A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 19 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Segundo, Cap. 1.º

 

Onde se torna a bem dizer obrigatória uma digressão pelo universo bizarro das artes da memória, o que implica uma breve passagem pela formação e expansão da Companhia de Jesus.

Camaradas, entoa o jovem. Amigos. Como sabem, a memória sempre pareceu um fenómeno mágico, e a cultura ocidental sempre tentou descobrir formas de tirar mais proveito dessa magia. Na Europa, a Idade Média e a Renascença foram palco para o desenvolvimento de esquemas mnemónicos de estrutura elaboradíssima e elevados níveis de complexidade. Alguns destes esquemas desviavam-se francamente da norma e levantaram problemas consideráveis à ortodoxia dominante. O esquema algébrico e giratório do catalão Ramon Llul, desenvolvido no século XIII, permitia uma associação muito mais vasta de

conceitos dentro de uma perspectiva tão radicalmente inovadora, que podia de facto ser tomada como mágica para os seus contemporâneos; e, embora Llul tenha acabado por ser beatificado, isto só aconteceu tardiamente, e na sequência de graves dores de cabeça para a Igreja. Mais extremo ainda é o caso emblemático do dominicano italiano Giordano Bruno no século XVI, que invocou componentes abertamente mágicas para o seu armazenamento de verdadeiros megabites de informação, e perturbou de tal forma os valores estabelecidos, que acabou por ser queimado na fogueira. É interessante, no entanto, notarmos que o sistema ortodoxo de organização e expansão e desenvolvimento da Memória construído na Europa também pareceu absolutamente mágico aos olhos de outras culturas. É à magia da Memória tradicional que vos peço que dêem agora atenção.

No século XVI, como toda a gente sabe, o cavaleiro espanhol Inácio de Loyola esteve gravemente

doente. No decorrer dessa doença recebeu uma inspiração a que, para simplificar grosseiramente, também poderíamos chamar mágica; e, quando se curou, fundou a Companhia de Jesus. Com o vigor e a energia que caracterizam as grandes visões que estão no início do seu confronto com o mundo real, os jesuítas cresceram rapidamente em número, espalharam-se pelo mundo em missões de evangelização combinada com investigação que iam do Brasil ao Tibete, dedicaram-se a estudos pioneiros que cobriram áreas tão vastas e díspares como a Matéria Médica ou a Fotografia e a Microscopia, e não demoraram tanto tempo como isso a meter ombros ao que até aí permanecera uma missão impossível: converter a China ao cristianismo.

Até esta altura, os Chineses sempre tinham recusado a entrada aos missionários cristãos. A Companhia de Jesus prometeu-lhes a aprendizagem de um sistema de memória que os tornaria capazes de expandirem e controlarem excepcionalmente os seus conhecimentos. Esta proposta terá interessado um dos governadores, mas é claro que havia entretanto outras duas informações que tinham chegado à China e despertado o interesse do império pelos jesuítas: os grandes conhecimentos desta ordem em Matemática ocidental e em Astronomia, e também, ou talvez sobretudo, a notícia vinda de longe de que esta ordem, e só esta, conhecia verdadeiramente o segredo de transformar o mercúrio em prata pura — o que, por seu turno, como devem já ter compreendido, nos dá a indicação acima de qualquer dúvida do quanto os jesuítas já tinham começado a ser conhecidos em todo o mundo como mestres de notável liderança em Alquimia. Provavelmente mais interessado nestes últimos conhecimentos do que propriamente na arte da Memória, esse tal governador mandou notícia de que acolheria em sua casa um emissário da Companhia de Jesus, e o deixaria falar livremente sobre os mistérios da religião católica.

O homem encarregado pela Companhia de levar a cabo a missão impossível da evangelização da China foi um italiano chamado Matteo Ricci, que fez o seu trabalho preparatório em Macau antes de seguir viagem para o palácio do governador.

É assim que começa esta história.