A Primeira Luz da Madrugada
Livro Nono, Cap. 3.º, Pt. Ii
Onde o Judeu Errante e Ana Maria se travam momentaneamente de razões no que respeita ao
suicídio e à eutanásia.
Ana Maria consegue, finalmente, esboçar um sorriso.
Pois muito bem, sussurra. Estou impressionada. E então, já agora, que mais sabes tu a meu respeito?
Sei que os dois rapazes que tu andas a criar com tanto amor e carinho não são teus filhos, logicamente, à luz do que acima ficou exposto. São os filhos do teu irmão que se suicidou há três anos. Aqui mesmo. Atirou-se daquela ponte. E eu nunca logrei perceber porquê.
O rosto de Ana Maria escureceu debaixo da dança que a Lua faz com as nuvens.
Ah não?, responde ela logo, secamente, abruptamente, pronta para confrontar o homem que ainda agora era um mito medieval com as realidades incontornáveis do século XXI. Porquê, fazes juízos de
valor em relação ao suicídio?
Hannah, suspira o homem que a ama, deitando-se para trás, firmando os cotovelos na areia, e cravando o olhar na distância. Não faças perguntas tolas, que não são dignas de ti. Na minha qualidade de penitente, o que eu mais tenho feito nestes dois mil anos é vir secretamente segurar na mão dos que estão a um passo de porem fim à vida, para poder ampará-los e acompanhá-los no grande salto para o total desconhecido. E mais, se queres saber.
Lembras-te do teu avô? Do pai do teu pai, que morreu quando tu tinhas nove anos? Ouviste dizer que ele, com o seu diploma de Coimbra orgulhosamente debaixo de um braço e a menina rica mais bonita da aldeia orgulhosamente debaixo do outro, foi o primeiro médico a instalar-se naquelas paragens remotas, entre montanhas vermelhas e carvalhos centenários? Ah, e sempre gostaste dessa história, não gostaste? Pois bem, agora imagina a quantidade de vezes em que o teu avô, a meio da noite, à pressa, vinha ser chamado por alguma alma aflita, para ir a cavalo até qualquer baldio inexistente no mapa, onde lhe imploravam que acudisse a um parto difícil. Pensa nas centenas de crianças que o teu avô puxou para a luz da vida. E, dessas centenas de crianças, pensa ainda melhor quantas seriam as que vinham de lá de dentro, do que ainda era então o segredo absoluto do útero, defeituosas, anormais, impossivelmente doentes, malformadas, destinadas a viverem uma vida toda feita apenas de sofrimento, e a serem para os pobres dos pais um encargo tremendo, e tremendamente penoso. E tu sabes, Ana Maria, o que é que o teu avô fazia, nessas alturas? Sabes? Ah, claro que esta parte nunca se conta. O teu avô, rápido no diagnóstico e impiedoso na aferição das consequências, não mexia nem um músculo da cara e deslocava-lhes a cervical. Assim mesmo. O golpe do coelho. E dizia, apenas, com toda a calma e segurança deste mundo, para que ninguém se sentisse inseguro embora ele por dentro gemesse, que a criancinha já tinha nascido morta. Sabia que assim, e só assim, podia evitar ainda mais sofrimentos às famílias que já os tinham de sobra. Cumpria a sua missão. Sempre que matou um recém-nascido, praticou um acto indizível de misericórdia. E logo a seguir, claro, já não conseguia dormir. Ana Maria, quem julgas tu que vigilava com ele nessas alturas? Quem é que lhe punha a mão no ombro no momento de executar a sentença? Tu deixa-te de palermices, mulher. Eu não faço juízos de valor nem sobre a eutanásia, quanto mais sobre o suicídio. Até tu voltares a fazer de mim um homem, o meu papel nestoutro mundo era expiar todos os sofrimentos de todos os que tinham perdido ou expulsado o mesmo Cristo que eu expulsei da soleira da minha porta. Amparei o teu avô, assim como tentei amparar o teu irmão. Mas eu, que sempre tinha compreendido tão bem as motivações dos que escolhem voluntariamente pôr fim à vida, no caso dele não consegui compreender nada. Ele não falava. E tinha deixado de pensar.
Isso é porque já ninguém pensa, atalha finalmente Ana Maria, num frémito de impaciência. Já ninguém tem tempo.
É possível, admite Ashverus com ternura. Mas eu podia ao menos ter pressentido, suspeitado. E no entanto só consegui agarrar-lhe na mão. Mas não o entendi.
Porquê?, pergunta Ana Maria.
Porque, do que eu conseguia ver, tudo lhe corria bem, explica Ashverus. Tinha uma casa bonita, uma noiva fermosa e deveras jovem, dois filhos promissores, herdou do vosso pai as estufas das orquídeas, não foi? E, nessoutro negócio, de que ele aliás aparentava gostar deveras, não lhe faltava procura. Parecia-me uma imagem perfeita. Vigilei com ele, tentei sondá-lo, mas, por uma vez em dois mil anos, não percebi.
É porque desconheces a realidade do Terceiro Milénio, meu querido mito medieval que só agora entraste para o número dos vivos, responde a mulher amada com um sorriso que é tão irónico quanto triste. Esse efeito de ilusão de óptica que tanto te confunde tem um nome. Chama-se realidade virtual. O que tu vês não passa da imagem que a nossa civilização idealizou para nós. Toda a gente tenta pertencer a essa imagem, porque ninguém gosta de ficar de fora, não é? Mas, por baixo da imagem, está toda a angústia, toda a crispação, toda a dor e toda a revolta daqueles milhares, milhões, de entre nós, que não se identificam minimamente com ela. E que, às vezes, vão até onde tiverem que ir para conseguirem saltar fora da Matrix.
Então o teu irmão não estava bem?, questiona-se Ashverus. O meu irmão estava completamente sozinho neste mundo, protesta Ana Maria, irritada sem saber porquê. Demorou imenso tempo, com dois casamentos falhados pelo meio, até se sentir psicologicamente e financeiramente pronto para ter filhos. Não me faças falar agora, senão eu nunca mais me calo, mas esta de ser preciso esperar até tarde para ter filhos foi uma das maiores brutalidades com que a Matrix distorceu grosseiramente o biorritmo humano. A mulher que finalmente lhe deu os seus dois rapazinhos gostava dele, sem dúvida; mas estava na cara que ainda gostava mais do dinheiro das orquídeas. Assim que nasceu o mais novo, começou logo com aquelas partes das dores de cabeça, e do estar cansada, e do stress, eu sei que tu desconheces esta palavra mas podes tirá-la pelo sentido. Como o meu irmão já não estava disposto a meter-se em mais casamentos, ela então só falava em pôr as orquídeas no nome dos dois, para poderem legá-las aos meninos sem problemas. O meu irmão, coitado, só queria paz e harmonia. A mais de meio da sua vida, queria poder gozar-se bem da família, que é um sonho que nós agora temos e não conseguimos deixar de ter.
Não percebo, interrompe Ashverus num sussurro.
Faz parte integrante da mesma imagem que a nossa civilização nos impõe todos os dias, explica Ana Maria, agora paciente, quase comovida com a inocência do seu homem, como o seu homem antes se comoveu com a inocência da noviça das agostinhas. Esta, especificamente, é a imagem da família feliz. A gente sonha casar por amor, ter filhos, e viver em família com a paixão sempre a animar-nos a alma.
Mas isso é impossível, estranha Ashverus. Entre os outros animais acho que outrossim existem famílias dessas. Mas, entre os humanos, nunca antes se ouviu falar de tal cousa.
Pois é aquilo de que agora mais se fala, retorque Ana Maria enquanto encolhe os ombros. Disso e do dinheiro, porque é evidente que as famílias nunca conseguem ser verdadeiramente felizes se não forem, também, bastante ricas. A miragem da família feliz é o último selo de garantia que assegura aos outros que nós, nós sim, nós triunfámos na vida. Não faz sentido, eu sei. Mas inculcam-nos esse sonho à nascença, e depois nós não conseguimos desistir de continuar a persegui-lo. O meu irmão achou que estava a dois passos da imagem perfeita que até a ti te enganou. De maneira que, contra a opinião de toda a gente mas nós na família sempre fomos teimosos, decidiu fazer um gesto grandioso, uma prova incondicional de amor, e doar-lhe mesmo a empresa, assim à barão, sem ficar com nada para ele. Olha. Foi o primeiro e único gesto grandioso que fez na vida, que oportunidades dessas agora, de facto, não há muitas, e aquilo encheu-o de orgulho e energia. Cintilou por instantes. E depois a mulher, ainda nem o pequenino tinha um ano, deitou-o fora para ir viver com um diplomata que tinha negócios em Macau. Uma relação que já vinha de longe, pelo que ficámos a saber na altura, mas só agora é que os tais negócios de Macau, finalmente entregue à China depois de cinco séculos de vigilância portuguesa, estavam a tornar-se rentáveis. E olha, pelo que ela disse ao meu irmão antes de sair porta fora, os filhos que lhe deixava entregues nem sequer eram dele. Eram do diplomata, mas o diplomata não queria crianças a empatar-lhe os negócios. Estás a ver o que é o mundo onde temos que viver hoje?
Então e quando existia o direito de pernada?, recorda-lhe delicadamente Ashverus. Hannah, rosa do mundo querida. As relações entre as pessoas não eram melhores na Idade Média. Nem na Renascença, nem na Revolução Científica, nem no Iluminismo, nem no Romantismo, e nem sequer nos tempos do Império Romano, para não falar dos Gregos que o antecederam e educaram. Já há mais de dois séculos que deixei de esperar que a humanidade viesse alguma vez a ser benigna quando deixada entregue a si própria. E como, pensando bem, apesar de tudo o canibalismo tem vindo a diminuir no mundo, de facto não percebo porque é que todos esses jogos de maldade e cobiça, a que os homens sempre jogaram, haviam de conduzir o teu irmão ao suicídio. E ainda para mais sendo ele licenciado em História, e portanto sabendo bem do que é que a casa gasta, como vós outros dizem.
O meu irmão não se suicidou por causa desta parte, replica Ana Maria, já sem grande paciência para discutir se o mundo se tornou ou não pior com o Terceiro Milénio e a invenção da Matrix. Ficou chocado, triste, sozinho, e apenas perdeu o gozo de estar vivo, que é diferente. Eu tratei-lhe dos meninos desde essa altura, e fartei-me de pedir-lhe que viesse acampar comigo para os restos mortais da casa de banhos na Travessa Pinto Correia, mas ele dizia que eu já tinha sarna que chegasse para me coçar e que a presença triste e pouco conversadora dele só ia fazer-me peso em cima. Agarrou-se às orquídeas com unhas e dentes, mesmo sem já ter parte na empresa, para que os filhos que nem sequer eram dele as herdassem em pleno florescimento. Começou a ter namoradinhas cada vez mais novas, a sair cada vez mais à noite, a acumular directas sobre directas com grandes orgias de ecstasy, olha, anestesiou-se como pôde. Não sei se as pessoas também sempre fizeram isto, amor, mas sei que, agora, fazem cada vez mais. Anestesiam-se. Atordoam-se. Entorpecem-se. Até já não darem por nada.
Dantes até havia uns que se autoflagelavam, recorda Ashverus com o seu sorriso de quem já viu tudo. E o povo chinês, do fundo da sua miséria, esquecia-se de estar vivo através do ópio, assim como os povos russos aguentavam na violência boreal a sua condição de eternos servos encharcando-se em vodca. Ou assim como o povo indiano esquecia todas as suas desventuras nos vapores do haxixe.
OK, atalha Ana Maria. Leva a taça. Eu apenas acho que, agora, o que quase toda a gente faz para alimentar a realidade virtual ainda é pior. Mas não interessa. O meu irmão perdeu o gosto pela vida, mas não deixou de estar vivo. Só desistiu quando lhe diagnosticaram o cancro do cólon. O mesmo cancro que já tinha levado o nosso pai. Exactamente na mesma idade.
Ashverus abraça-a em silêncio.
Ana Maria encosta o rosto no seu peito.
O meu irmão viu o que o meu pai passou, murmura ela do fundo do esconderijo. Viu as operações, os internamentos, os isótopos que lhe enfiavam nas veias, viu as radiações, viu tudo, como eu também vi. Viu um homem magnífico perder de dia para dia a dignidade até já praticamente nem ter identidade, até ser apenas um velhinho definhado e careca com um grande inchaço na barriga e a pele toda castanha, sem vontade própria, empurrado para cá e para lá na cadeira de rodas nos corredores da Oncologia, ao sabor das idas e vindas dos enfermeiros. E não quis passar pelo mesmo. Aquilo que o Eleazar disse ao Pasteur sobre a medicina moderna, sabes, aquilo é verdade. Mantém-nos vivos para lá dos limites da decência. Desumaniza-nos de tal forma, que já nem podemos preparar-nos devidamente para a grande viagem da morte. O meu irmão estava farto. E, dali para a frente, ia ser sempre a descer. Saltou da ponte assim que o mandaram comparecer na Oncologia. E o que eu disse aos meninos…