A Primeira Luz da Madrugada
Livro Primeiro: Cap. 2.º, Pt. Vi, 2.ª Adenda
Onde o Judeu Errante continua pacientemente a explicar à assembleia impressionada como é que o Lidl funciona enquanto metáfora cabalística.
É simples, responde Ashverus a Ana Maria, com um sorriso rasgado de ternura. Sempre me fizeste tantas perguntas, rosa do mundo. Estás a ver, a oitava porta da Cabala é a entrada para o Céu. Não podemos lá chegar sem ser pelo estudo, o tal que só deve começar depois dos 53 anos. A sétima porta é a antecâmara do Céu, e também não é para qualquer um. Restam seis portas, e todos os Lidls têm, exactamente, seis portas. Todos. Então eu convoquei cada um destes homens até junto de mim para aguardarem comigo o Segundo Regresso, e fiz cada um deles entrar por uma das portas do Lidl do Dafundo.
Mas porquê do Dafundo?, insiste Ana Maria. Não podíamos ir esperar o Segundo Regresso num lugar mais adequado, sei lá, no cimo do monte Evereste, na Antárctida, na ilha da Páscoa, ou assim? Este sítio é o dejecto ocidental mais deprimente que existe, na margem da capital de um país que está, todo ele, profundamente deprimido. Porquê aqui, amor? Porquê?
Porque é aqui que a Cruz foi quebrada, gentille demoiselle!, responde-lhe a audiência em coro, sem que Ashverus precise de mexer um músculo do rosto ou um dedo da mão. E, se tudo começou com a Cruz que o Judeu Errante não deixou Jesus poisar à sua porta, só podia acabar no sítio onde a Cruz quebrou mesmo! E uma cruz de pedra, ainda por cima!
Belo coro, aplaude Eleazar. Faltaram-lhe umas polifonias, talvez.
É que foi deveras espontâneo, professor, explica apologeticamente Fra Mauro.
Muito bem, retoma Eleazar. Ash, fiquei convencido com a explicação das seis portas. Mas aqueles que tu chamaste, ao todo, são cinco. Para que é que precisavas de uma sexta porta?
Então e esta galante senhora perigosa que acaba de juntar-se a nós, Eli?, pergunta Ashverus com um sorriso orgulhoso. Não era merecedora de uma porta, também ela? Imaginas tu quantas vezes ela teve que entrar e sair pela sexta porta do Lidl do Dafundo até conseguir chegar dentro do nosso universo?
Oy, admite Eleazar. Vei. Mas como é que passas daí para a explicação do Lidl como metáfora da Cabala a estes gebos?
É simples, responde Ashverus. Depois de lá estarem dentro, já não podiam sair. Eu tinha-me transformado no coordenador dos turnos da limpeza. Puxei-os para um canto, e expliquei-lhes tudo. Fiz-lhes ver, como aliás se vê claramente, que quem está dentro do Lidl está dentro de um universo onde tudo é o símbolo de outra cousa, e todas as cousas estão organizadas por forma a constituírem, no seu conjunto, uma explicação global dos fenómenos.
Mas como é que isso funciona?, insiste Ana Maria. Eu vou ao Lidl o tempo todo, e nunca dei por nada de particularmente iluminado ou esclarecedor sobre os fenómenos. Quer dizer, muito pelo contrário.
E tu desejas mesmo ouvir, rosa do mundo?, pergunta o Judeu Errante.
Sim, porra, responde a mulher que o ama.
Depois de saberes o segredo, transfiguras-te mesmo por completo, Ana Maria, adverte o homem que esperou seis séculos por ela. E, a seguir, já nunca mais podes sair deste universo e voltar para aquele de onde vieste.
E os meus rapazes?, angustia-se a mãe solteira. Não se perdem, tranquiliza-a o mito imortal.
Está bem, acaba por decidir Ana Maria. Diz-me tudo e eu transfiguro-me.
Queres mesmo?, certifica-se Eleazar.
Quero, professor, responde ela, de queixo erguido.
Os outros batem palmas com entusiasmo. Ashverus fá-la ajoelhar-se à sua frente na areia, ele próprio se ajoelha, e depois segura as duas mãos dela nas suas. Está a olhá-la com um olhar que veio do princípio dos tempos.
Ana Maria, meu amor.
Vens agora mesmo a chegar a casa.
Entras, principia Ashverus. Mesmo à tua frente, depois de passares o Multibanco, que está ali posto como nós púnhamos os Golems a guardar-nos os guetos, estão as caixas registadoras. Na sua infalibilade mecânica, aliada ao seu absoluto sentido democrático que previne toda e qualquer discriminação ou preferência na computação dos preços, são como as fortalezas inexpugnáveis sonhadas por Conrad Kyesler, capazes de funcionar de dia e de noite, sem uma falha, e ainda, como quisera Jâbir da sua máquina mórfica, até ao fim dos tempos.
O fim dos tempos, também, está aí quase a chegar, resmunga logo o menino despenteado. Uma máquina funcionar até ao fim dos tempos já não tem a grandeza que dantes tinha.
E os funcionários que accionam essas máquinas, continua Ashverus, aparentemente imperturbável mas não sem lançar ao miúdo um viés paternal de censura, executam a função que lhes compete com a precisão e a constância dos que sopraram nas eolípilas para fazer frente aos exércitos inimigos. Que estão em filas certas, como uma legião de escravos prontos para serem marcados com o ferro em brasa da casa que os comprou, animais obedientes na aparência mas no fundo de si próprios à mesma humanos, pois que se tiverem uma oportunidade, por breve que seja, para violarem as regras mudando de fila ou passando à frente de algum membro mais fraco do carreiro, imediatamente a aproveitam. Isto, note-se, não sem frequentes altercações, travadas em bastante mais que uma língua nas frequentes ocorrências já por nós registadas.
Pois, concorda suavemente Fra Mauro. Quando ao homem não resta mais que a exasperação, a miséria e o desgosto; quando ao homem tentam roubar a alma com a tirania da máquina e o jugo da besta; quando ao homem, enfim, é recusado o prazer da cultura e é sufocada a fluidez do pensamento, é só no motim e na revolta cega e surda que ele consegue encontrar o refúgio de ser, ainda, homem. E, nestes casos extremos, como todos os que temos presenciado, nenhum motivo nobre ou grandioso é necessário para a expressão da revolta. Nem esta revolta se destina a modificar seja o que for, mas tão-somente a manter viável a tirania da desumanização, ao permitir, por alguns minutos inúteis, que a pressão acumulada dentro da bomba de ar salte para fora da tampa e se dissipe, sem mais repercussões, na imensidão do Universo. Há milhares de anos que assim é, e a Grande Máquina funciona sempre, cada vez melhor, por muita areia que os iluminados tentem deitar-lhe na engrenagem. Algum deles sobreviveu aos seus sonhos, porventura, por muitas multidões que tenha arrastado atrás de si, por muitos exércitos que tenha arregimentado à sua volta? E alguma vez a Grande Máquina claudica? Regenera-se, apenas, quando é absolutamente necessário, em exercício atrás de exercício de palingénese, alimentada pela ideia que tiveram os primeiros homens que escravizaram outros, e logo a seguir os primeiros homens que torturaram outros.
E é exactamente para deitar areia na Grande Máquina é que nós cá estamos, atalha Ashverus meio severo meio cúmplice, conhecedor da tendência do companheiro para aquelas longas tiradas sobre os poderes malignos das tiranias desumanizadoras. Alguém tem que manter acesa a chama, para que a humanidade não se devore a si própria. Como bons estrategas, que há séculos que vigiam sobre a liberdade do pensamento, atacamos sempre no coração do monstro. Já estivemos noutros sítios. Agora estamos no Lidl. Percebes, Ana Maria?
Não, esclarece ela prontamente.
Deixa, responde o Judeu Errante. Agora tens todo o tempo do mundo. Pensa bem no Lidl, e verás como funciona a analogia para o ponto em que todos os princípios básicos da desumanização estão em movimento, e declaradamente ao ataque. É uma máquina que agride furiosamente o teu sentido estético, apresentando-te sistematicamente a mais feia e desoladora das paisagens acessíveis ao alcance dos teus olhos. Como acabas por não ter outro remédio senão voltares lá muitas vezes, é o teu respeito básico pela estética que começa a enevoar-se, até que, um dia, já nem o vejas. Mas imagina que és forte. Sim, Ana Maria, imagina que tu és a mulher que nós sabemos que tu és. És corajosa, és teimosa, tens toda a força do mundo dentro de ti, e nada te assusta. Por isso mesmo, o teu sentido estético é incorruptível. Nesse caso, a Grande Máquina humilha-te e é assim que te degrada, porque o Lidl vende tudo realmente tão barato, e tu para seres quem és tens realmente tão pouco dinheiro, que por muito que aquela paisagem assumida e propositadamente feia te faça doer os sentidos, tu não podes deixar de lá voltar. Uma vez, e mais outra, e mais outra. E, de cada vez, ficas um bocadinho de nada menos brilhante. Um bocadinho de nada mais cansada. Um bocadinho de nada mais triste. E, em consequência, um bocadinho de nada menos humana. Agora conta isto por semanas, multiplica as semanas por meses, soma os meses em anos, e pensa bem quanto do teu coração já ficou enterrado por baixo dos caixotes do Lidl. Ainda por cima, não te esqueças desta parte fundamental do Plano: para cada produto, só tens uma escolha. Certo? Então o que é que acontece ao teu livre-arbítrio? Para onde vai a tua capacidade de escolheres tu quem queres ser, e como, e porquê, e quando? O que fazes da alma racional e consciente que te mantém o sexto sentido desperto? Porque é que tu julgas que nos juntamos aqui em segredo para venerar uma estrela de seis pontas? Não percebes que, para manter vivo o sexto sentido, todos os dias tens que alimentar a alma que em troca te anima? Julgas que a alma sobrevive do ar cada vez mais corrompido que tu respiras? A alma vive das tuas escolhas, que te são ditadas, acima e para lá de todas as outras cousas, pelos instintos oriundos do teu sexto sentido. E, sem ele, nunca a humanidade teria feito a caminhada que fez. Porque todos os outros cinco são necessários para a sobrevivência, mas o sexto é imprescindível para a vida humana. E o Lidl rouba-to, manieta-to, amordaça-o, só um bocadinho, mas cada vez mais um bocadinho, de cada vez que lá vais.
Eu tranco-me toda por dentro antes de entrar, protesta Ana Maria.
Bonito, rápido, e certamente eficaz, aplaude o Judeu Errante. É uma defesa sábia. Mas, ao mesmo tempo, repara bem que essa defesa indica claramente que a Grande Máquina já te condicionou, e por conseguinte já te fez afastares-te um passo da tua própria humanidade. Sabes porque é que podes trancar-te por dentro e ir lá à mesma com toda a eficácia? Porque o Plano já se gere a si próprio dentro de ti. Já começou a alimentar-se do teu sangue, enquanto não consegue atingir a tua alma.
O quê?, refuta Ana Maria já pronta a subir de tom, já quase de mão na anca. Eu? Com esse Plano horroroso por dentro?