A Primeira Luz da Madrugada
Livro Sétimo, Cap. 1.º, Pt. Ii
Onde se procede ao esclarecimento e estabelecimento da validade da girafa no asfalto como analogia; mas não sem que antes se ponha em questão a espiritualidade única e pertinaz que o Judeu Errante julga ter encontrado em África.
O Judeu Errante resplandece de prazer e transcende-se de préstimo.
Estou por acaso particularmente bem informado sobre essa questão, porque, imediatamente antes de vir ter convosco, era lá que eu estava, recorda ele para a assembleia novamente atenta, profundo e nostálgico, poderosamente evocativo. No meio do meu caminho para o Lidl, fui chamado a África por umas vozes que cantavam ao longe. Aqui, no Ocidente, já não conseguiam ouvir-se vozes assim. Nem era bem uma canção. Era uma litania. Mas muito forte, muito sentida, cheia de meios-tons e de semicolcheias, e sentia-se que vinda do fundo da alma. Ouvi dizer: “Solo sagrado, este é o Protótipo do Paraíso, edificado pelo Criador. É possível, vejam, através desta Flor vocês verão, sentirão a força, o amor do Pai, e jamais esquecerão, guardando no coração este dia. Entrem, olhem o nosso Paraíso. Ele é belo, lá existe Paz, Amor e Harmonia. Com a união de todos, construiremos mais um solo sagrado e nele estarão assentadas todas as raízes de África. Muitos ainda não conseguiram ir, pois falta a última etapa. Corram, construam o solo sagrado de áfrica. Limpem do coração toda a impureza e escutem o bater dos sinos, a música do nosso Sol que vai surgindo com a chegada do novo milénio, corram, corram. Não julguem, não sejam presunçosos, apenas amem, amem. Passem o verdadeiro amor de Deus. Paz na Terra aos homens de boa vontade. Que assim seja!” E todos levantaram as mãos abertas, e depois juntavam-se a estas vozes muitas outras vozes que agora diziam “Uyauya shiku omon miru ni Sesson Kanzeon Botassu konodo ni amorace tamai. Koomyoo Nyorai to guenji. Oosshin Miroku to Kashi Guce no Mikami to narasse tamaite…”. Bom, eu tive que desviar-me do plano porque vi logo que aquilo tinha a ver comigo e com o Segundo Regresso e decidi investigar.
Contigo?, ataca logo Ricci Júnior, embirrento. Contigo? Eles estavam a cantar em japonês e tinha a ver contigo?
Não era nada japonês, protesta Ashverus. Era uma corruptela africana de qualquer semente perdida do japonês.
Ó Ash, tu desculpa, mas vai-te lixar, insiste o miúdo que foi Salvo das Águas. Tens um umbigo do tamanho do mundo. Isso de que tu estás a falar é o culto do Meishu-Sama, um japonês que morreu nos anos 50 do século XX e que construiu umas quintas sem estrume, onde tudo cresce só com a energia de uma força que vem das mãos, é por isso que as pessoas as levantam para a passarem umas às outras. Chamam a essa energia o Johrei, ou seja, o donativo da gratidão especial. Por favor. Veio um cliente ao Lidl, um puto de Macau, ora toma, pedir-me que o ajudasse a encontrar não sei quê na net, já sabem que eu sou bom nisso, e os outros putos que estavam na casa dele chamavam-lhe o Jo-hey, eu meti lá Jo-hey só por brincadeira, e devo ter confundido duas teclas porque fui ter a esse site. Viam-se umas brutas quintas, e também uma bruta biblioteca, cheia de japoneses limpos e bem vestidos, e te garanto que aquilo não tem nada a ver com o nosso Deus, e ainda menos contigo e com o Segundo Regresso. São modernices. Quimeras. Brincadeiras de crianças ricas deixadas entregues a si próprias. Pretensões de reencontrar o espírito muito depois de ele já se encontrar completamente perdido.
És tão precipitado, rapazinho, suspira o Judeu Errante, a tentar manter a compostura mas evidentemente irritado por estarem a roubar-lhe o microfone no meio da história da girafa no asfalto e do interesse insistente de Ana Maria. Pois tu não vês que Deus é sempre o mesmo, que o Sol do novo milénio representa sempre a consumação dos tempos conhecidos e o início do que desconhecemos, e que, se o Homem nasceu em África, é a África que tem que confiar a sua raiz? Esse Meishu-Sama que seja assim um culto asséptico lá no Japão, é o que é natural para os Japoneses. Mas, em África, te juro que aquilo não eram japoneses bem vestidos numa biblioteca cintilante. Eram homens e mulheres de T-shirt e capulana, num templo sem tecto no meio do mato, e era tudo parte do mesmo culto, o Meishu-Sama, Deus, e os Antepassados. Até se rezava o pai-nosso, e eu também rezei, com perdido sentimento. É para que saibas. Eu fui lá ver, falei com eles, vi que estavam prontos e vim-me embora. Era mais preciso aqui.
Vamos lá, Amigos, interrompe Fra Mauro. Por favor, não se travem de razões por causa da nossa incessante busca de Deus. Conta-nos a história da girafa no asfalto, Ashverus.
O Judeu Errante retoma a sua pose paternal.
Então é assim, Camaradas. Só para que saibam como foi que tudo na lógica do mundo se tornou tão confuso, que já não se resolvia sem o Segundo Regresso. Depois do infame século XIX, quando todas as águas se separaram e o terreno cortou os seus fios de ligação ao divino, eles queriam fazer tudo sozinhos e às tantas inventaram um material chamado asfalto, feito do óleo que circula nas veias da Terra desde há milhões de anos. Aquilo era bom para fazer estradas, estradas imensamente mais largas que as que nós alguma vez sonhámos, onde circulam estas máquinas que o Roger Bacon disse logo no século XIII que ainda acabariam por existir um dia, com um motor que as empurra sozinho sem requerer o esforço físico humano, enfim, como todos sabem, os automóveis. Então fizeram estradas em África, mas algumas dessas estradas atravessavam estepes imensas onde viviam as girafas.
Ah, murmura Fra Mauro com o seu ar sempre tão sonhador. Girafas. O Chamaelopardalis. Tanto que nós outros escrevemos e desenhámos sobre elas.
Os árabes sempre lhes chamaram zaraffa, recorda logo Nestor, filho de Hâyan, erguendo orgulhosamente o queixo.
Pois, Amigo, muito sabiam os árabes, concorda logo Fra Mauro. Mas nós outros, Ana Maria, sabes, nós outros estávamos na Europa. E, de todas as civilizações do mundo conhecido, éramos a mais bárbara e menos requintada. Já os Otomanos se deleitavam nos banhos com vapores perfumados, e ainda nós outros ignorávamos a higiene e o valor incomparável do prazer do tacto. Já os Chineses desenhavam ideogramas na seda, e ainda nós outros ou entrávamos para o convento ou nunca aprendíamos sequer a ler. Já há muito que se extinguira o Império Romano e nós outros, se queríamos comunicar os nossos conhecimentos, usávamos um Latim tão corrompido, o único que nos restava, que hoje poucos há que consigam compreender-nos, embora facilmente leiam Plínio ou Cícero. E foi então que começaram a chegar-nos histórias e gravuras dessoutros animais fantásticos que viviam nas estepes de África, de pescoço imenso e pele desenhada aos quadrados, imponentes, gigantescos, uma única pata era mais alta que um homem e o pescoço perfazia o tamanho de três.
Nesse tempo vocês eram baixinhos, adverte Eleazar, carinhoso.
Éramos robustos, grande sábio, responde Fra Mauro. E também o era o nosso cérebro. Não queríamos contar ao povo mais histórias de monstros. Queríamos uma explicação racional para essoutro animal tão diferente, essoutro sinal único e incomparável da bebedeira inebriadamente feliz e carnal que possuiu o nosso Deus quando Ele criou o mundo. Então admitimos a hipótese de semelhante animal resultar do cruzamento de um camelo com um leopardo, e assim lhe chamámos o Chamaelopardalis. E foi bonito, foi o que tínhamos para oferecer, foi a nossa hipótese da grande festa híbrida que os animais praticavam nessoutras paragens quentes e húmidas quando todos se juntavam nos lagos para beber ao pôr do Sol, em bandos inesgotáveis, na hora langorosa e dolente que convida os corpos transpirados à reprodução. Ah, meus Amigos, que beleza. E que prazer imenso nós outros sonhámos bafejar África como uma dádiva portentosa de Deus mesmo destinada somente às Suas criaturas sem alma, tão equânime era o Seu amor por todos os que tinha criado. Enfim, lá para o século XVI o Chamaelopardalis começou a aparecer nos livros já só em nota de rodapé, e os filósofos da natureza lá foram incorporando o árabe nas suas línguas e aceitando a inevitabilidade da girafa sem hibridismo, e assim se apagou dos mapas da mente uma linda ideia, que no entanto ainda prevalece no nome científico do animal mas já ninguém sabe de onde veio. Ninguém sabe o que está por trás daquele Giraffa chamaelopardalis dos jardins zoológicos e dos museus. E uma vez mais vos peço perdão, tenho mesmo que pedir-vos perdão, se já vos roubei demasiado tempo. Vá. Fala-nos das girafas no asfalto, Ashverus.
Vós outros sabem lá o que é transpor uma estrada, uma entidade inventada no Ocidente, para a terra dos mistérios que está ainda hoje estendida sobre toda a África, prossegue imediatamente o Judeu Errante, com Ana Maria suspensa de novo das suas palavras, momentaneamente aliviada por ouvir falar do mundo que ela conhece. Como sabem, faz parte da minha condição de Judeu Errante saber falar todas as línguas do mundo. Portanto, quando presenciei estes fenómenos conversando com aqueles únicos eleitos que ainda conseguiam ouvir-me por entre o ruído desbragado do século XX, dominava fluentemente o Português, o Inglês, o Africânder, o Changane, o Venda, o Zulu, o Ronga, o Siswati e o Xitsua, tudo o que um homem precisa para apreender a realidade que o rodeia entre o que são hoje Moçambique e a África do Sul, onde puseram o asfalto no meio do caminho das girafas. Uma girafa alimenta uma família de leões durante duas semanas. Um coice de uma girafa chega para manter um leão à distância. A corrida da girafa, com aquelas patas imensas, basta para desmotivar qualquer leão que viva rodeado de impalas e de zebras. Mas, quando passam no asfalto, as girafas desequilibram-se. No seu solo natural são imponentes e dominam orgulhosas sobre a paisagem. Neste óleo duro que lhes é estranho, derrapam, estremecem, perdem a dignidade, vergam as patas, deixam de saber funcionar. Basta um passo, e uma girafa magnífica transforma-se numa anedota ridícula. Os leões deram por isso, e eles, eles não derrapam no asfalto. É a sua vingança, oferecida de bandeja ao instinto simples dos animais pelas ideias complexas dos homens. Os animais sabem. Sabem tudo. Os leões espiam as girafas de longe, todo o dia não se movem, medem a distância da estepe ao asfalto, esperam. Assim que a girafa o pisa, lá estão eles. Sem derrapagens, e sobretudo sem misericórdia.
E os homens?, pergunta Ana Maria, ávida de mais conforto contemporâneo.
Os homens puseram lá umas cercas, sorri Ashverus, cada vez mais poderoso, com o braço imortal dele pousado sobre os ombros cansados dela. É baixinha, sabes, a cerca para a girafa. É o único quadrúpede do mundo que, quando anda, desloca as duas patas do mesmo lado ao mesmo tempo. É essa marcha única que lhe dá aquele porte tão garboso, mas esse mesmo porte impede-a de saltar. Não se aguenta em pé com duas patas levantadas do mesmo lado, claro. Então as cercas eram baixinhas, e eram electrificadas para afastar os leões. Foi então que os facocheros…
Facocheros?, interrompem várias vozes da assembleia, incluindo a de Eleazar.
São como o Pumba do Rei Leão, atira-lhes Ana Maria, impaciente. Ora bolas. Qualquer cliente do Lidl sabe isso. Peçam-lhes um DVD emprestado no próximo turno.
Já não há próximo turno, responde a assembleia.
Então também já não é preciso saberem o que é um facochero, atalha Ana Maria. Diz lá, tu que nunca que morreste, o que é que fazem os facocheros?
Então, prossegue o Judeu Errante, cada vez mais satisfeito consigo próprio. Os facocheros brincam com a cerca. Brincam, entendes? Descobriram que, se correrem bem depressa contra a cerca e tocarem nela ao saltarem em corrida, o choque os empurra sem esforço uma data de metros mais para a frente. E passam o tempo nisto. Os pequeninos e os grandes. Vi-os naquela animação agora mesmo, quando me chamou a voz das litanias. Ainda lá estão a esta hora, de certeza. A saltar por cima da cerca, só pelo prazer momentâneo de se transformarem em porcos voadores.
Mas são porcos?, indaga Eleazar, confuso.
Às vezes são porcos, remata o Judeu Errante, que gosta de agradar a Ana Maria, mas também sabe que não pode faltar ao compromisso de acabar de esclarecer o seu próprio mistério àqueles que vieram através do tempo e da geografia juntar-se a ele no Lidl do Dafundo, para o acompanharem agora na vigília que antecede o Segundo Regresso. Mas a partir daqui, professor, vamos mas é parar de contar histórias modernas e cumprir antes para com todos os Camaradas aqui reunidos o dever de desfiar até ao fim o mito do Judeu Errante. Esclarecida a metáfora diacrónica da girafa no asfalto, e espero que agora todos compreendam como é que eu me sentia no final do século XVI, diz-me lá se não é francamente provável, nessoutros tempos, e mais ainda cruelmente privado da mulher que tanto amei sem nunca poder sequer tocar-lhe, que eu andasse afectado por aquilo a que agora eles chamam uma depressão clínica.