A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 26 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Quinto

 

Onde se regressa à continuação da história do Judeu Errante tal como contada por ele próprio.

Com muitas graças aos Céus por as digressões pelos massacres culturais não terem durado para

sempre, já que a tanto semelhante tema se prestava, e só sobre ele várias tratados poderiam agora ser

escritos.

O Judeu Errante solta um longo suspiro, e depois morde os lábios antes de recomeçar.

Pois bem, Camaradas. Nessa altura, quando a perseguição aos judeus começou em França, eu fui ter com o meu povo aflito porque entendi ser essoutro o meu dever. Falei com eles. Tentei acalmá-los. Visitei várias vezes o rei em sonhos, para que ele me visse cumprir em vida imortal o castigo das minhas próprias certezas inabaláveis de juventude. Tentei soprar em todos os ouvidos que as certezas de hoje são os grandes erros de ontem, e as grandes armadilhas abertas para a caminhada de amanhã. Não posso dizer que tenha sido bem-sucedido, mas fiz o meu melhor. Em 1306, Filipe, o Belo, subiu a parada e expulsou todas as comunidades judaicas dos seus domínios. No grande êxodo do povo hebraico que se seguiu, rumo às cidades de Itália e às terras de Espanha onde ainda se ofereciam redutos relativamente pacíficos para os refugiados judeus, a todos procurei segurar por um momento na mão, a todos procurei sugerir, sem que nada notassem, que dê lá por onde der acima de nós outros só existe uma outra Entidade, e que todas as raivas que se aticem pelo nome dessa Entidade ou pelo sentido das Suas mensagens não passam de corrupções das palavras perfeitas do Ser Supremo pelos textos imperfeitos dos homens, como tão bem sugeriu o nosso assírio. Curei alguns doentes, abri os olhos a alguns cegos, dei pernas novas a alguns mancos, mas nada pude contra a cegueira e a surdez dos povos.

Mas espera lá, interrompe Ana Maria, de olhos fixos no mapa. As cidades de Itália, ainda vá que não vá. Mas em Espanha? Quer dizer, na propriamente dita boca do lobo?

Como é que eles podiam saber isso antes do que aconteceu a seguir, minha querida?, responde docemente Ashverus. Quando chegaram, foi-lhes dito que, desde que se convertessem ao cristianismo, poderiam participar na vida económica como agricultores, artistas, e mesmo como negociantes. Mas as desconfianças que os cercavam eram tantas, num povo tão cheio de certezas irrevogáveis que até chamava marranos aos novos conversos, que os soberanos foram pressionados ao ponto de decretarem a expulsão de todos os judeus do seu território. Esse decreto foi promulgado em 1492, e, logicamente, onde é que a maioria do meu povo aflito, assim posto entre a espada e a parede, havia de ir procurar refrigério? Como é evidente, ao teu lindo país, Ana Maria. Ficava mesmo ao lado, e tinha uma porta vasta aberta para o mar. Foi assim, já mesmo no fim do século XV, que eu apareci pela primeira vez em Portugal. E nunca, nunca, nunca mais, por muito que vivesse, consegui esquecer-me dos teus olhos. Esses teus mesmos olhos, assim acesos como carvões contra a estupidez do mundo. Nem os de Cristo tinham o brilho dos teus, no dia em que me condenou no caminho para o Calvário.

Toda a assembleia dá um passo para trás.

Eleazar sorri, paternal e satisfeito.

Ana Maria sente o som de um sino antigo a ressoar-lhe no fundo dos ouvidos.

Eu? Era eu? Foi nessa altura que me conheceste?