A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 28 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Sexto

 

Onde, uma vez mais, se regressa à continuação da história do Judeu Errante tal como contada por

ele próprio. Com o já referido amor impossível a intrometer-se em todos os episódios.

Registou-se em 1492, portanto, continua o Judeu Errante, que a minoria judaica começava a crescer de importância entre os Portugueses. Foi um efeito que se fez sentir em todo o território, incluindo a própria corte, já que também fugiram às perseguições e aos baptismos forçados vários judeus castelhanos de grande erudição, merecedores de atenções especiais do rei. Quando eu vi os teus olhos pela primeira vez, Ana Maria, estava apenas a ajudar o meu povo a atravessar a fronteira, e a encaminhá-lo docemente até Lisboa, onde eu próprio pensava que todos encontraríamos a paz. Aliás, as próprias agostinhas do teu convento começaram por ter interacções estreitas com as mulheres dos sábios recém-chegados, deleitadas com a discussão das Escrituras e, embora secretamente, até com alguns prazeres da Medicina e da Matemática.

Infelizmente, o intervalo de bênção durou pouco. Em Dezembro de 1496, por obrigação contratual do casamento de D. Manuel com a infanta Isabel, filha dos Reis Católicos de Espanha, os mesmíssimos judeus que eu tinha escoltado para o que julgava ser porto seguro foram atingidos por uma nova ordem de expulsão, desta vez vinda do rei de Portugal, que teve mesmo que mandar emissários ao papa Paulo III pedindo-lhe para instituir a Inquisição em Portugal.

Nessa altura, a maioria dos judeus, convertidos à força e tornados cristãos-novos, permaneceu no país, impedida de sair senão com autorização do rei. Lembras-te, jovem noviça, do que nós corríamos pelas ruas tão estreitas de Lisboa, tu a segurares-me na mão, eu a insuflar-te prudência e sabedoria, a tentar acalmar os aflitos, a suavizar as penas dos perdidos, a murmurar ideias de paz e tolerância nos ouvidos dos católicos excitados? Deviam estar cerca de quinhentos médicos judeus em exercício em Portugal por essa altura, toda a gente recorria aos seus serviços, mas, passado o momento da aflição, imaginavam-se fantasias horríveis sobre a forma como eles obtinham as curas. Contavam-se outra vez as mesmas histórias que os romanos tinham feito circular sobre os cristãos, desta vez com alusões a crianças cristãs degoladas para que os judeus bebessem o seu sangue. Espiavam-se as comparências nas missas de domingo, as observações de trabalho ao sábado, as aquisições de carne de porco nos talhos, e não havia nada que não fosse considerado suspeito. E tu, Ana Maria? Eras tão nova, tão bonita, ficavas tão cintilante sempre que consolavas alguém, houve manhãs de nevoeiro e tardes de ventania em que só o teu sorriso iluminava o negrume da cegueira que nos vem da ignorância arrogante do povo negligenciado que nunca teve nada a perder. Sentia-se no ar a explosão iminente, respirava-se insegurança, ouvia-se fermentar a raiva, tu vinhas comigo de dia, e à noite pedias-me mais. Lembro-me tantas vezes da delicadeza com que me secavas as lágrimas, tu que nem as compreendias, porque nunca antes tinhas visto nada e do fundo do coração acreditavas na humanidade e na sua propensão para o bem. Eu, que já tinha visto tudo, estava apenas a revisitar mais um dos milhares de episódios que testemunhei que nos ensinam o que pode a vileza do espírito sobre a falta total de cultura e de dignidade em que os que mandam no mundo obrigam os seus súbditos a viver. Tentei avisar-te do que ia acontecer a seguir. Tentei convencer-te a teres mais cuidado com os teus actos públicos, que não procuravam senão o bem mas que, a qualquer momento, numa situação daquelas, podiam levantar contra ti todas as cabeças da hidra que se alimenta das grandes cóleras populares latentes. Tu rias. Como tu rias, debaixo do teu manto branco, com esses teus caracóis escuros a soltarem-se nas brisas do rio, como eu nunca mais vi rir ninguém.

Ana Maria pensa que já há tantos anos que deixou de rir, e muda imediatamente o rumo à conversa.

Estamos aqui a ouvir a tua cronologia com a maior das atenções, amor, adverte ela com um sorriso meio cúmplice meio imperativo. Mas olha que estás sempre a perder-te nessas divagações sobre a noviça católica, e ainda não me transformaste numa tal de Hannah que vivia em Praga. O que é que aconteceu em Lisboa, diz lá?

Bom, murmura Ashverus, de testa enrugada pelas recordações desagradáveis. A situação começou a degradar-se a olhos vistos, de dia para dia. Já não havia nenhuma desgraça no reino que a populaça não considerasse culpa dos judeus. Primeiro, o povo atacou em massa a judiaria de Lisboa. Depois saiu um decreto da coroa a ordenar a deportação para a ilha de São Tomé de todas as crianças judias, que, na sua esmagadora maioria, por lá morreram em pouco tempo, ou de doenças tropicais ou pura e simplesmente de fome. Isto para os meninos pequeninos. Os maiores de catorze anos foram entregues a famílias portuguesas, para se garantir a sua devida educação na Fé cristã. Dá para imaginar o uso que as ditas famílias terão feito de todos essoutros moços, não é? E dá para sentir o ódio já pronto a borbulhar à superfície, de ambos os lados, não dá? Pronto, isto uma cousa leva inevitavelmente à outra, não há muito mais que eu possa explicar-vos, o que é certo é que, em Abril de 1506, a fúria popular desencadeou um massacre contra os judeus de Lisboa em que se diz que morreram mais de duas mil pessoas. Foi a gota de água. Perante o estado insustentável da situação, D. Manuel deu finalmente aos judeus liberdade para partir. E começou o grande êxodo.

Para Praga?, pergunta logo a noviça, impaciente por ouvir a continuação da sua própria história.

Calma, minha virgem pura do sorriso lindo, sussurra-lhe Ashverus. Praga foi só o acidente horrível que te separou de mim. O meu povo perseguido fugiu para a Polónia, ou então para o Norte de África, bastantes deles rumo à Terra Santa. Outros foram para a Turquia e para as terras sujeitas ao Império Otomano, onde formaram grandes centros de conhecimento em Constantinopla e Salónica. Outros, os que tu acompanhaste comigo, rumaram por terra à Flandres e aos Países Baixos, onde a tolerância religiosa era famosa em toda a Europa.