A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 18 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Segundo

 

 

Onde, finalmente, se regressa ao mito do Judeu Errante, agora segundo os doutíssimos

conhecimentos académicos do professor Eleazar Melkievstein e respectivo linguajar erudito.

Com o Sepher Yetzirah vigilante dentro da estrela de seis pontas.

Talvez seja uma boa oportunidade para ouvirmos finalmente a história do Ash, enquanto eles se aquecem, propõe o avô de Conrad Kyesler. Não acham? A tropa toma outro café, come mais uma rodada de pão com manteiga, e o professor Eleazar toma finalmente a palavra. Senão, coitado, até parece que o fizemos apanhar o comboio para nada. E vós outros sabem como ele detesta comboios.

Eu, por mim, acho bem, aprova Nestor Ibn Hâyan. Perdoem a ignorância da minha religião nestas matérias, mas, de facto, nada sei sobre a vida do Judeu Errante.

Eu sei pouco, acrescenta o miúdo. Em vida, não me deram lá tanto tempo como isso. Mas, de tudo o que ouvir agora, nada me sairá da memória.

Eu sei quase tudo, suspira o homúnculo. Mas é sempre interessante apreciarmos as voltas que dão as lendas populares quando se ramificam e se estendem em estilhaços pelo mundo. Ora, sendo Eleazar Melkievstein um erudito na matéria, decerto que a sua versão será bastante mais correcta do que todas as lendas que ouvi até hoje.

Então vamos, anima-se Fra Mauro, compondo os óculos partidos. Passa-me aí mais pão, Ash. Mas bem quente e bem escuro, com as seis sementes, aquele especial que tu tiras do bolso para os grandes momentos.

Eleazar Melkievstein põe-se em pose.

Antes de começarmos, um guia genérico para o caminho. Saibam que existem, literalmente, centenas de precedentes para a figura do Judeu Errante. Mas o mito com que lidamos hoje parece ter nascido da convergência de duas tradições separadas. Na primeira, a imortalidade é uma bênção e uma recompensa, enquanto na segunda é um castigo e uma maldição. A primeira, e mais antiga, encontra-se em Mateus 16,28, e diz respeito ao discípulo, geralmente considerado como sendo João, a quem Jesus prometeu: “Alguns ficarão de pé e não provarão o sabor da morte, até verem o Filho do Homem regressar com o

seu Reino”[14]. A outra história aparece um pouco mais tarde mas é certamente mais influente: é a lenda de Malchus, o romano que bate em Jesus em João 18,20-22,e logo a seguir recebe o mesmo destino, mas como uma maldição. Aliás, até há quem diga que este Malchus foi o mesmo romano a quem Pedro cortou a orelha em João 18,4-10, mas não há consenso a este respeito. Há apenas aquilo que todos os que estudam folclore conhecem tão bem: um processo de transposição, em que os dois homens passam a ser

identificados como um só[15]. Estes dois mitos fundiram-se com numerosas lendas, como a história bíblica de Caim e a passagem do Alcorão em que Moisés condena o samaritano Sameri a vaguear para sempre pelo mundo porque participou na construção do bezerro de ouro. A partir do século XIII, já todos

estes fragmentos estavam consolidados no mito maravilhosamente longevo do Judeu Errante.

Ashverus distribui mais uma rodada de pães. As manteigas e os cafés circulam, rápidos. Eleazar Melkievstein faz uma reverência elegante à assembleia, compõe a cartola num gesto preciso e breve de cortesia, coloca de novo os óculos de leitura. E recomeça a ler a tese que um filho incógnito das abominações do mundo escreveu sobre ele quando passou por Harvard.

“Diz-nos Eleazar Melkievstein”, principia o grande senhor, com o vislumbre de um sorriso comovido a subir-lhe aos olhos quando relê o seu próprio nome impresso, “que a primeira referência à passagem do Judeu Errante pela Europa é do livro de crónicas do abade de Saint Albans, relativa a uma peregrinação a Inglaterra empreendida em 1228 por ‘um certo arcebispo da Arménia, a Grande’, que veio para ver com os seus próprios olhos as relíquias dos santos, e visitar um por um todos os lugares sagrados do reino, ‘como já fizera em tantos outros’.

O professor interrompe por segundos a leitura, só para advertir a audiência de que este arcebispo da Arménia era um viajante impenitente e notável, que deixara atrás de si relatos relativos a expedições sem conta, pelo que, provavelmente, ainda havia de acabar por aparecer noutras histórias que ali se contassem naquele dia roubado ao tempo. Depois aclara a garganta, e prossegue a leitura do artigo.

“Ora, como Melkievstein nos recorda que acontece frequentemente nos relatos da época, nesta peregrinação o arcebispo descansou por uns dias no Mosteiro de Saint Albans, e logo aproveitou, ao jeito de várias histórias semelhantes, para ‘inquirir da religião e das observações religiosas deste país,

ao mesmo tempo que contava muitas coisas estranhas relativas aos países do Oriente’[16]. Nesta ocasião, um dos monges locais perguntou-lhe se alguma vez nas suas viagens encontrara ou ouvira falar de José, um homem muito discutido no mundo, que testemunhara o sofrimento do Senhor Jesus Cristo e depois disso ainda hoje continuava vivo, ‘em evidência da fé cristã’. Um dos cavaleiros da escolta, que servia de intérprete e falava francês, respondeu prontamente: ‘O meu senhor conhece bem esse homem, e pouco tempo antes de se meter a esta jornada esse José comeu à mesa do meu senhor, o arcebispo da

Arménia, e várias vezes o viu e conversou com ele’”[17].

Raça de corvos crocitantes, suspira o avô de Conrad Kyesler, com a boca toda lambuzada de manteiga e a malga de café a fumegar-lhe diante dos olhos semicerrados. Sim, senhor. E tu é que eras essoutro José, ó Ash? Já estou ficando deveras impressionado.

Escuta Eleazar, Camarada, responde Ashverus com calma, fazendo rodar as brasas com a ponta de uma cana, em movimentos serenos e circulares. Escuta-o, e não te apresses a tirar conclusões. A pressa é inimiga da clareza. E nós outros ainda estamos no princípio da história. Sabes tu, sabeis vós outros, ao Judeu Errante foram dados muitos nomes, embora os mais comuns fossem Malchus, Cartaphilus, e o famoso Ahasuerus ou Ahasverus. Com o tempo, estas palavras difíceis de pronunciar foram-se atenuando para o Ashverus que vós outros utilizam hoje. Mas quem sou eu para falar? Conta-lhes tu, Eleazar, meu grande e precioso Companheiro.

Eleazar Melkievstein sorri de novo o seu sorriso quase feliz.

E prossegue, num tom cada vez mais declamado.

“Diz-nos Melkievstein neste ponto que, em resposta às perguntas dos monges sobre o que se passara exactamente entre Jesus e esse José, os arménios responderam que, quando os judeus estavam a arrastar o Filho de Deus para fora do palácio de Pilatos, o porteiro, que se chamava Cartáfilo, Lhe batera ‘impiamente’ com a mão nas costas e dissera, em tom de chalaça, ‘anda mais depressa, Jesus, para que é que arrastas os pés?’. Em resposta, Jesus lançou-lhe um olhar de severa continência e respondeu: ‘Eu vou, e tu terás que esperar até que eu volte.’

“Ao que Melkievstein conseguiu apurar a partir dos manuscritos originais que contam esta versão arménia da história, Cartáfilo tinha nessa altura trinta anos. A partir daí, marcado pelas palavras terríveis do Enviado, de cada vez que atinge os cem, volta a ter trinta. E assim estará condenado a viver para sempre, por muito que já não queira viver mais. Ora, quando a fé cristã começou a ganhar terreno e a seduzir as massas incultas e maltrapilhas depois da morte de Jesus, este homem por fim rendeu-se, arrependeu-se, ajoelhou-se, foi baptizado pelo mesmo Ananias que baptizou São Paulo na sequência da sua própria conversão na estrada para Damasco, e passou então a chamar-se José.”

José, protesta Nestor Ibn Hâyan. Qual Ashverus. E já estamos mesmo a ver que o pomo da discórdia, a julgar pelo que nos foi dado escutarmos, nem sequer era judeu. Muito provavelmente, não era nem circuncisado. E ainda menos era sapateiro, valha-nos a mão direita do Grande Patriarca. Era mas era um oficial romano, ainda por cima do séquito de Pôncio Pilatos, tão cego e surdo ao mundo em seu torno que nunca esperou ouvir da multitude judaica o grito de prendam Jesus e soltem Barrabás. Um fraco de espírito, só assim, sem qualidades redentoras, pelo menos que a história tenha registado. Pronto a lavar daí as suas mãos e deixar a turbamulta saciar à vontadinha a sede de sangue que vibra em segredo por dentro de todas as multidões humanas impedidas de exercer o livre-arbítrio pelo poder do colectivo que lhes rouba a discriminação, como tão bem explicou Tomás Aquino. E, quero eu dizer-vos, agora aqui estamos nós outros, vindos de todos os tempos e de todas as terras para nos tornarmos nada mais que sombras vagas na orla da Cruz Quebrada quando se suspende o tempo, a carregar a cruz do mundo num mau lugar chamado Lidl do Dafundo quando o tempo volta a existir, e tudo porque, aparentemente, mesmo da distância imensa a que nos encontrávamos, e mesmo depois de todos os logros infames que conhecemos em vida, ainda fomos ingénuos, ainda tivemos esperança, e sabe-se lá porquê ainda demos ouvidos a mais um impostor.

Calma, assírio ardente, sorri Ashverus com a grande quietude da sua imortalidade. São histórias. Pedaços. Estilhaços. Recortes de memórias que se perderam pelo mundo sem ninguém lhes conhecer já a origem. Sempre que entrares para dentro de uma lenda, terás centenas de vidas e incontáveis nomes. Mas sempre o mesmo destino. Calma, Amigo, e escuta Eleazar. Ele sabe.

Eleazar Melkievstein pigarreia mais fundo, deste vez a deixar bem expresso o seu desagrado por tantas interrupções. E volta a olhar para o artigo que uma alma bizarra escreveu sobre o que ele próprio disse.

“Na versão da Abadia de Saint Albans”, prossegue o professor, “este José viveria numa ou outra divisão da Arménia, e ainda em diversos outros países do Oriente maravilhoso, passando o seu tempo entre bispos e outros prelados da Igreja. Em todos estes relatos, sistematicamente, é um homem de conversação sagrada, e de profundo espírito religioso. Relata àqueles que o ouvem os acontecimentos dos tempos antigos e miraculosos que ele presenciou um por um em vida, como a morte e a ressurreição de Cristo, o Pentecostes, ou a dispersão missionária dos Apóstolos, com todas as perseguições e comoções que se lhe seguiram. Tudo isto, diz-nos Melkievstein a propósito da versão de Saint Albans, José relata sem um sorriso, sem qualquer vestígio de leveza na conversa, como alguém que tem grande prática no arrependimento e no temor a Deus.” Amigos, aqui creio que vou saltar uma passagem destinada a citações de fragmentos de crónicas da época, para não exigir demasiado dos vossos espíritos sedentos do conhecimento pleno de todas as histórias possíveis para a vida eterna do vosso líder. Deixem-me ver… Citações… Citações… Oy, continuamos a partir daqui.

“Nesta versão que Melkievstein retraça em todas as suas ramificações, onde quer que José se encontre em todas as paragens do Oriente mágico por onde passa, vêm em grandes números ter com ele homens e mulheres de diferentes partes do mundo, porque apreciam a sua companhia social tanto quanto a sua conversa; e a esses visitantes, que são frequentemente homens de autoridade mas também podem ser anacoretas ou prostitutas públicas, José explica todas as dúvidas nas matérias sobre as quais é questionado. Recusa sistematicamente as oferendas generosas que lhe fazem, contentando-se sempre

apenas com comida parca e vestuário modesto”.[18]

Eleazar Melkievstein olha à sua volta, registando com alegria que agora, finalmente, todos estão calados e calmos, rendendo-se às flutuações aleatórias com que se desenham as lendas. Com o braço passado em torno dos ombros de Ana Maria, Ashverus está a acariciar atrás das orelhas o cão que se estendeu sobre o colo de ambos como uma manta quente, espaçosa e felpuda.

“Note-se, agora, na recolha de Melkievstein, a passagem deste episódio a romance rimado, símbolo inconfundível de que uma qualquer história verdadeira já começou a infiltrar o registo lendário. Em 1242, a versão do arcebispo da Arménia de visita a Saint Albans foi retomada em forma de poema por Philip Mouske, que uns anos mais tarde se tornaria o bispo de Tournay. É já como bispo de Tournay que Mouske escreve os seguintes versos:

‘Adonques vint un arcevekes

De çà mer, plains de bonnes thèques

Par semblant, et fut d’Armenie.’

“A única diferença entre a história anterior e a que canta o bispo de Tournay é que, no poema, este arcebispo da Arménia não vai em peregrinação a Inglaterra, mas antes se dirige a Colónia para visitar o Santuário dos Três Reis Magos. Quanto à ofensa contra Cristo que desencadeia a pena da imortalidade, as variações são mínimas. Diz o poema que o porteiro de Pilatos terá gritado ao Redentor que ia sendo arrastado pela multidão dos judeus:

‘Atendés moi! gi vois

S’iert mis le faus profrete en crois’

E então,

‘Le vrai Dieux le regarda,

Et li a dit qu’e n’i tarda,

Icis ne t’atenderont pas

Mais saches, tu m’atendras’”[19].

Para grande espanto de todos os presentes, incluindo o cão, que arrebitou logo as orelhas, o rapaz que deve ter estudado mnemónicas impossíveis mas não se percebe como nem onde nem quando nem porquê, fez coro com o professor ao recitar o romance, e não se enganou uma única vez, mesmo no pântano do francês que se escrevia no século XII. A nova interrupção torna-se inevitável. Até Eleazar já está roído de curiosidade. O miúdo vai ter mesmo que explicar-lhes, antes que consigam seguir em frente, de onde vieram as suas artes mágicas da memória.

E, como que decidido a arrasar mesmo a assembleia, o visado não se limita a uma explicação debitada no seu habitual registo infanto-juvenil. Pelo contrário. Levanta-se. Prende outra vez a bandana do Mundial na cabeça, para que os cabelos despenteados não interfiram com a seriedade do momento. Apoia o pé esquerdo sobre o resto de um tripé que qualquer pescador ali deixou. Encosta o cotovelo esquerdo ao joelho esquerdo. Encosta a palma da mão esquerda à face esquerda. E, assim postado, começa a falar como quem está mesmo a dar uma aula.