A Primeira Luz da Madrugada
Livro Terceiro
Onde, uma vez mais, se esboça a tentativa de regressar ao mito do Judeu Errante tal como
doutíssimamente relatado pelo professor Eleazar Melkievstein. Com um total insucesso a marcar a
iniciativa.
Eleazar Melkievstein aclara novamente a garganta, esfrega animadamente as duas mãos uma na outra, volta a agarrar no artigo do doutorando de Harvard, e recomeça de onde ficou antes da entrada em cena de Matteo Ricci, já muito lá para trás.
“Tanto quanto Melkievstein conseguiu apurar, depois destas primeiras referências medievais só voltam a aparecer menções ao Judeu Errante a partir da entrada do século XVI.”
Essa é boa, ó Eli, protesta Ashverus, já de sorriso rasgado pelos deslizes do homem que tanto escrutinou a sua vida. No século XVI? Onde é que tu estavas a estudar, em Sampetersburgo, não era? Vós outros publicavam todos em francês, mas estou mesmo a ver, meu bom Amigo, que até tu, que tanto quiseste conhecer-me, te deixaste contagiar por aquela arrogância dos germânicos e dos anglo-saxónicos que, nas fontes secundárias, só citam o que se passa no Norte e no Centro da Europa e ignoram tudo o que acontece no Sul. Então não sabes que, desde o século XIII, desde que os judeus começaram a ser perseguidos pelas turbamultas cristãs incendiáveis como um rastilho de pólvora seca de tanta miséria e tão pouca ocupação, eu comecei a passar por lá para lhes dar apoio?
Não, Amigo, responde Eleazar, baixando modestamente a cabeça. Há muita informação que escapa ao historiador, digamos que talvez por falta de meios de chegar às fontes, sobretudo às que são orais. Mas, sim, digamos que essas lacunas podem vir da nossa arrogância. E nós nem damos por ela. Se entretanto andaste por outras paragens, conta-nos tu, então, essas histórias.