A Primeira Luz da Madrugada
Livro Sexto, Cap. 2.º
Onde o Judeu Errante, saudoso e ainda dividido, conta à assembleia a história de como Ana Maria se converteu em Hannah; logo seguida pela sóbria advertência de que não há estado de graça que dure para sempre.
E depois?, insiste Ana Maria, maravilhada.
Vieste connosco na marcha até Antuérpia, o grande centro do hermetismo judaico, recorda Ashverus, saudoso. Estavas ansiosa por aprender mais cousas, por ver mais longe, por te manteres em vida ao meu lado como companheira e alma gémea. Nunca mais quiseste deixar de usar as tuas roupas de homem, que te soltavam os movimentos e te enchiam de força, mas pelo caminho foi-te crescendo o cabelo, e parece-me que o busto também, mas isto pode ser só ilusão minha. Sei que não tinhas cuidado nenhum com ele. Era como se não estivesse ali. Eu via-o de relance o tempo todo. Tu não davas por nada. E outrossim também ninguém te dizia nada, porque a tua imagem se tinha tornado mágica e benéfica para todos. Cada vez parecias mais uma divindade. Eras a alma do grupo. E estudavas tudo o que precisavas de saber com aquele afinco que só se tem no ânimo fresco da juventude, nas asas quentes da paixão, na faísca primordial da crença. Já nem te passava pela cabeça não seres um de nós outros. Foi logo à chegada à Flandres que pediste ao rabi Eniem que te ministrasse a cerimónia de conversão ao judaísmo. Sabias tudo. Não falhaste uma resposta. E sorrias de mansinho, enquanto a mim me rolavam as lágrimas pelos olhos como um ribeiro, quando a comunidade te acolheu com o nome de Hannah.
Que bonito, suspira Ana Maria, com a voz subtilmente mais leve. Então, e depois disso, não podíamos ter ficado lá os dois sossegadinhos, a estudar, a debater, a escrever, e sempre a consolar os outros e a consolarmo-nos um ao outro?
Não, suspira Ashverus, com a voz subitamente mais rouca. Minha querida rosa do mundo, o conto de fadas era imediatamente gratificante para todos, mas tinha que chegar ao fim porque vós outros eram pessoas vivas, não eram uma história. E eu, meu amor, eu era um mito. Tu nunca foste capaz de aceitar isso. Eu era o Judeu Errante, e, em consequência, tinha que errar pelo mundo a anunciar o Segundo Regresso. Tu dizias que virias vagabundear comigo enquanto vivesses. Eu sentia a tentação de ceder aos teus pedidos, mas sabia que essoutro futuro encantado nos estava vedado aos dois. O alimento que Deus me mandava para eu continuar vivo não podia ser usado por mais ninguém, nem a forma como Deus me mantinha quente sem agasalhos debaixo da neve e da geada podia funcionar para quem viesse comigo. Estes detalhes logísticos não te sossegavam. Dizias que viverias de donativos, e do que te dessem em troco de ensinamentos e curativos, e que eras melhor do que eu a arranjar alcovas para o sono da noite, onde eu poderia repousar mesmo que nunca pudesse dormir. Eu tentava explicar-te que havias de crescer e de querer ter filhos que eu nunca poderia dar-te, e tu respondias que não era a pensar nisso que tinhas entrado para o noviciado, e que cuidar dos filhos dos outros, e de todos os filhos de Deus, te bastava. Teimosa, teimosa, teimosa. Convencida de que é possível partilhar a vida com um mito. Tonta, menina tonta. Ficaste zangada. Depois choraste. Eu quedei-me consternado. Nunca te tinha visto chorar. Senti-me completamente mortal, e percebi que estava a pôr-nos a todos em risco. Sabe-se lá o que é que acontecia se o Judeu Errante se desfizesse ali mesmo em pó, cinza e nada, no resto inexistente da sua vida humana de há tantos séculos, mas ainda bastantes séculos antes do Segundo Regresso. Sequei-te as lágrimas até adormeceres, deixei-te o meu cajado para te amparares, e parti nessa mesma noite. Cheguei a preparar a rota para ir aparecer na Boémia, sem vontade nenhuma de me mostrar todo compungido fosse a quem fosse, com o homem que eu nunca deixei de ser a berrar-me que voltasse para trás e o mito a acorrentar-me ao caminho que seguia em frente. Mas assustei-me. Estavam a acontecer cousas complexas por aquelas paragens. Tinha-te deixado demasiadamente perto de uma verdadeira zona de perigo. Voltei para trás. Ou antes, voei. Cheguei tarde. Encontrei a comunidade prostrada, os homens e as mulheres de luto, as maiores casas da escola hermetista desertas. As tropas imperiais tinham-te levado como o único troféu que aceitavam para não os exterminarem a eles.