A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 44 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Oitavo, Adenda

 

 

Onde requer a revisão dos factos que se proceda à análise de algumas divergências temporais e

geográficas no mito do Judeu Errante, tal como constantes da compilação do professor Eleazar

Melkievstein.

Satisfeito com o encorajamento do Judeu Errante, o professor prossegue a leitura.

“Adverte-nos Melkievstein, no entanto, que nem todas as fontes estão de acordo sobre estas datas, da mesma forma que a reverência dos povos pela figura do Judeu está longe de ser consensual. Em Historia

sui Temporis[29], por exemplo, J. C. Bulenger fala da passagem do Judeu Errante por Hamburgo como sendo de 1554, e refere-se-lhe com marcado descrédito, mencionando no fim: ‘Eu nunca o vi, nem ouvi nada autêntico que lhe dissesse respeito.’ Note-se, dentro desta linha, que também um manuscrito de

Henricus Bangert [30] dá antes o aparecimento do Judeu Errante em Lubeck como sendo de 14 de Janeiro de 1603. Logo a seguir, em 1604, há notícia de um aparecimento do personagem em Paris, sendo que, conforme nos recorda Melkievstein, nunca tenha sido expresso que o Judeu Errante possuísse, além da imortalidade, o dom da ubiquidade. Aqui Melkievstein acrescenta que convém recordar a passagem em

que Rudolph Botoreus, em Comm. Histor. Lii[31], aproveita para lamentar a credulidade do povo e a facilidade com que se espalham pela Europa fábulas impossíveis. Dentro da mesma veia, no Praxis Alchymiae, publicado em oito volumes em Frankfurt em 1604 como um ataque frontal e cerrado aos escritos de Paracelso, o médico de Nuremberga Leonard Doldius afirma que prefere acreditar no Judeu Errante, ‘a que uns chamam Ahasverus e outros Buttadaeus’, a acreditar que Paracelso não está morto, mas antes adormecido, graças a uma das suas receitas mágicas, dentro do seu túmulo em Estrasburgo.”

O homúnculo não mexe nem um músculo da cara.

Ana Maria passa-lhe devagarinho a mão pelos cabelos.

Eleazar certifica-se de que está tudo calmo, e continua.

“Estes primeiros alarmes de descrédito não impedem o sapateiro de continuar a aparecer pelo mundo. Em 1633, voltou a visitar Hamburgo. Em 1640, apareceu a dois viajantes num bosque perto de Bruxelas, e de novo lhes contou a história da sua penosa errância pelo mundo. Quando os referidos homens perceberam que o seu companheiro era nada mais nada menos que Isaac Laquedem, o pérfido

judeu que não deixara Nosso Senhor repousar por um momento à sua porta, fugiram aterrorizados[32].

Em 1642, visitou Leipzig. Em Julho de 1721, apareceu às portas de Munique[33]. Entre o fim do século XVII e o princípio do século XVIII houve um impostor que se apresentou em Inglaterra como sendo o Judeu Errante, papel em que seduziu grandes multidões de pobres e proporcionou bastante entretenimento aos ricos, que lhe pagavam para abrilhantar as suas festas com histórias maravilhosas de tudo o que vira e ouvira enquanto percorria o mundo durante mais de mil anos. Para além de falar várias línguas, este homem começou a atrair a atenção dos académicos pelo seu aparente dom de taumaturgia, a cura mágica geralmente reservada apenas para os reis, e consistindo do acto único e simples de tocar com as mãos nos doentes. Tanto Cambridge como Oxford mandaram investigadores interrogá-lo. Um nobre inglês conversou com ele em árabe, e foi nessa conversa que o personagem misterioso declarou que ninguém devia acreditar demasiado no conteúdo dos tratados históricos. Quando o seu interlocutor lhe perguntou pelo profeta Maomé, o estranho respondeu que conhecera o pai do profeta, que vivera em Ormuz; e que considerava Maomé um homem de grande inteligência, embora o tivesse interpelado duramente ao ouvi-lo dizer que Cristo não fora crucificado, já que ele fora testemunha presencial da Crucificação. Também estivera em Roma quando Nero incendiou a cidade; conhecera igualmente Saladino, Tamerlão, Bajazeth,

Eterlão, e podia oferecer detalhes minuciosos sobre a história das cruzadas[34]. Depois desta estadia em Londres, o Ashverus de imitação ainda apareceu na Dinamarca, daqui viajou para a Suécia, e a seguir desapareceu.”

Eleazar interrompe a leitura por um segundo para olhar interrogativamente para Ashverus.

O Judeu Errante limita-se a dizer que não com a cabeça, depois do que fecha os olhos encostando o queixo ao ombro de Ana Maria.

Eleazar continua.

“Na procura de uma raiz para o florescimento deste mito, alguns autores sustentam que Ashverus representa o mito do judeu tal como visto pela desconfiança profunda e misteriosa do europeu medieval: neste cenário, os judeus seriam então uma raça que vagueia sobre o planeta, à maneira do seu antepassado Caim, amaldiçoada por ter as mãos sujas pelo sangue de um irmão, à espera do dia em que a sua história se cumpra e o seu Deus a julgue. Esta explicação será plausível, se tivermos em conta os folclores da época em que se registam as primeiras alusões ao mito. Mas não é totalmente harmoniosa com a figura penitente do sapateiro, que expia o seu pecado funcionando como um destacado servidor de um Cristo redentor que é filho de Deus, quando uma das recusas fundamentais do judaísmo é exactamente o reconhecimento desse mesmo Cristo como sendo o Messias anunciado no Antigo Testamento. Além disso, repare-se que o desinteresse do Judeu Errante pelo dinheiro não se conjuga de todo com a avareza que é caracteristicamente associada aos judeus pelos folclores da Europa.

“Há algumas lendas locais que associam Ahasverus aos ciganos, referindo que este estranho povo errante também seria afligido por uma maldição como a do Judeu, desta feita porque se recusara a dar

abrigo à Sagrada Família durante a fuga para o Egipto[35].

“Outras lendas associam antes o sapateiro com o ‘Wild Huntsman’ anglo-saxónico, o Caçador Selvagem meio homem meio monstro que abunda em inúmeras versões e configurações nos folclores do Norte e Leste da Europa, onde foram incontáveis as florestas assombradas pela sua presença. A variação mais comum sobre este tema é a seguinte: o ‘Wild Huntsman’ era um judeu que se recusou a deixar Nosso Senhor a beber a água de um rio. Em vez disso, apontou desdenhosamente para um nadinha de água turva de lama, retida dentro da marca feita no solo pela ferradura de um cavalo. Jesus nada disse, e bebeu a água turva. Mas, a partir daí, o caçador ficou condenado a viver para sempre, sem, no entanto, conseguir

nunca conseguir saciar a sua sede[36]. Note-se que esta mesma figura da criatura que vive eternamente sem nunca conseguir saciar a sede é referida por Dante, e subsequentemente por uma grande quantidade de autores religiosos, como um dos tormentos sofridos pelas almas do Purgatório; e ainda que esta ideia do monstro imortal torturado pela sede é tão universal, que aparece até no panteão das entidades infernais japonesas. Sendo que, na Europa, a figura do ‘Wild Huntsman’ personifica a tempestade, é ainda de notar que, à data em que Melkievstein elaborou a sua compilação, era comum em França os

camponeses atribuírem quedas súbitas de granizo à passagem por perto de Ahasverus[37].

“O que podemos concluir de toda esta compilação? A via mais simples, sem dúvida, é estabelecer apenas que o Judeu Errante pertence à classe de mitos que se prendem com a suspensão da mortalidade, por especial distinção ou por maldição. Nos casos de distinção, encontramos sobretudo figuras que descobrem a Fonte da Eterna Juventude, de onde brota a Água da Vida que lhes renova perpetuamente a energia. No âmbito da maldição, a regra é depararmo-nos com figuras que ofendem a Divindade, e em consequência sofrem o seu castigo não conseguindo nunca repousar no sono da morte.”

Eleazar Melkievstein guarda com carinho o texto onde vem citado profusamente dentro da sua pasta de cabedal. Depois sorri para a Shoan ainda quieta, como se estivesse à espera de mais.

E pronto, meus Amigos, remata o professor, esfregando demoradamente as suas mãos uma na outra. O artigo fica por aqui naquilo que me diz respeito. Mas isto não quer dizer que não florescessem, no meu tempo, obras literárias em que o Ash ocupava papéis destacados. Lembro-me de um poema de Percy Bysshe Shelley, de um manuscrito de Henry Neele datado de 1828, de um texto de 1846 escrito por Nathaniel Hawthorne, eu sei lá. Também me lembro do meu Camarada numa história publicada em 1876 por George MacDonald, num conto de Rudyard Kipling, e no conto infantil The Holy Cross, de Eugene Field. Glosaram também Ashverus e o seu destino Eugene Lee-Hamilton, A. T. Quiller-Couch, Bernard Capes, O. Henry, John Galsworthy, e aos outros perdi-lhes a conta. Contaram-me que chegaram a fazer um filme sobre ele no tempo do cinema mudo… Ah, suspira Ashverus. Mas francamente, Eli. Convenhamos que o actor não me fazia justiça. Aquele canastrão, sempre de olhos em alvo. Gostei mais de um que estava para alugar lá no Lidl a semana passada, uma cousa sobre o Apocalipse datada dos anos 80 do século XX, com uma mulher que era uma mulher mesmo, chamada Demi Moore, se não estou

em erro.

Ouçam, interrompe Ana Maria, refreando o ataque de riso que lhe subiu aos lábios e aos ombros ao ouvir o seu homem triste e penitente pronunciar com lascívia as palavras Demi Moore. Eu encontrei uma referência muito mais gira. Foi num antiquário. Não sei se era filme ou teatro, mas o cartaz mostrava uma morenaça toda boazona, e aparentemente nua, por baixo de uma capa preta preocupante. E tinha pousado no ombro um corvo ainda mais preocupante. Fosse o que fosse a produção, chamava-se A Filha do Judeu Errante. É para que saibam.

Agora também há uns livros de ficção científica que metem o Judeu Errante, acrescenta o miúdo despenteado que foi Salvo das Águas. Ainda no outro dia estive a procurar umas coisas na net, que a gente gosta sempre de saber com quem é que está a meter-se… bem. Que bacanal. Às tantas apanhei uma lista de autores modernos que era assim: Mike Resnick, Kim Newman & Eugene Byrne, Geoffrey Farrington, Robert Irwin, Steve Rasnic, Ian McDonald, Pat Gray, Scott Edelman, Brian Sableford, Barrington J. Bayley e David Langford. Também estava lá um poema de uma tal de Eloise Bibbs, naquele inglês dos antigos bárbaros que estes bárbaros agora usam para tudo e mais alguma coisa e eu já decorei todo, mas não sou a pessoa mais indicada para dar palpites sobre poesia.

E encontraste mais alguma revelação escaldante, moço magano?, pergunta Ashverus, francamente divertido.

Encontrei bué de cenas, responde logo o miúdo, indiferente ao gracejo. Para já, a net tem um site altamente, todo dedicado ao tratamento romântico que foi dado à lenda do Judeu Errante, e quem tiver paciência para isso até pode “downloadar” o texto integral do romance sobre o assunto escrito pela propriamente dita Mary Shelly. Estão a ver, aquela mulher que, no século XIX, ficou tão impressionada com a electricidade, que inventou logo a história do monstro do Dr. Victor Frankenstein. Esta história sobre o Ash chama-se The Mortal Immortal, e aviso já que não é pequeno. E depois, ó meu, o que é que queres que eu te diga? Estás mesmo em toda a parte. Há um jogo de cartas tipo whist chamado The Wandering Jew, assim como há um jogo de dados, tipo backgammon, com o teu nome. Dizem que há bonecos, há moedas, e mais: há histórias sobre uma mulher com um destino igual ao teu, que seria a Judia Errante, mas que quase nunca aparece. E mais ainda, Camaradas. Somos aliados de uma verdadeira vedeta. Até existe uma planta com o nome dele, boa? Bem, meus irmãos. Vou-vos contar. No sítio onde fazem referência à planta meteram logo um quadradinho de publicidade, a sério, uma imagenzinha muito discreta que diz assim: Wandering Jew Silk Plant — $34.99. Save 20-80% on our selection of home decor. Find great deals on rugs, wall art, lighting and decorative accessories. $2.95 flat rate shipping. Overstock.com, your online outlet. Ah. E uma galeria de arte chamada Judaica qualquer coisa tem lá à venda uma gravura do Ash feita por um tal de Meir Yizrae, inspirada num pintor que foi o Marc Chagall, descrita como “gravura de um Judeu Errante em reflexão, usando uma técnica utilizada pelo próprio artista”. Bem. E aí, como é arte, o preço até dói. Vem logo à cabeça: 1,020.00 dólares, meus irmãos.

Céus misericordiosos, suspira Fra Mauro. Uma vedeta moderna, daquelas que servem para vender, servem para ganhar dinheiro, quiçá para fazer publicidade, que infâmia. O Ash não merecia isto.

Deixa, Amigo, que agora o Segundo Regresso corrige logo estes abusos todos, responde-lhe o Judeu Errante, cada vez mais divertido com o uso que a marcha do tempo foi fazendo de si próprio. Sabes mais cousas a meu respeito que eu não saiba, rapaz?

Então não sei, responde logo o filho ilegítimo de Matteo Ricci, como se estivesse ligado à corrente. Pois imaginem que há uma ópera sobre o Ash, ou uma parte de uma ópera, também não percebi lá muito bem, que eu, para mim, ópera, só se for chinesa. E que andava um tipo, um compositor inglês chamado Robert Saxton, a compor uma ópera radiofónica dramática chamada The Wandering Jew, que era uma fantasia dobre o Terceiro Milénio encomendada por uma estação de rádio lá deles chamada BBC. Não sei o que foi que aconteceu a essa megalomania, porque, quando fui procurar, não encontrei mais nada. Mas não se vão sem resposta, que, há pouco tempo, até saiu uma canção techno-dub chamada Real que é mais ou menos inspirada no Ash, num CD de uma tal de Lili Hayden. A letra… bom… se calhar as letras, agora, não têm que fazer sentido… aquilo diz assim, eu queria sair da minha pele. Tentei esconder as minhas cores. Sou um judeu errante. Ainda tenho que querer o que é meu.

O que os outros projectam em nós, suspira o Judeu Errante apertando docemente Ana Maria toda contra si. Como se eu não tivesse já o que sempre quis.