como se deleitava com os relógios públicos de grande elegância mecânica, de entre os quais nos ficou o legado do grande relógio astronómico de Praga, que fazia os galos cantar, os anjos tocar trombeta, e os profetas marchar para trás e para a frente à medida que soavam as horas.

“Não pode dizer-se que as pessoas do Ocidente medieval estivessem desinformadas ou desinteressadas em relação aos fundamentos mecânicos destas coisas. Por exemplo, a articulação complexa do relógio mecânico tinha-se tornado tão bem conhecida no século XIV, que os poetas como Froissart até podiam fazer em verso uma comparação elaborada entre o funcionamento das suas diferentes partes e a alegoria do amor cortês.

“É provável que estas maravilhas mecânicas fossem atribuídas a mágicos só por convenção — mas será que esta convenção as tornava menos mágicas? Há vários comentadores medievais que sublinham que as maravilhas produzidas pela magia não são necessariamente o trabalho de forças demoníacas ou sobrenaturais. Numa das definições medievais mais precoces do milagre, Isidoro de Sevilha escreve, logo no século VII, que os milagres não são ‘contrários à natureza, porque são criados pela vontade

divina, e a vontade do Criador é a natureza de cada coisa criada (…) Um milagre, portanto, não acontece contrariamente à natureza, mas apenas contrariamente ao que nós conhecemos sobre a natureza’. Isto implica que qualquer fenómeno pode perder o seu carácter mágico simplesmente por ser suficientemente conhecido.

“As artes mecânicas eram entendidas virtualmente nos mesmos termos. Um monge irlandês do século IX , Marytin of Laon, derivou mechanicus de moechus, um adúltero, porque as suas invenções (como as do mágico) enganam o observador. Mas este poder para enganar o observador por engenho mecânico parece ter sido visto com particular suspeita no que respeita ao fabrico de autómatos. Na sua biografia de Gerberto de Aurillac, William de Malmesbury conta como o futuro papa fez um pacto com o diabo para poder deitar as mãos a um certo livro de magia que lhe permitiu construir uma cabeça falante, que acaba por causar a sua queda. Nestas histórias há claramente um aviso aos cristãos para que evitem as artes profanas. Associando a construção de autómatos com a necromância, William estava a seguir uma fórmula estabelecida pelos Padres da Igreja desde o tempo de Santo Agostinho. Em De civitate dei, Agostinho escreveu que nada era mais degenerado que ‘a humanidade tiranizada pelo trabalho das suas próprias mãos’. Nesta passagem, referia-se às estátuas egípcias descritas por Hermes Trimegisto que eram objectos de veneração religiosa. Hermes apresentara-as como prova de que ‘a humanidade pode imitar Deus’ e ‘construir os seus próprios deuses à imagem da sua própria compleição’. Agostinho não só condenou estes ídolos em particular, mas também alertou para a idolatria das artes mecânicas em geral: ‘O Homem, ao venerar o trabalho das suas próprias mãos, pode facilmente deixar de ser Homem, e os trabalhos das suas mãos podem, através da sua veneração, transformar-se em deuses.’

“Estas lendas sobre Gerberto, sobre Virgílio, ou sobre Bacon, desenvolveram-se numa época em que o sagrado e o profano estavam intrinsecamente misturados. Viam-se forças sobrenaturais por todo o lado, mesmo nas ocorrências mais comezinhas de todos os dias. Gregory de Tours escreveu que quando uma mosca tentou aterrar no cálice de um padre de Poitu, o padre derramou o vinho no chão, declarando que a mosca era obra do demónio. Gregory também atribuiu a um amuleto com relíquias de um santo desconhecido o poder para o proteger da chuva. As crónicas medievais das vidas dos santos estão cheias de curas miraculosas de doenças que na maior parte dos casos parecem triviais aos leitores modernos ou que teriam passado de qualquer forma com o tempo, como as gripes, as constipações, as dores de cabeça, as diarreias, ou as enxaquecas. “Este ambiente começou a mudar quando a Europa foi inundada de trabalhos científicos de origem greco-árabe, que agora começavam a ser lidos por gente secular, que não se dedicara ao estudo formal conduzido nos conventos. Diz a lenda que o monge Gerberto, ansioso de saber mais sobre estes novos livros, fugiu do seu mosteiro em Aurillac durante a noite e viajou até Espanha para aprender ciência com professores muçulmanos. Ao absorverem esta informação, os estudiosos europeus encontraram um manancial impressionante de magia formal e erudita, incluindo textos dedicados à astrologia, à alquimia, à adivinhação e à invocação de espíritos. Inicialmente, houve uma grande confusão nos círculos académicos sobre onde colocar estas novas fontes de informação e conhecimento. Por um lado, a magia era condenada pelos Padres da Igreja, que a tinham considerado uma manifestação de superstição e vaidade, quando não de destruição e poder demoníaco. Por outro lado, era inegável que a nova magia que estava a entrar na Europa através das fontes árabes trazia consigo o selo de grande estudo e autoridade.

“Em correspondência, houve uma importante deslocação das explicações dos fenómenos para longe do âmbito sobrenatural. O cosmos ordenado e racional do século XII tinha menos espaço para milagres e

para acções demoníacas. O conceito do homem como senhor do seu ambiente e da sua vida suplantou a ideia anterior de uma subjugação constante do homem a forças fora do seu controlo.

“Ao mesmo tempo, a importância do desenvolvimento tecnológico e os seus benefícios financeiros imediatos começaram a tornar-se cada vez mais evidentes. Uma série de inovações tecnológicas, da introdução da tecnologia da pólvora na indústria a melhoramentos da construção de lareiras, deu aos Europeus um grau de controlo sobre o seu ambiente que nunca existira antes. Isto levou a esforços consideráveis para racionalizar a tecnologia, separando-a da magia. Roger Bacon, na sua Epistola de secretis operibus artis et naturae, datada de cerca de 1260, fez a distinção entre maravilhas operadas por intervenção de demónios (spiritus maligni) e as operadas pela arte utilizando a natureza como instrumento, insistindo que os efeitos da arte que actuava sobre a natureza (ou seja, a tecnologia) eram ainda mais magníficos que as supostas maravilhas da arte negra. Seguidamente, Bacon enumerou algumas ‘maravilhas’ construídas pela agência da ‘arte que usa a natureza como instrumento’, algumas já alcançadas, outras alcançáveis mais tarde. Em todas estas maravilhas, insistiu o monge, não havia qualquer espécie de magia, porque ‘todo o poder mágico é inferior a estes trabalhos e não merece ser comparado com eles’.

“É interessante avaliar como é que, na lenda, este mesmo Bacon que condenou a magia e incensou a tecnologia ganhou conotações de mágico poderoso, um personagem que foi explorado e divulgado em numerosas peças e romances do período isabelino. Nas versões iniciais destes textos, Bacon diz ao rei que os seus trabalhos resultam ‘da arte e da natureza’ e não da magia, num discurso tirado directamente da Epistola do próprio Bacon; mas os autores isabelinos omitem completamente este discurso, e centram-se directamente na lenda: Bacon criou uma cabeça mágica de estanho, ‘que nas partes internas era em todas as coisas como a cabeça natural de um homem’.

“As lendas têm longa vida, e podem conduzir a legados riquíssimos. No século XV, já muitas das

invenções ‘miraculosas’ de Bacon eram lugares-comuns em tratados tecnológicos. Mesmo que não chegassem a construí-los, os engenheiros medievais especulavam abertamente sobre submarinos, máquinas voadoras, automóveis e ‘engenhos de que nunca ouvimos falar’. Estes autores, curiosamente, eram aqueles para quem a ideia da tecnologia como magia tinha o maior apelo. Na realidade, pensavam muitas vezes em si próprios como mágicos, e falavam das suas próprias invenções como produtos da magia. “Conrad Kyesler, que nasceu em 1366 e se ligou à corte do rei Venceslau da Boémia, foi um engenheiro típico deste tempo. O seu tratado Bellifortis é um documento extraordinário, uma mistura estranha de tecnologia, astrologia, fantasia e magia. E já está completamente na linha dos tratados tecnológicos do século XV.

Ah, brada o homem dos cigarros cirílicos, como quem acorda violentamente de um transe. E destarte vais, por fim, falar-nos do meu neto. Tanta conversa, tanta conversa, e já estava a ver que essoutro Eamon, que ainda está vivo e tudo, nem tinha dado pela existência do meu legado, o fruto de triunfos da engenharia bélica que congeminei em segredo para em segredo transmitir aos meus filhos, para que eles em segredo os transmitissem aos seus filhos, até que chegasse a hora em que os grandes deste mundo haveriam de querer saber o que é que nós outros, plebeus, podíamos fazer para lhes valermos nas horas mais duras. Conta-lhes, professor, conta-lhes. Tudo o que o meu Conrad sonhou sonhei eu primeiro naquelas longas conversas com o chibo chifrudo e barbudo do Bacon. E ambos sabíamos, sabíamos sem que ninguém nos dissesse, que havia de chegar o tempo em que o descendente do escravo seria o deslumbre das cortes pelo seu conhecimento incomparável da arte de obter vitórias maravilhosas sobre o inimigo, por engenhos que nenhum grande nobre, nem nenhum grande clérigo, poderia alguma vez começar sequer a desenhar no seu pensamento, porque nunca bebera da fonte do grande sonho da engenharia.

A memória da tua família está vingada, Amigo de todos os tempos, pronuncia a voz sempre rouca do homem que abraça Ana Maria debaixo dos cobertores.

O professor sorri um sorriso de aprovação, bafeja os óculos de leitura e a seguir limpa-os com um lencinho espantosamente branco que tirou da manga. Compõe a casaca e o paletó. Pigarreia. E prossegue.

“Kyesler declara que a artes theurgices, ou magia, constitui um ramo das artes mecânicas, classificado logo abaixo das artes militares. O seu trabalho está saturado de astrologia, e o seu tratamento das máquinas corteja muitas vezes o fantástico. Uma ilustração, por exemplo, representa um carro de batalha com a forma de um gato gigante e assustador com as garras de fora, de cujo focinho sai um canhão pontiagudo. Outro carro de batalha tem a forma de uma face humana monstruosa, cuja língua em forma de espigão se move para dentro e para fora à medida que as rodas giram. Kyesler também apresenta a figura de um homem mecânico que diz, no texto, ‘eu sou Philoneus, feito de cobre, prata, bronze, argila, ouro, e outros materiais pesados. Quando estou vazio não ardo, mas podem acender o corpo, cheio de terebentina ou vinho forte, junto ao coração, e então, depois de aquecer, emito faíscas de fogo com que podem acender qualquer vela’. Este engenho, uma eolípila destinada a ser usada como cuspidor de fogo, era uma dessas invenções antigas de grande simplicidade que capturou a imaginação dos escritores medievais. Muitos destes cuspidores sobreviveram do século XIII em diante, e os relatos sobre eles estão frequentemente conglomerados com lendas sobre cabeças metálicas e autómatos mágicos. É provável que a descrição que Alberto Magno fez de um destes cuspidores, a que o autor chamou um sufflator, tenha contribuído em grande medida para a sua reputação como grande mágico. Mais tarde estes cuspidores tomaram formas mais abstractas, tais como esferas ou alambiques, mas a cabeça metálica foi o design básico da eolípila até ao século XVI.

“Vários capítulos do Bellifortis contêm receitas mágicas, muitas delas tiradas directamente do De mirabilibus mundi, atribuído a Alberto Magno. Entre estas receitas, contam-se a fórmula para fabricar lanternas que não podem ser apagadas ou que fazem o inimigo ter visões estranhas; e para amuletos destinados a afastar espíritos malignos, silenciar os cães, ou proteger o portador dos lobos. O pêlo da cauda de um cão preto e raivoso, misturado com a gordura do cão e transformado numa tocha, afasta os inimigos; e um anel com a inscrição Goll Gott Goray afasta a febre. Um desenho extraordinário mostra um homem com uma trombeta, aliás perigosamente parecido com o próprio Kyesler, chamando os espíritos da torre de um castelo. Ouvindo a chamada, dois diabretes nus, um agarrando um chicote e cavalgando uma vassoura, o outro carregando um contentor feito da gordura de um homem enforcado, sobem a montanha em direcção ao castelo.

“Não se sabe a razão da expulsão súbita de Kyesler da corte imperial, mas o conteúdo do Bellifortis pode estar relacionado com este episódio. Houve numerosos julgamentos de natureza política na Idade Média que condenaram servos ou favoritos, oficialmente por bruxaria. Mas é fácil percebermos que as motivações de condenações deste teor tinham a ver com assuntos muito mais prosaicos. Todas elas se abatiam especialmente sobre indivíduos que tinham subido de posições obscuras a situações de grande destaque, e que incorriam por isso mesmo na adversidade da nobreza, que estava ela própria a perder poder. As acusações de bruxaria aparecem muitas vezes quando duas formas de poder entram em colisão dentro da sociedade: o poder articulado, definido e aprovado por todos, especialmente os que o detêm; e o poder inarticulado, que vem dos intangíveis perturbadores da vida social, da vantagem imponderável de certos grupos, ou de talentos pessoais que têm um sucesso inaceitável ou difícil de perceber. Os séculos XIV e XV foram tempos destes, em que as mudanças sociais e económicas eram quase caóticas. As relações tradicionais de poder tornaram-se desequilibradas, enquanto os detentores de poder político inarticulado baseado em novos talentos (o poder do engenheiro, por exemplo) colidiam com os detentores de poder articulado baseado no estatuto social e na posse de terras. Para os que viram a sua influência política tradicional começar a desvanecer-se, deve ter parecido que a subida às esferas do poder de homens de origem humilde, que violavam todas as convenções de lei natural e ordem social, só estava a ser possível devido ao uso de qualquer espécie de poder especial, talvez de bruxaria.”

Nem mais, volta a bradar o avô de Conrad Kyesler. Nós outros pensámos tão bem e tão longe quanto conseguíamos pensar, ensinámos os que continuariam a carregar a chama por nós outros a pensarem cada vez mais, pusemos as mãos no ferro em brasa, inventámos rodízios e maçanetas, não hesitámos nem um segundo quando a nossa demanda nos pedia que recorrêssemos a todos os materiais explosivos que podiam, perfeitamente, a qualquer momento, virar-se contra os seus manipuladores. Sim. Ouçam-me, seus sábios de trazer por casa, e ouve-me tu, menina do século XX que já nasceu com tudo feito mas ignora de onde tudo veio. Nós outros, no século XIII, fomos bravos e fomos teimosos. E, embora não tivéssemos aprendido na escola as artes da retórica e da gramática, escrevemos o nosso engenho para que nada se perdesse, e muito mais o desenhámos para que nada ficasse oculto. Nós outros fomos os que criaram as máquinas, os que, pela primeira vez, imaginaram o mundo em movimento. Mas raras vezes demos ouvidos às vozes, sobretudo às das mulheres, que nos diziam o tempo todo que o poder tem medo da sabedoria do povo.

As mulheres sabem, suspira Ana Maria.

Eles nunca as ouviam, sussurra-lhe o homem que a conhece.

As mulheres falavam a língua delas, responde-lhes o avô de Conrad Kyesler. E viviam no mundo delas. Não andávamos ali para falarmos uns com os outros. Quem tem que segurar a Terra sobre o seu eixo não tem tempo para conversas. Ainda estar vivo de um dia para o outro já dá demasiado trabalho. Conversas, conversas, isso era nas cortes e nos mosteiros. E nos haréns, se deveras me lembro da minha infância remota. O meu neto bem deu pela diferença, quando chegou às câmaras reais, coitado. O que as malditas mulheres lhe diziam. O que lhe pediam. Os venenos que encomendavam. Os truques com que sonhavam para terem as pupilas mais abertas e os pescoços mais finos e os cabelos mais brilhantes. As maquinetas que lhe pediam que engendrasse para apertar ainda mais a cintura, para enganar nas pernas o azul traidor das varizes, para manter firme a pele debaixo do queixo. Vós outros acreditam? Tanta cousa importante para fazer, e as damas da corte a sobrecarregarem o meu neto de intrigas e vaidades. E lá andou o desgraçado do meu Conrad a deitar-lhes gotas de beladona nos olhos, quando na sua mente estavam legiões de máquinas de guerra à espera de serem desenhadas. A ouvir-lhes as infidelidades, enquanto tentava pensar como é que poderia cobrir fortalezas inteiras de magnetos que prendessem contra as paredes as armaduras dos soldados assaltantes, ou como é que se armava na torre de menagem um espelho gigantesco que virasse os raios de sol contra os exércitos inimigos que se aproximavam ao longe, para que de imediato todos se consumassem numa enorme chama. Eram as minhas ideias, e ele era o herdeiro que ia finalmente torná-las reais e belas, imponentes do topo da civilização. Mas as mulheres que lhe invadiam a alcova sussurravam, sussurravam, sussurravam. E, entretanto, lá longe, continuava o povo curvado, a aguentar o mundo sobre o seu eixo.

Pronto, Amigo, atalha o professor. Passaram vários séculos, não te esqueças disso. E não te esqueças de que o teu neto que caiu em desgraça, como tantos outros da extracção dele, é apenas um personagem menor nesta longa história. Deixas-me continuar?

O avô solta um resmungo, ajeita o boné estrangeiro, e acende um novo cigarro cirílico enquanto encolhe os ombros. A assembleia tosse, esfrega as mãos para se aquecer, muda de posição, retoma o descanso, e prepara-se para continuar a ouvir.

“O fascínio de Kyesler pela magia e tecnologia era partilhada por um médico seu contemporâneo, embora mais jovem, o italiano Giovanni da Fontana. Nos seus numerosos tratados, Fontana discute foguetões, fornos alquímicos, autómatos, cadeados de combinação, espelhos parabólicos para fazer fogo, fontes, instrumentos de prospecção, uma carruagem mecânica, e vários relógios. Como Kyesler, Fontana parece considerar estas invenções trabalhos de magia, e ver-se a si próprio como um mágico. Longe de temer esta conotação, Fontana parece tê-la perseguido: num dos livros afirma que as suas invenções fizeram os professores de Pádua afirmar sob juramento que ele chamara espíritos malignos do Inferno através de artes mágicas. No Bellicorum instrumentorum liber, juntamente com máquinas de montar cercos e outros engenhos bélicos, Fontana descreve um demónio mecânico e uma lanterna destinada a projectar imagens de demónios, ‘ad terrorem videntium’.

“Fascinados com o poder da tecnologia, os engenheiros medievais projectaram-se na imagem dupla do ‘aprendiz de feiticeiro’, exultando a pureza, o poder, mas também os perigos extraordinários da sua arte. Era tido como certo, por exemplo, que o inventor da pólvora era um monge alemão chamado Berthold Schwartz, que, segundo a lenda, trabalhava como mágico instruído por demónios. Conscientes desta reputação, os mestres armeiros não se cansavam de salientar a pureza de carácter de grave responsabilidade requerida para todos os que ficavam encarregados de tratar a pólvora.

“O que representam todas estas digressões pela magia e pela fantasia? Não podemos certamente acusar estes autores de incompetência técnica. Tinham um vocabulário tecnológico reveladoramente rico, um excelente comando dos pequenos detalhes, e até os seus desenhos atestam a grande mestria mecânica da maior parte deles. Também não podemos dizer que estas noções eram o mero produto de uma única personalidade particularmente excêntrica, porque há demasiados textos escritos na mesma veia. Uma explicação possível é que, como estes textos eram maioritariamente compostos para a audiência de amadores da corte, constituída por gente letrada mas tecnicamente ignorante, os autores se sentiram compelidos a embelezar os tratados com ilustrações representando engenhos exóticos e extraordinários, por forma a torná-los mais apelativos. É possível que estas ‘maravilhas’ representassem um esforço dos engenheiros para se tornarem importantes e ganharem favores na corte. Mas, numa perspectiva menos cínica, a justaposição da tecnologia com a magia, se for levada a sério, sugere que a ocorrência de temas mágicos em tratados tecnológicos era uma simples demonstração do fascínio generalizado na Europa medieval pelos poderes aparentemente ilimitados da tecnologia. A mente medieval estava equipada com poucos conceitos científicos que permitissem explicar as quantidades fenomenais de energia que podiam ser produzidas por máquinas tão comezinhas como as rodas de azenha, os moinhos de vento, ou os canhões. E a ciência escolástica também não estava equipada para explicar as conversões polifacetadas de energia e de movimento que, no século XV, já eram correntemente geradas por alavancas, manivelas,

rodízios, cadeias e correntes. A única analogia disponível para explicar estas maravilhas era a ideia do Universo como um reservatório vastíssimo de forças e energias ocultas que podiam ser exploradas por vários meios: talismãs que atraíam os poderes dos corpos celestes, misturas de ervas concebidas para explorar simpatias e antipatias, e, acima de tudo, máquinas.

“Para a mente medieval, não havia nada de ‘irracional’ na crença em forças ocultas da natureza, embora fosse geralmente admitido que tais forças não podiam ser explicadas pela razão: era suficiente que fossem confirmadas pela experiência. Os engenheiros medievais puseram um grande esforço, muitas vezes inglório, na descoberta de palavras que explicassem as transformações formidáveis operadas sobre a natureza através da tecnologia. O conceito da tecnologia como magia estava presente em todas as camadas do pensamento medieval. Impregnava os escritos dos que investigavam a tecnologia e a criavam tanto como impregnava a literatura popular. A condenação escolástica da magia parece ter tido pouco impacto na ligação das duas actividades.”

E todo este mundo uma vez mais se desfez em pó, suspira o velho desdentado a quem Paracelso nunca chegou a chamar filho. Como os homens que o criaram. Estamos sempre tão perto da grande verdade unificadora, e nunca chegamos lá. Ah, meus Amigos. Não existia mesmo qualquer destino nas rotas por onde andámos. Só existia o caminho. E, como o mundo é redondo, nunca nenhum caminho foi dar a lado nenhum. Já devíamos ter descoberto isto desde o tempo de Alexandre.

Mas eu não sei, responde Ana Maria. Vocês já viram tudo, e eu ainda agora aqui cheguei. Só vinha passear o cão à praia, e depois ia ter um dia comprido como os outros, onde talvez aparecesse, em qualquer recanto, um qualquer vislumbre de uma qualquer alegria, porque quem está vivo agora, aqui, também dos seus dias já não espera mais. Cheguei de manhã cedo a pensar na lista das compras e na forma de pagá-las, e agora vocês contam-me todas estas histórias maravilhosas que eu mal consigo começar a entender. Professor, por favor. Porque é que foi que esse mundo desapareceu?

O professor sorri um sorriso satisfeito. Volta a compor o paletó. Passeia por momentos sobre as areias húmidas, como se perseguisse ele próprio um pensamento que as vozes das mulheres estão a impedir que se esboce por completo. E, por fim, estaca, imponente, virado para as ondas.

Volta a ler o artigo.

“Como é que esta mentalidade desapareceu? De uma forma grosseira, podemos especular que o contexto intelectual da tecnologia mudou da magia para a matemática na transição do século XV para o

século XVI. A tecnologia tornou-se menos mágica e mais matemática. Este efeito foi em parte uma consequência directa do interesse renovado durante a Renascença italiana na tradição clássica da matemática. Esta tendência está bem exemplificada numa carta escrita pelo pedagogo Aeneas Sylvius Piccolomini a Ladislau da Hungria em 1450, advogando um aprofundamento moderado da matemática como parte do treino de um príncipe:

‘A geometria deve ser estudada numa idade jovem, porque aguça o intelecto e torna a mente rápida na apreensão (…) Além disso há nela muita erudição, e provoca muita cautela, pois muitas vezes a matemática nega o que é concedido pela dialéctica.’ “Esta carta torna claro que os humanistas italianos não defendiam o estudo da matemática como um simples ornamento; e também não a viam simplesmente como disciplina teórica. Um século antes de Galileu publicar o seu Discurso sobre Duas Novas Ciências, já diversos humanistas tinham começado a ver na matemática a chave para o Universo. Ou seja, esta gente não estava só a tentar recuperar os textos gregos antigos sobre matemática: ao mesmo tempo, estava também a tentar reconstruir a antiga tradição matemática, relacionando-a com as actividades comerciais e industriais então em florescimento. Foram estes humanistas matemáticos que criaram o novo mito do matemático clássico como engenheiro heróico.

“As dificuldades que se levantavam perante este empreendimento eram formidáveis, porque a opinião académica convencional considerava as artes mecânicas sórdidas e vulgares. Além disso havia vários casos como o de Arquimedes, que numa biografia de Plutarco tinha sido imortalizado como um matemático teórico puro, pouco interessado, senão mesmo avesso, à tecnologia mecânica. Mas perante todas estas adversidades os humanistas da Renascença não deixaram de cantar laudas em uníssono à utilidade da matemática, especialmente pelo interesse das suas implicações na tecnologia mecânica, e eulogizaram os seus colegas do passado como grandes engenheiros. Um bom exemplo é o Mechanicorum liber, de Guidobaldo dal Monte, publicado em 1577 e contendo uma enumeração detalhada das grandes máquinas construídas por Arquimedes para levantarem grandes pesos e defenderem a cidade de Siracusa contra Marcelo. Na mesma veia, o jesuíta Gaspar Scott publicou em 1661 uma enciclopédia monumental das disciplinas matemáticas onde capítulos sobre aritmética, geometria, trigonometria e astronomia coabitavam harmoniosamente com capítulos sobre mecânica, arquitectura, tácticas militares e fortificações, levantando estas disciplinas até então consideradas menores das mãos sujas dos engenheiros à pureza do latim mais requintado.

“No entanto, também não podemos esquecer que muitos destes tratados, ao mesmo tempo que exultavam a matemática pura como base fundamental da mecânica aplicada, não incluíam uma única fórmula matemática, ou qualquer outro tipo de cálculo, em todo o corpo do texto. Isto indica-nos que a matemática de Arquimedes nunca chegou a abarcar todo o universo da arte mecânica na Renascença. E sabemos que também não teve qualquer sucesso em afastar a magia da tecnologia. Foi antes a definição da magia que mudou: transformou-se, numa das suas manifestações, na própria tecnologia.

“Com o triunfo da matemática mecânica registado durante a Renascença, as lendas antigas não morreram: foram simplesmente transferidas para figuras como Arquimedes, Regiomontano, ou qualquer outro matemático famoso. Nos tratados de matemática popular do século XVI, Arquimedes aparece como um feiticeiro de poder assombroso. Num destes relatos, respeitante às suas proezas com espelhos, diz-se que Arquimedes ‘se transformou no próprio Júpiter, atirando das torres mais altas da cidade os seus trovões de luz’. Outra história sempre repetida era a de Regiomontano, que, com a ajuda das artes mecânicas, construiu uma mosca de ferro e uma águia de madeira que voavam pela sala como se fossem verdadeiras.

“No princípio do século XVI, a separação entre a cultura popular e a cultura erudita ainda não era tão pronunciada como viria a ser mais tarde. Para as classes educadas, a matemática ocupava um estatuto ambíguo devido à sua associação à astrologia, que era vista com profunda suspeita por incontáveis filósofos. É a partir da segunda metade deste século que começamos a assistir ao abandono da cultura popular pelas classes educadas, o que se expressa desde logo pelo aparecimento de vários livros denunciando ‘erros populares’ na medicina, na religião, e na opinião. Esta mudança de consciência levou a várias tentativas de ‘legitimar’ a matemática e a mecânica, declarando que as maravilhas da mecânica eram racionais para os versados em matemática, e mágicas apenas para o vulgo. Uma nova direcção do pensamento já estava a ganhar forma, em que a filosofia mecânica fornecia as hipóteses e a matemática fornecia os instrumentos para a vitória do homem sobre a natureza. A magia, com a sua ênfase no secretismo e no maravilhoso, parecia perdidamente fora do contexto aos pensadores que estavam a preparar o caminho para a Revolução Científica.”