A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 31 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Sexto, Cap. 3.º

 

Onde o Judeu Errante, sem conseguir deixar de manifestar uma compreensível irritação consigo próprio, conta à assembleia a história de como Hannah consegue fugir às tropas imperiais e refugiar-se no gueto de Praga; antecedida por algumas considerações sobre minudências relativas ao Sacro Império Romano tal como seleccionadas para proveito de todos os que ali se encontram pelo professor Eleazar Melkievstein; incluindo a discussão do contributo da Guerra da Sífilis para os anais da Comédia Humana.

As tropas imperiais de quem?, pergunta Ana Maria, atordoada.

Do Sacro Império Romano, menina, suspira o Judeu Errante. Aquele que o Fra Mauro disse que começou com o Carlos Magno?, insiste Ana Maria.

Esse mesmo, suspira Ashverus.

Mas o Fra Mauro disse que isso aconteceu logo no início do século IX, insiste Ana Maria. E nós já vamos no século XVI. Quem é que perpetuou esse Sacro Império Romano, que pelos vistos não era sacro, não era império, e nem sequer era romano?

Os Habsburgos, volta a suspirar Ashverus.

A assembleia agita-se. Compõem-se todos melhor dentro das mantas. E depois imploram em coro, assim expostos sem ajuda a mais uma das charadas da marcha do tempo:

Professor…

Eleazar Melkievstein sorri. Tira mais uma data de papéis de dentro da sua pasta. Dá-lhes uma olhadela breve, quase displicente, com um gracioso ajustar dos óculos. Depois cofia demoradamente o bigode, reflecte, e vai instalar-se no pódio improvisado que o filho ilegítimo de Matteo Ricci utilizou ainda há pouco tempo. Vem de lá mais uma lição.

Eleazar aclara a garganta.

Vamos começar por uma ponta qualquer, que isto do Sacro Império Romano é como a anfisbena, não tem cabeça nem cauda, pelo que não tem princípio nem fim, ou, pelo menos, nós não conseguimos distingui-los. Sendo assim, talvez irmos primeiro ao que está cronologicamente e geograficamente mais próximo do drama de Ashverus e Hannah. Então escutem. Fernando I de Habsburgo tomou o trono da Boémia em 1526, iniciando uma dinastia que durou até 1867. Este senhor nasceu no que agora é Espanha, mais precisamente em Alcalá de Henares, em 1503. Era filho de Filipe, o Justo, rei de Castela, e de Joana de Espanha que se conhece por Joana, a Louca, aquela que estava sempre a encomendar novas composições aos músicos, pagava fortunas por elas, e depois mandava matar os compositores cuja produção não lhe afagasse devidamente o ouvido interno. Tudo isto, como é próprio nas histórias, para chegarmos ao imperador Carlos V, provavelmente o Habsburgo mais famoso deste período conturbado. O tal que, depois de ficar com a perna necrosada, na sequência de um ferimento grave recebido em batalha, nunca mais deixou que lhe tirassem a armadura; e, sempre que ia combater, ordenava simplesmente que lhe amarrassem a perna inútil aos estribos do cavalo. Pois bem. Esse Carlos V de tão grande fama era irmão deste Fernando. Mas, ao contrário dele, nasceu antes em Gent. As garras do Sacro Império eram vastas e potentes. O pai dos dois morreu em 1516, e nessa altura Carlos V assumiu ele próprio o trono de Castela, sem perguntar nada a ninguém, e ainda menos a Fernando. Como sabem, acabou por ficar cansado da guerra e entrar para um mosteiro em Yuste, onde morreu em 1558. Mas, até lá, viveu uma vida impressionante. Tomou posse do Sacro Império em 1520, ainda com menos de vinte anos, saindo então de Espanha e vivendo a partir daí em constantes excursões de guerra tanto contra os franceses como contra a Santa Sé. Era ele quem governava sobre os vários estados que são agora a Alemanha na altura em que Lutero lançou os primeiros tumultos da Reforma. Sabiamente, já que ele próprio não se entendia com o papa assim tão bem como isso, recusou-se a tomar posições de força contra as primeiras manifestações protestantes, com a desculpa de não querer misturar-se nos assuntos do Vaticano. Finalmente, nos termos decisivos da Dieta de Worms que acabaram de vez com a união dos cristãos ocidentais, não teve outro remédio senão opor-se a Lutero em pessoa. Que diabo, sempre era o imperador do Sacro Império Romano, e este império, supostamente, defendia a fé oficial, que era a católica, compreendem? Mas, para Carlos V, esta parece que foi uma medicação que não gostou de tomar. De tal maneira que voltou para Espanha logo em 1522, entregando as suas possessões austríacas ao mano Fernando em 1522, e tornando-o rei de Roma, o título oficial do imperador, logo na primeira oportunidade que se lhe apresentou. Nunca se desligou da Holanda, mas, no mesmo ano, tornou-a uma regência independente. Nessa altura já tinha feito uma aliança com o papa Leão X contra os franceses em 1521, porque Francisco I de França não deixava a Santa Sé expandir os seus territórios. É desta aliança que vem, de 1521 a 1529, a chamada Guerra da Sífilis, onde a doença começa a ser descrita como o mal napolitano e o mal francês.

A audiência não reage. O professor puxa imediatamente dos galões.

Ouçam lá, seus gebos, então não perceberam que as variações destes primeiros nomes para a sífilis constituem uma contribuição preciosíssima para os anais da comédia humana? Vamos lá ver, a sífilis tinha acabado de aparecer na Europa. A versão mais divulgada é que foi trazida do Novo Mundo pela Niña, pela Pinta e pela Santa Maria… Uma santa que vem trazer a sífilis para a Europa?, sussurra o avô de Conrad Kyesler para Fra Mauro. Já não estou a perceber nada outra vez.

São os nomes dos galeões da primeira frota de Cristóvão Colombo, esclarece Fra Mauro, subindo o tom de voz para eventual proveito de outros na assembleia que não cheguem a estes requintes de precisão. Quase toda a gente acha que foi nestes barcos que vieram para a Europa os primeiros marinheiros contaminados com sífilis.

Pois, continua Eleazar, não sem endereçar antes uma pequena reverência a Fra Mauro à laia de agradecimento. Mas essa versão, embora seja deveras apetecível e bastante difundida, não é consensual. Até à descoberta do Novo Mundo pelos europeus, de facto, não existia sífilis na Europa. Mas a relação de causa e efeito e a detecção precisa dos primeiros casos de sífilis na Europa na sequência da chegada de um barco ainda estão por determinar. Seja como for que tenha entrado, a verdade é que, uma vez cá dentro, a doença se dispersou por toda a população do continente à velocidade de um fogo de Verão quando se ateia à floresta depois de uma longa seca. E não foi preciso tanto tempo como isso para toda a gente perceber que o contágio se dava por via sexual. Vejamos, Amigos, as pessoas não são parvas. Neste caso concreto, a causa e o efeito eram claros como água.

Pois, pois, responde a assembleia com vários acenos afirmativos, à espera do que todos imaginam que será a melhor parte da história.

Sendo a doença, então, de carácter venéreo, prossegue Eleazar, engrossando o tom de voz para surtir o devido efeito de clímax, é lógico que comece a ser considerada como uma aflição vergonhosa. E esta vergonha piora quando, durante a guerra, vem a tornar-se cada vez mais iniludível que é precisamente nas frentes de combate que a sífilis se propaga mais depressa. Não sei se apreendem de imediato a fina ironia deste registo, mas é que nas frentes de combate, de todo em todo, não há mulheres. Nem sequer prostitutas. Nada. Só soldados. Crianças armadas, encharcadas em adrenalina e pânico, cobertas de lama, na antecâmara da morte ou da imortalidade. Ou seja, não havia como negar que os pobres rapazes, no intervalo entre as escaramuças, se entretinham uns com os outros. E isto juntava o opróbrio da doença venérea ao enxovalho da homossexualidade da tropa. É por isso que, quando aparece na Europa, a sífilis começa por ter sempre o nome do inimigo: para os napolitanos era o mal francês, mas para os franceses era o mal napolitano. E foi o mal de bastantes outros povos europeus, assim que entravam em guerra uns com os outros.

Obrigada, professor, diz-lhe então Ana Maria, toda graciosa. Essa parte da comédia humana, realmente, sem as suas explicações ia passar-nos completamente despercebida. Agora por favor volte lá à parte do Sacro Império Romano, para depois eu poder ser raptada pelas tropas imperiais e toda a gente perceber de que é que estamos a falar.

Eleazar retoma a sua pose de oratória.

Durante a Guerra da Sífilis, continua, de novo em registo discursivo, Francisco I de França, derrotado em Pavia, chegou a estar em Espanha prisioneiro de Carlos V, e teve que assinar um tratado de paz para resgatar a sua liberdade que lhe custou uma parte significativa do seu poder. Foi nestas circunstâncias que o sucessor de Leão X, Clemente VII, começou a aproximar-se dos franceses, virando-os contra o império de tal forma, que a guerra recomeçou, culminando em 1527 com o terrível saque de Roma pelas tropas imperiais. Diz-se que o imperador nunca tinha previsto esta cena implausível, com o próprio Sacro Império Romano a tomar o lugar dos godos e a saquear mais uma vez a Cidade Eterna; mas nem ele nem os generais foram capazes de travar a volúpia dos soldados, entontecidos de tanta opulência visível, e perdidamente brutalizados por meses e meses das piores privações. Depois desta explosão imprevista e embaraçosa, e digamos em abono da verdade que de mais uma ou duas demonstrações de verdadeira supremacia estratégica por parte das forças do império, os espíritos começaram a moderar-se, os ânimos lá se foram amainando, assinaram-se quatro ou cinco tratados de paz, e as cidades italianas respiraram de alívio, com o regresso de cada exército ao seu solo pátrio.

Pois, meus Amigos, terá sido algures durante todo este período conturbado que as tropas imperiais passaram num tropel por Antuérpia, e levaram consigo a nossa Hannah que se sacrificou para salvar a vida ao resto da comunidade judaica.

Ela tinha-se transformado numa lenda, suspira Ashverus. A freira portuguesa vestida de homem e convertida ao judaísmo que sabia tanto como os maiores mestres. Capturá-la era um troféu para qualquer tropa fandanga de brutos, está mais que visto. Estes queriam levá-la para Viena, onde o fascínio dos Habsburgos pelas colecções de troféus impossíveis, que viria a atingir o seu desvario máximo em Praga com a corte do neto de Carlos V chamado Rudolfo II, já começava a acumular um belo espólio. E Fernando, que estava sediado na cidade por essa altura, certamente que muito apreciaria o direito de pernada. Com a respectiva recompensa material para os brutos das tropas.

Que horror, suspira Ana Maria. Bem podias ter cedido às tentações da carne logo à chegada à Lisboa, viste, ó meu mito escrupuloso? É o que dá ter escrúpulos. Ninguém tem o prazer que merece. Então e conta lá, fui violada primeiro pelos soldados, ou eles guardaram-me mesmo para o Fernando?

Ashverus acaricia-lhe o cabelo com doçura.

Minha querida menina, perdoa-me. Pudesse eu ter visto mais claro. Pudesse eu não ser um condenado. Pudesse eu ter mudado o rumo da história. Mas eu estava marcado pela vontade de Deus, Hannah, e tu nunca entendeste isso. Nunca, nunca, nunca.

Fui violada por quem?, insiste Ana Maria, com as faces em fogo e uma agressividade sem pai nem mãe a apertar-lhe a garganta.

Por ninguém, responde Ashverus, de olhos baixos. Sossega. Fiel ao teu estilo, assim que percebeste onde estavas armaste um desaguisado tal entre as tropas, que os brutos, por momentos, se travaram todos de razões e se esqueceram de ti. Foi o suficiente para tu fugires e te esconderes na primeira gruta que te apareceu no caminho. Eles procuraram-te durante dois dias e duas noites, mas a entrada da gruta só dava passagem a uma menina delgada e seminua sem medo de se esfolar toda, e de forma alguma a treze brutamontes que nunca tiravam a armadura. Não tinhas nada para comer. Bebias a lama que a água das chuvas ia depositando em cima do calcário do solo. Quando percebeste que a costa estava livre, saltaste cá para fora e saciaste a tua fome com frutos silvestres que te lambuzaram toda. Sabias que o regresso a Antuérpia se encontrava barrado pelas tropas imperiais. Mas também sabias onde estavas, e nunca tiveste medo dos caminhos, nem dos lobos, nem dos ursos. Foste direitinha onde querias sem nunca perderes o Norte.

E fui para onde?

Para Praga, responde Ashverus sem alegria. Sabias que o gueto judeu de Praga era dos maiores e mais bem organizados da Europa. O teu plano era, a partir dali, sã e salva dentro da comunidade, mandares notícias para Antuérpia e esperares radiosa a minha chegada.

E estás tão triste porquê?, pergunta Ana Maria, segurando-lhe instintivamente na mão.

Porque não cheguei a tempo, suspira Ashverus.

Conta-nos o que aconteceu, pede-lhe num sussurro o grande amor da sua vida.