A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 32 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Sexto, Cap. 3.º, Anexo

 

 

Onde o Judeu Errante, visivelmente de coração cada vez mais apertado, começa a contar à

assembleia arrepiada a história do estranhíssimo destino de Hannah de Praga.

A comunidade acolheu-te com imensa felicidade, recorda Ashverus. Já toda a gente conhecia a tua história, e sentiam-se particularmente orgulhosos de poderem fazer de elo de ligação entre a lenda e o mito. Ninguém hesitou. Com a fama de grande sábia hermética que já tinhas, alojaram-te directamente na casa do rabi Loew. O grande líder espiritual da comunidade, o homem que presidia como um rochedo sobre os desígnios do povo judeu ali reunido, o grande enciclopedista que para todas as perguntas tinha resposta, para todas as respostas tinha explicação. E que era frequentemente chamado, pois que também isto é verdade, à corte imperial. Para deslumbrar os gentios com os seus truques impressionantes de magia, e assim contribuir para a manutenção da paz sempre precária que se vivia entre os dois campos. Assentavas ali como uma luva. O rabi Loew adorava-te. Dizia-te que, mesmo vestida de rapaz, eras a filha que ele nunca tinha tido. Arrumaste-lhe a casa toda, organizaste-lhe os papéis, trataste-lhe das maleitas com os unguentos e tisanas que conhecias desde os tempos de Lisboa, encheste-o de frangões que muito bem lhe afagaram o organismo cansado, e, à noite, discutias com ele as verdades das cousas com a tua habitual avidez de conhecimento. Eu sabia que estavas bem entregue, e por isso não cheguei logo. Em grande parte, agora penso que isto aconteceu porque, para mim, há séculos e séculos que o tempo tinha deixado de existir. Eu era um condenado à eternidade, tinha-me habituado a viver assim, e, por uma fracção de segundo cósmica e completamente estúpida, esqueci-me de que, contigo, o caso mudava de figura, porque tu eras menina e eras mortal. A Europa estava tão enfurecida por essoutros dias, tão tensa, tão fratricida, que fui primeiro apagar alguns fogos que ficavam pelo caminho.

A Europa continua enfurecida, tensa e fratricida, recorda-lhe Ana Maria com um sorriso de censura que está cheio de carinho. Nunca organizaste assim muito bem as tuas prioridades, meu amor.

Olha-me estoutros agora com arrufos domésticos, suspira Nestor Ibn Hâyan para Ricci Júnior. Está-se mesmo a ver que, por este andar, nunca mais chegamos ao destino horrível que, pelos vistos, consumiu a Hannah de Praga.

Chegamos, assegura Ana Maria. Claro que chegamos, porque eu também quero saber que raio foi que me aconteceu. E, se aprendi alguma coisa nestes cinquenta e dois anos da minha vida presente, é que não vale a pena discutir escalas de prioridades com os homens que amamos. Não há nada a fazer. Nesse domínio como em tantos outros, os homens e as mulheres não falam, mesmo, em línguas mutuamente compreensíveis. Aliás, em grande medida é por isso que, agora que as mulheres passaram a ter voz, mais cedo ou mais tarde, por uma razão ou por outra, de uma maneira ou de outra, acabamos todas por ficar sozinhas.

Tivessem-se deixado ficar onde estavam, atira-lhe o avô de Conrad Kyesler com um sorriso mordaz.

Ana Maria levanta os braços, o que faz imediatamente saltar o cão.

Eh. Não me digas isso a mim. Eu só herdei a emancipação feminina e a revolução sexual. Não fui eu quem as fez, boa?

Sexual, suspira Ashverus. Não suporto ouvir essa palavra na tua boca.

Amor, protesta ela com uma gargalhada brejeira. Lá porque não me salvaste a vida, também não é razão para te transformares num velho ordinário. Conta-nos lá como é que foi que eu morri, anda.

Ashverus suspira e cruza as pernas sobre a areia escura. Depois passa os dois braços em torno das pernas, e a seguir encosta o queixo aos joelhos. Tem as sobrancelhas franzidas, e o olhar perdido na distância onde só ele vê o que nunca existiu.

Hannah de Praga, prossegue, por fim. Tu entraste para dentro de uma das lendas mais estranhas e sanguinárias que o meu povo alguma vez inventou. Foi por ti que se apaixonou o Golem.