A Primeira Luz da Madrugada
Livro Primeiro: Cap. 2.º
Onde, pela primeira vez, o professor Eleazar Melkievstein se apresenta à assembleia, depois do que reconhece em Ana Maria a misteriosa Hannah de Praga, propondo-se em seguida prestar a todos os que ali se encontram doutíssimos esclarecimentos sobre o mito do Judeu Errante; mas não sem que primeiro se revele a estranhíssima história de como estes escritos destinados aos escaninhos do hermetismo chegaram aos nossos dias em suporte informático.
Ana Maria ouviu neste preciso instante o apito do comboio que parou na estação, mesmo por trás das suas costas. Não pode pensar em partir, porque já não sabe onde está. Pode apenas olhar para a linha, assistir à saída e entrada de passageiros, inalar fundo o ar salgado da barra, para ter a certeza de que a vida ainda não mudou por completo porque as coisas materiais se mantêm intactas, como se mantêm indiferentes as indicações que lhe vão chegando aos sentidos.
Vê um homem abandonar o percurso que vem da gare e desce directamente para a praia, entre restos de cigarros e latas e garrafas escoadas nos cantos pelas marés e pelas noites. É quase majestoso de tão alto e tão esguio, todo vestido de negro, com uma cartola na cabeça e uma mala de livros gigantesca na mão direita, que lhe derreia o ombro e lhe dificulta os passos, abanando para cá e para lá os óculos de leitura pendurados ao pescoço. Tem patilhas espessas, um bigode abundante, uma cabeleira cinzenta penteada com brilhantina para trás das orelhas. À medida que se aproxima, com um sorriso afável e sem um vinco na cara, nota-se que está de casaca e que a camisa branca que veste por baixo do paletó riscado não revela uma única prega fora de sítio.
Os pescadores compõem instintivamente os kispos e os bonés à sua vista.
O mais novo, aquele que estava de bandana com dizeres relativos ao Mundial, tira-a rapidamente e esconde-a no bolso das calças.
Só o homem rouco, aquele que guarda de Ana Maria memórias que não são as dela, é que não mostra sinais de intimidação. Atira a rede verde do companheiro para cima do ombro. Afasta o cão lançando-lhe uma pedra para longe, onde ele demore tempo a voltar a escavá-la e trazê-la de volta. Avança na direcção do passageiro de braços abertos.
Quando os dois se tocam, um fogo-de-santelmo corre rápido, quase invisível, por todos os mastros de todos os barcos fundeados na baía da Cruz Quebrada.
Ninguém o vê.
Professor Eleazar Melkievstein, rejubila o ancião. Isto é que foi chutzpah. Até que enfim que chegas, para recordares a estes rústicos a verdade sobre Ashverus. Desde que começaram a fazer as limpezas do Lidl do Dafundo, estão cada vez mais descolados das teias da memória que aqui os trouxe. Ah, e de caminho deixe-me apresentar-lhe a nossa encantadora e perigosíssima Virgem de Praga.
Hannah, diz o professor numa voz profunda, ao mesmo tempo que beija delicadamente a mão de Ana Maria, molhada dos limos da praia, e da areia no pêlo do cão. Hannah, que prazer magnífico encontrá-la por fim em tão secreto recanto. Já foi bonito, em tempos não tão distantes como isso, este seu país, não foi? Na sua infância ainda cresciam musgos à compita com as heras pelo que de quase invisível resta desses muros de pedra, decerto.
Ana Maria apenas consegue dizer que sim com a cabeça.
Sempre tão tímida, sorri o professor, acariciando-lhe agora o rosto com as costas da mão.
Daquelas virgens de quem os Golems gostam, resmoneia o homem do boné estrangeiro, desencadeando imediatamente o riso ínvio dos outros.
Estás a ver, Eli?, suspira o homem sem idade que sabe que Ana Maria já se chamou Hannah e era perigosa, algures no tempo, quando vivia em Praga.
Oy, responde o professor, acenando afirmativamente. Vei. Depois, pousa a mala. Tira lá de dentro o Sepher Yetzirah, traça uma estrela de seis pontas na areia suja, e dispõe o livro no centro. Os outros calam-se logo todos, e começam a aproximar-se. O cão deita-se a quatro passos prudentes de distância, com o pêlo ligeiramente eriçado mesmo por baixo de todas as camadas de sal, e pousa a pedra que foi buscar entre as patas. Ana Maria ajoelha-se sobre os calcanhares ao lado do homem que a fez vir até si naquela manhã de nuvens baixas. Os outros imitam-na, um por um, formando um círculo. O que tem poderes aperta contra a lã húmida da sua camisola sem tempo a mulher que já nem sabe quem é. O professor vai tirando da mala livro atrás de livro, até encontrar o que procura.
Procuro aquele onde eu sou citado, Hannah. Oy, vei, perdoa-me a imodéstia, mas é tudo o que nos resta quando já não somos mais materiais que o pó e mais presentes que os pressentimentos. Descendo de Eleazar de Worms, o criador do primeiro Golem, na Alemanha do século XIII. Ou, pelo menos, era essa a
minha reputação no século XIX, e por isso os outros sábios, quando tinham dúvidas, preferiam sempre ouvir-me a mim. Depois, a seguir àquela guerra que existiu para exterminar os judeus mas o tempo ainda não tinha chegado, uma mulher que escapou ao comboio de Dachau porque estava grávida de um oficial das SS conseguiu arranjar documentos forjados e fugir para Nova Iorque, não sem ter visto primeiro degolarem-lhe o amante já do lado de dentro da janela do barco. Teve o filho da vergonha numa cave escabrosa onde os irlandeses escondiam os seus santos dos protestantes, e outrossim também lá guardavam toda a aguardente que conseguiam forjar, e toda a comida que logravam roubar. Criou esta geração do horror entre ratazanas e panelas sujas. E assim foi passando o tempo, até que um judeu polaco, também ele fugido dos campos mas agora, sabe-se lá como, bem instalado na vida, a viu no mercado, e logo ali cismou tê-la por conta. Considerou, não obstante, que seria mais prudente recorrer ao eufemismo de que precisava de uma cozinheira. Procurou-lhe então os serviços de noite, e só de manhã é que lhe aconteceu assombrar-se com os dotes culinários da imaginada prostituta. Em consequência, pagou-lhe uma viagem de autocarro para Boston. Só de ida. As duas almas solitárias fugidas ao pesadelo acabaram por casar uma com a outra e manter um restaurante caseiro no East End, de tal maneira bem-sucedido que, alguns anos mais tarde, o filho da infâmia foi estudar para Harvard sem sombra de dúvida ou de interrogação. E aí, de pólo e de jeans e lenço crimson ao pescoço, e com todo o passado afastado para as mais negras e profundas entranhas fedorentas do mundo, escreveu uma tese de doutoramento sobre o Judeu Errante, onde menciona por várias vezes os meus manuscritos. Espantoso. Eram apenas ruminações nocturnas, algumas já francamente etilizadas, bom, e ele havia o éter, o ópio, na altura usava-se, enfim. O que é certo é que nunca pensei que alguma vez aqueles pensamentos modestos, simples contribuições rabínicas, abandonassem a sinagoga. Pois bem, alguém as trancou dentro de uma caixa com excicador na salinha da cave da biblioteca principal a que os utentes chamam frequentemente “a jaula”, por causa das grades de ferro que a rodeiam. Só se entra por requisição escrita da chave, e nunca mais que três horas de cada vez, nunca mais que um leitor por sessão. Esse rapaz descobriu-me lá. Posso, então?
Ana Maria volta a dizer que sim com a cabeça.
Passou agora mesmo ali perto um barco a motor da guarda costeira, e ninguém olhou sequer para eles. Portanto, não há de certeza nada que esteja a acontecer que pareça estranho, nem mesmo aos olhos da autoridade que patrulha a manutenção da ordem no mundo conhecido. Se calhar, o círculo da Shoan tornou-se invisível. Ana Maria não sabe. Nem quer saber. Quer ouvir Eleazar reler-se pela voz de um rapazinho fruto da monstruosidade do mundo que foi estudar para Harvard sem suspeitar de nada.