A Primeira Luz da Madrugada
Proémio
Rodrigo de Deos nasceu em Britande, uma aldeia da Beira pertencente ao bispado de Lamego.
Atraído pelo procedimento exemplar dos professores religiosos do Seráfico Instituto da Austera Reforma da Arrábida, quis ser não só seu companheiro, mas também, e sobretudo, émulo das penitências que aqui se praticavam com tanta severidade. A estas se entregou com tamanho zelo que, ao fim de quatro anos de professo, se lhe atenuou o cérebro e perdeu o juízo, que lhe foi restituído pelas orações dos seus domésticos. O venerável frei Damião da Torre, que lhe lançara o hábito no segundo triénio do seu provinciado, como fosse eleito comissário-geral o tomou por parceria, e com ele percorreu todas as províncias do reino. Nesta caminhada se apresentou Rodrigo de Deos sempre descalço, numa austeridade de que nunca admitiu dispensa, indiferente ao peso dos anos e às aflições dos achaques. Nomeado Mestre dos Noviços, instruía-os menos com palavras do que com exemplos, sendo sempre o primeiro para o trabalho e o último para o descanso. Tendo subido ao lugar de provincial no ano de 1601, visitou a província descalço para servir de exemplo aos seus súbditos, na observância exacta do instituto, que sempre conservou no seu rigor primitivo. Compadecido dos perigos evidentes a que se expunham as pessoas que de Cascais e Oeiras vinham até Lisboa, por causa das águas copiosas dos rios de Laveiras, Pastora e Algés, que desaguavam na enseada do Convento de São José e que não podiam cruzar-se a não ser a vau, suplicou a D. João de Castro, então presidente do Senado, que mandasse construir pontes e estender calçadas, para suavizar a jornada a todos os que, como ele, andavam descalços — mas, ao contrário dele, antes por pobreza do que por escolha. Dificultava a execução de tão justificada súplica a grande soma de dinheiro que nela haveria de dispender-se. Porém, Rodrigo de Deos não era homem para abrir mão dos seus desígnios. Tanto insistiu no pedido, que acabou por ser nomeado ele próprio o director da obra, e em breve estavam erigidas numerosas pontes de cantaria, bem como um vasto conjunto de calçadas, assegurando uma passagem cómoda e segura a todos os que necessitavam de vir até à corte, e seguidamente recolher à distância das suas casas. Sendo por duas vezes acometido por acidentes de paralisia, e estando já demasiado debilitado para poder resistir ao segundo, recebeu os sacramentos com suma piedade e faleceu no Hospício de Lisboa a 1 de Fevereiro de 1622, quando contava 75 anos de idade, e 54 de hábito. Sepultaram-no no Convento de São Francisco, exactamente o mesmo edifício onde funcionam agora o Governo Civil de Lisboa e a Faculdade de Belas-Artes.
Uma das pontes construídas por frei Rodrigo de Deos, datada de 1618 e financiada pela Câmara de
Lisboa, atravessava o vale da ribeira do Jamor[1], exactamente no ponto onde esta entra no Tejo.
Nas vertentes desta ribeira existia uma aldeia com um forte já desqualificado, merecedora de uma estação de correio, e mais tarde de uma paragem do comboio da linha de caminho-de-ferro de Cascais, entre o Dafundo e Caxias. Começou por contar com uma fábrica de curtumes pertencente ao industrial Francisco Ferreira Godinho. Agora, é aqui que se encontram os edifícios da Lusalite.
Desde que se instalaram as calçadas na estrada real vinda de Lisboa que, num recanto junto à ponte, se montou uma cruz de pedra em cima de um pedestal com a inscrição de versículos de um hino religioso extremamente difundido na Península Ibérica, e merecedor até de especial destaque na Catedral de Burgos. Esse crucem Domini. Fugite partes adversae. Vicit Leo de tribu Juda et radix David. Alleluia,
Alleluia. Esta é a cruz do Senhor. Parti para paragens distantes[2]. Que vença o leão da tribo de Judá e da
descendência do rei David[3]. Estes dizeres são completados com Pater noster e Ave Maria, inscritos no pedestal dos dois lados do hino.
Esta oração não é uma oração qualquer. A versão latina correcta é
Ecce Cruce Domini!
Fugite partes adversae!
Vicit Leo de tribu Juda,
Radix David! Alleluia!,
o que, segundo os latinistas portugueses de maior gabarito, deve traduzir-se mais precisamente como
Eis a Cruz do Senhor!
Fugi forças inimigas!
Venceu o leão de Judá,
A raiz de David! Aleluia!
Diz a tradição popular que Santo António deu esta oração a uma pobre mulher que procurava ajuda contra as tentações do demónio. Sisto V, papa franciscano, mandou esculpir o que agora é conhecido como “lema de Santo António” na base do obelisco que fez erigir em Roma na Praça de São Pedro. Foi assim que se iniciou a tradição de inscrição destes dizeres em suportes de diversas construções.
Trata-se, evidentemente, de um pequeno exorcismo. E também nós podemos usá-lo, em português ou em latim, para nos ajudar a superarmos as várias tentações que se nos vão apresentando ao longo do nosso caminho. Para qualquer pedido mais pessoalizado, também podemos enviar um mail simplesmente remetido ao endereço queridosantoantonio@santoantonio.org.
No parapeito da ponte sobre a ribeira do Jamor, à beira da estrada que dantes seguia para Linda-a-Velha, outra cruz completa um par com a primeira, ostentando um letreiro em latim exactamente igual. Das inscrições laterais constam ainda as palavras Pelas Almas do Purgatório. A cidade — anno de 1606.
Durante vários séculos, antes de algum autarca iluminado se lembrar de substituir o original por uma cópia descaracterizada em calcário moderno, esta segunda cruz esteve partida.
E deve ser por isso que a povoação anteriormente referida se chama Cruz Quebrada[4].
Quem desce na estação do comboio, pode entrar para a praia directamente da paragem, se sair no sentido Lisboa-Cascais. Deseje antes o passageiro embrenhar-se nas ruas da povoação, e terá então a opção de virar as costas para a praia, nesta posição seguir pela direita, e daí percorrer um caminho estreito e asfaltado. Será acompanhado no percurso por gradeamentos feios levantados dos dois lados. O da direita destina-se a isolar o peão da linha do comboio. O da esquerda bloqueia o acesso a uma fábrica abandonada, completamente emparedada ao nível do chão e de vidros retirados em todas as janelas de cima, certamente na mira da subida dos valores imobiliários da zona para venda do terreno a preço substancial. É uma área grande, de momento apenas com telhados esboroados entre silvas, e pedaços esparsos do que já foram objectos.
Este caminho passa por cima da ribeira, onde geralmente é preciso tentar ignorar os vapores intermitentes do esgoto, tirando durante as marés mais acesas do fim do Verão. Finalmente, do lado esquerdo, ergue-se, a marcar a boca da entrada do túnel que passa por baixo da Marginal, uma ala de figueiras-da-índia tão raivosas, que facilmente se compreende porque é que na gíria popular são designadas antes como figueiras do Inferno. E porque é que dos seus frutos cor de sangue nasceu a lenda medieval de ser aquela a variante botânica que resultou da maldição lançada sobre a figueira mediterrânica específica onde se enforcou Judas Iscariote, ainda agarrado aos seus miseráveis trinta dinheiros. Sendo que, onde quer que esses frutos da cor das traições seladas a sangue caíssem, o chão ficaria queimado e estéril para todo o sempre. Dois mil anos mais tarde, aqui estão elas. Gigantescas, apocalípticas nos seus excessos retorcidos de verde e amarelo debruado de espinhos, uma até já com uma haste central inquietante que se ergue a vários metros de altura.
O túnel em questão encontra-se integralmente forrado a grafitos, e o seu painel central, azul e rosa com veios de amarelo-torrado e debruns a preto e branco, tem por baixo, a negro e azul, a dedicatória para o pessoal da Cruz.
Faça o viandante este trajecto, e emergirá mesmo em frente do fontanário construído diante da vedação do bairro operário Colmeia, onde as pessoas, e sobretudo as crianças que as acompanham, lavam os pés da areia que ficou lá para trás.
O Colmeia está pintado de amarelo com barras a ocre-rosado, e encontra-se, com toda a evidência, profusamente habitado, mesmo já depois de esgotadas as fundações industriais de antanho. É constituído por dois edifícios compridos, estendidos de um lado ao outro do quarteirão, com uma ruazinha no meio e vasos de flores felizes a toda a volta. Estas últimas conhecem particular concentração junto à vedação de barras de ferro pintado a verde-garrafa, que delimita o perímetro.
O conjunto marca o fim da Rua Policarpo dos Anjos, sendo certamente a toponímia utilizada uma homenagem ao capitalista do século XIX Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos, formado em Inglaterra, sócio fundador e vogal do primeiro conselho central da Assistência Nacional aos Tuberculosos, em 1890 nomeado par do Reino. Sabe-se que este personagem fez construir, na sua época, várias casas sociais na Cruz Quebrada e em Lisboa; de onde se deduz que decerto o Colmeia será agora o vestígio de uma delas.
A Rua Policarpo dos Anjos faz esquina, quase em ângulo recto, com a Travessa Pinto Correia.
Durante todo o Outono, Inverno, toda a Primavera, haja vento ou haja chuva, por muito cortante que seja o frio e muito cerrado que esteja o nevoeiro, Ana Maria faz diariamente o percurso assim descrito, sempre e sem hesitações pelo meio do fim da noite das seis e meia da manhã. Vem passear o cão à praia ainda antes de acordar os seus dois rapazes, que saem para a escola às oito.
Já não pinta o cabelo. Mas continua a usá-lo todo despenteado em cascatas assimétricas que lhe aterram em desordem à volta dos ombros, como quando era tão nova e tão promissora, e tinha tanta vida pela frente. E sim, quando está tempo para isso, e quando é essa a disposição em que ela se sente, às vezes ainda se apresenta ao mundo de umbigo de fora. Para grande embaraço dos rapazes, diga-se de passagem. É que, ainda por cima, esta mulher tem um piercing. Que diabo. Já que não consegue fazer mais grande coisa contra o descalabro do mundo, ao menos que consiga continuar a fazer ginástica e a levantar pesos todos os dias. A vida pode não ser propriamente bonita, mas isso não é desculpa para deixar a menopausa tornar tudo o que existe à nossa volta ainda mais feio. E, assim como assim, a diabetes não se torna propriamente menos perigosa com a passagem dos anos.
Em torno dos olhos castanhos de Ana Maria, a pele que ainda é morena como a de uma garota atrevida foi-se fazendo cada vez mais fina, cada vez mais frágil, até começar devagarinho a vincar-se em pregas vestigiais, e finalmente acabar por formar as primeiras rugas. São as mesmas, cada vez mais fundas, que hoje aparecem e desaparecem, com maior ou menor leveza, debaixo da ondulação das madeixas grisalhas.
Foram aparecendo umas pregas parecidas à volta da linha do sorriso.
O sorriso ficou onde estava.
Ana Maria pensou nisso várias vezes, mas concluiu sempre que não adiantava de nada separar-se dele.
Agora, por exemplo, está a tentar fechar a porta de madeira verde da sua casa numa madrugada gélida toda atravessada de gotas de humidade, e o cão entrava-lhe os movimentos porque não pára de saltar à sua volta com aquela alegria absurda que os homens e as mulheres perdem quando perdem a infância, e Ana Maria ri. Um riso aberto, franco, genuinamente divertido, o reflexo no espelho humano da animação toda cheia de antecipações felizes do seu companheiro já de há cinco ou seis anos.
No início do século XX, a mãe dela veio de Moçambique estudar para regente agrícola e conheceu o pai no curso. Acabaram os dois por casar, e aceitar orgulhosamente como herança tentar os impossíveis para gerir, pelo menos sem prejuízo, a quinta grande cheia de matas de castanheiros algures nas
montanhas do Norte[5]. Em recompensa, receberam também do bolo familiar já substancialmente esfarelado aquela casa pequenina de onde ela agora está a ver se consegue sair. Trata-se do número 1 da Travessa Pinto Correia, com a trepadeira de buganvílias na fachada castanha, e a argola para a gaiola do canário presa do muro em frente, à espera da Primavera, quando Ana Maria também lá pendura vários ninhos para os pássaros da zona virem fazer criação.
Acima da porta, do meio da buganvília, rasgam a fachada duas janelas delimitadas a pedra de calcário branco, onde ela acabou por ter que ceder à inclemência dos elementos e instalar caixilhos de alumínio, mas pelo menos bem disfarçado. E as portadas das janelas, do lado de dentro, continuam de madeira, escrupulosamente pintadas da cor do marfim para se combinarem com a parede. A única nota dissonante no conjunto é a bandeira nacional já bastante espatifada, grande, por vezes enredada pelo vento na chaminé de ferro da salamandra, que os rapazes ali puseram no tempo glorioso do Mundial e nunca mais a deixaram tirar. O pátio da frente ainda tem um banquinho de pedra antiga, um gradeamento e um portão pintados de verde, e as grelhas para o peixe no carvão todas arrumadas no canto.
Exactamente como dantes.
A fachada lateral tem ainda mais três daquelas janelas de vidrinhos em alumínio branco, um gradeamento no terraço por cima do 1B fechado, onde se desenham o estendal da roupa e o vestígio de uma trepadeira que já não dá flores nem folhas, por trás de uma fiada de vasos com cactos. E uma pinchagem a preto que Ana Maria ainda não teve dinheiro para pintar por cima nem sabe se quer, um amo-te Sónia que ali brotou numa noite qualquer.
É um vestígio de aldeia, com um telhado que ainda é manual mas que já tem plantas a crescerem-lhe em profusão por cima. As outras duas portas que dão para a rua, pintadas a castanho-escuro e com a pintura já lascada, foram fechadas há anos e nunca mais abertas.
Evidentemente, todo este lugar é o resíduo de uma história que já não é esta, e que já acabou há imenso tempo.
Dantes, quando todas as coisas pareciam fazer sentido no mundo, era a morada de férias onde a família vinha a banhos.
É a primeira casa da rua de um só quarteirão, onde apenas o número 1 e o número 3 adjacente, com as suas três janelas de saguão de tejadilhos inclinados e o resto de uma decoração em ferro art déco nas escadas, ainda respeitam a traça antiga. Tudo o resto são já só prédios de idade indefinida, pequenos e incaracterísticos.
Desde que existe enquanto tal que este recanto minúsculo da Cruz Quebrada e do mundo se chama Travessa Pinto Correia.
Sendo que este nome é a única homenagem que todo o país entendeu justificado prestar ao desafortunado cabo Pinto Correia, originário da ilha da Madeira, que partiu com Sacadura Cabral na sua viagem desesperada rumo à travessia aérea do Círculo Polar Árctico. Mas, desta vez, depois da glória precária da travessia aérea do Atlântico Sul, sem qualquer apoio, e ainda menos lugar nas notícias. Foi assim que aconteceu o que deveria ter sido um triunfo ainda mais temerário que o primeiro.
Era a família de Gago Coutinho que detinha o pelouro das influências, e também o das conivências políticas e financeiras.
E, além disso, os Portugueses tendem a pensar que quem já foi herói por um dia o melhor que tem a fazer a seguir é deixar-se ficar quieto, porque uma pessoa dar muitas vezes nas vistas é demasiado incómodo para todas as outras, em quem nunca ninguém reparou nem hão-de deixar nada de seu atrás de si.
Sacadura percebia mal estas minudências, porque ele, ao contrário do almirante, era mesmo só gostar de aviões e aventuras, e pronto.
E o cabo Pinto Correia, esse, era só mesmo não ter responsabilidades familiares e sentir uma grande lealdade pelo comandante.
Em que montanha de gelo se estilhaçou o avião nunca ninguém soube, e ainda menos se imagina o que terá pensado o cabo Pinto Correia nas suas últimas horas de vida, roubada devagar pelo frio, pela fome, pela sede — e quem sabe se espiada de longe pelos tubarões, um único medo de morte que o pobre homem confessou atormentá-lo antes da partida. E, naquela zona, naquela época, nenhuma maquineta poderia voar tão alto que os seus tripulantes não sobrevivessem garantidamente ao acidente. Sic transit gloria mundi, pensa frequentemente, a este respeito, esta mulher de 52 anos que gosta de se considerar a si própria como uma acabada relíquia medieval, brutalmente obrigada a viver num mundo que em nada de nada lhe diz respeito.
Mas enfim, da casa de Ana Maria basta subir o tal quarteirão até cima e lá está, graciosa, larga, comprida, com a linha do eléctrico da Cruz Quebrada a distingui-la entre as outras todas, a Rua Sacadura Cabral. Cobre praticamente o percurso inteiro que vai da cruz que já esteve quebrada à outra que faz par com ela; embora quase à chegada a Algés, mesmo antes do Aquário Vasco da Gama, mude de nome para Rua Direita do Dafundo.
Claro que Gago Coutinho mereceu antes uma avenida colossal a marcar um dos maiores centros de riqueza de Lisboa. Mas está certo. O almirante fez questão de só ser herói uma vez. Deixou-se registar tranquilamente pelos livros de história, e não foi morrer tragicamente em nenhum paradeiro distante como consequência lógica de ousar tentar o miraculoso sem a ajuda de ninguém. Por conseguinte, não incomodou os Portugueses assim tanto quanto isso.
Ana Maria era a mais nova dos três irmãos, e ainda se lembra dos banhos como se fosse ontem. O pai e os avós montavam residência na Travessa Pinto Correia, e dali a senhora e a criada geriam sem um desleixo a operação da praia, incluindo sardinhas, duches, toalhas, fatos de banho, bóias, barbatanas, mesa posta, roupa lavada, saladas abundantes com alfaces acabadas de apanhar na horta vizinha, ovos cozidos, costeletas de borrego, refrigerantes para a criançada e tinto da quinta em garrafões de cinco litros para os adultos — e à noite, obrigatoriamente, carvões a crepitar nos assadores de barro para grelhar o peixe que os homens tivessem trazido da pesca.
Mas, a esta parte, Ana Maria e os irmãos só assistiam nos dias especiais, quando se juntavam lá os primos todos.
Regra geral, a seguir ao almoço iam com a tia fazer a sesta para a mata, sempre debaixo das mesmas árvores, numa encosta suave e cheia de sombra onde à tarde apareciam diversas senhoras a fazer renda e a dar asas como ninguém à arte acrobática e tortuosa da conversa desbragada. Prática essa que observavam, obrigatoriamente, com as costas todas direitas e os pés descalços cruzados sobre as mantas, enquanto as crianças que vinham com elas dormiam. Ou faziam que dormiam, quando as conversas resvalavam para o vagamente espúrio. O que, ousemos a redundância, acontecia com bastante frequência.
Esta tia era uma solteirona, que estudara aturadamente os detalhes mais ínfimos da farmacopeia, da medicina e da enfermagem. Esforço imenso que empreendera com o intuito, explicitamente declarado desde o início da jornada, de acumular suficientes conhecimentos para poder vir a ser deveras útil na altura em que estivesse pronta, e que, por conseguinte, já merecesse ir para África juntar-se aos combonianos. Quando os meninos ficaram órfãos, decidiu transferir para eles e para o irmão mais velho todo o apoio que planeara vir a dar, indiscriminadamente, tanto aos pretinhos das missões como aos padres que nesse momento por lá andassem.
Morava no segundo esquerdo de um prédio de cinco andares em Benfica.
Foi o primeiro edifício que as crianças conheceram onde existia um elevador.
Durante os banhos, para os adultos terem sossego na Travessa Pinto Correia, e poderem falar de coisas sérias que tinham a ver com o regime e com a guerra e outros temas que não são para ouvidos infantis, esta tia recolhia os três irmãos em sua casa, no quartinho dos beliches onde cabia sempre mais um. Acordava-os às seis da manhã, quando já havia luz mas ainda estava fresco. Dava-lhes café com leite, e um pão com manteiga e outro com marmelada. Despachava-os com toda a limpeza sem precisar de dizer grande coisa, descia com eles no elevador já de óculos escuros e lenço amarrado debaixo do queixo, acomodava melhor a garrafa de água na malinha de mão, e, chegando à porta, espetava com uma palmada em cada rabo como quem dá o sinal de partida.
Para pouparem o dinheiro do autocarro, iam para a Cruz Quebrada a pé através de Monsanto.
Essa tia estava sempre a dizer que é tostão a tostão que se ganha o pão.
Ana Maria ainda hoje ri quando os seus rapazes protestam que todos os outros colegas têm dinheiro para as batatas fritas das tatuagens, ou para os telemóveis 3G com MSN, ou para os ténis da DC, ou para o que quer que seja que, a cada momento, esteja na moda lá na escola. Ri com gosto. E recita, com um orgulho completamente infantil, a litania das memórias das suas férias na Cruz Quebrada quando tinha a idade deles.
Admitamos que isto é forçar um bocado a nota, porque os rapazes são adolescentes, e os banhos da Cruz Quebrada só fazem mesmo parte das primeiras memórias de infância de Ana Maria. A degradação das praias da barra foi espantosamente rápida, com aquela aceleração abrupta do tempo que todo o mundo ocidental parece ter sofrido no início dos anos 60 do século XX. Pelos seus oito anos, já a casa da Travessa Pinto Correia era só o armazém das panóplias do Verão, e às vezes escritório clandestino do pai e do avô e dos camaradas deles, tendo os banhos conhecido um upgrade substancial para Carcavelos.
Mas, nessas primeiras memórias de Ana Maria, a água da Cruz Quebrada era completamente transparente, e estava cheia de cardumes de peixes pequeninos junto à linha da rebentação.
Lá mais ao fundo, nas ondas escuras para onde os adultos não deixavam ir as crianças por causa das correntes que o rio faz quando se mistura com o mar, ficava o mundo dos sonhos por onde, de vez em quando, como que numa visita cintilante da magia, passavam os golfinhos.
E, quando apareciam, eram sempre tantos. Tão grandes.
Ana Maria fixa os olhos nessa faixa de água precisa, porque acabou de chegar à praia e o cão já arrancou, numa pressa doida, a correr atrás das gaivotas. Vai um navio de guerra a atravessá-la agora mesmo pelo meio dos farrapos do nevoeiro. Metálico. Anguloso. Imenso. Qualquer coisa desnecessariamente fálica empinada na proa. Dois rebocadores sulcam as águas à sua frente, um de cada lado. Na direcção contrária vem uma barcaça a levantar remoinhos de espuma à passagem, ainda toda recortada pelo erguer demorado da luz contra os restos de guindastes e de maquinarias dos estaleiros abandonados, que já começaram a render-se à ferrugem. Mais para trás, estende-se um petroleiro antigo com a bandeira do Panamá, o rebordo preto-escuro de salsugem, uma parte da faixa vermelha já fora da linha da água.
Os pescadores que vigilaram sobre o rio durante a noite recolhem, baldes carregados, botas encharcadas, cordas ao ombro, beata apagada no canto dos lábios. Outros renderam-lhes o turno, e estão agora a começar a instalar as canas no que resta da areia que dantes era tanta e tão branca, e que agora mal se vê, entre latas de cerveja vazias, cascas de mexilhão, carcaças de esferovite, molhos de sargaço seco, e fragmentos indecifráveis dos búzios que já existiram. Ronca sobre toda a paisagem a primeira buzina fluvial da madrugada. E as gaivotas grasnam. Ou ladram. Como o cão coxo, de pêlo malhado sempre com manchas de óleo, que em tempos se enroscou contra uma das barracas de madeira dos pescadores, e que agora já nem se mexe quando passam por ele. Há sempre alguém que lhe deixa uns restos de arroz, ou esvazia uma latinha do Lidl, na tampa de panela velha virada ao contrário que lhe marca o território.
O tempo, que tudo muda.
Olha que história, eu sou da altura em que ainda nem sequer existia a ponte.
Há quem diga que, agora, no Verão, os pescadores alugam algumas destas casotas de madeira, inicialmente subornadas à vigilância da Polícia Marítima só para guardar anzóis, minhocas, fatos-macaco e termos de Nescafé, aos emigrantes eslavos clandestinos que trabalham no Lidl do Dafundo. Assim mesmo, sem vergonha nenhuma: como casas de férias. De facto, desde há uns anos que a Cruz Quebrada se transformou numa espécie de Cuba para russos pobres, o que certamente engrossou de forma dramática os lucros do Bar Âncoras, encostado ao tapume que separa a praia da linha do comboio, de onde partem umas escadinhas de ferro que vão directamente dar à entrada. Está protegido por plásticos de várias cores simultaneamente contra a chuva e contra as moscas. É aqui que os pescadores vão comer chocos com tinta, grelhados no carvão contra uma das paredes do lado, e beber vinho da casa servido em jarros de plástico. De caminho jogam às cartas nas mesas de bancos corridos, também elas decoradas por toalhas de plástico, com flores amarelas e trevos verdes e azuis entre barras vermelhas e pretas.
Da única vez que Ana Maria entrou para pedir uma garrafa de água, um homem descalço e em tronco nu, postado por trás do balcão a deitar vinagre na salada de atum, abriu o frigorífico velho, alimentado pelo gerador minúsculo instalado ao lado da grelha, e tirou de lá uma garrafa sem rótulo que já não tinha a tampa selada.
Sessenta cêntimos.
E, depois de devolver o troco de dentro de um tupperware, foi sentar-se com a salada na mesa onde estavam duas russas em biquini, ambas com verniz rosa-choque nos dedos dos pés, a beber cerveja directamente da lata.
Em Agosto o bar e a praia animam-se com a profusão das bifanas, sardinhas, frangos, ou então tainhas, que aparentemente crepitam nas brasas do meio-dia à meia-noite, e assim competem directamente com o iodo e a maresia pela posse do vento que vem do mar para a estação. Um barquinho insuflável de borracha, com um rapaz africano magrinho e risonho a manobrar os remos, assegura a ligação entre os restos de pontões agora inúteis e a areia, para quem queira ir estrear-se ou deleitar-se na arte dos mergulhos. O bar ergue contra o céu três cataventos sempre a rodar, dois com golfinhos e um com um barco de pesca, no meio de uma profusão confusa de bandeiras de Portugal e da União Europeia. As mulheres gordas da vizinhança entregam-se ao prazer dos domingos e oferecem ao sol os seus seios cansados, redondos, brancos, quase que de inspirar um aperto comovido na garganta. As russas compram biquinis brasileiros a uma mulata reluzente nos recantos discretos entre os barcos puxados para a areia e virados com o casco para cima.
O Inverno afastou da praia estes visitantes bizarros, e devolveu-a aos deserdados da cidade, aos olhos terríveis dos gatos que nunca chegam a matar a fome, às cabeças de peixe esventradas e restos de garrafas partidas trazidos pela maré, ao cão que não quer saber de nada e aos bandos arrogantes das gaivotas que vieram ao lixo.
É nesta praia urbana, parda, industrial, engolida a toda a volta por fachadas escurecidas de prédios que já não são lavados há muito tempo e de andaimes cobertos de redes verdes que anunciam novos prédios ainda mais altos, já com o primeiro trânsito da manhã a fazer-se anunciar nas curvas e semáforos da Marginal, que o cão de Ana Maria está agora a sair triunfalmente das ondas lodosas, erguendo bem alto o pau que um dos pescadores atirou para dentro de água com um assobio estridente.
Só nessa altura é que Ana Maria repara que o pau não é um pau qualquer.
Aliás, nem sequer é de madeira.
Da distância, parece-lhe que acabou de sair do fim do mundo a haste de um candelabro.
É assim, como por vezes acontece nas histórias, que Ana Maria franze as sobrancelhas. Sente num sobressalto, e sem saber porquê, que afinal ainda tem mesmo imensa vida pela frente. Qualquer coisa que ela não conhece lhe diz que avance.
E, tendo dado o primeiro passo, depois o cão trata do resto, na sua inocência impossível de animal fiel.
Quando Ana Maria volta a perceber onde está, encontra-se mesmo no meio dos pescadores que renderam o turno pouco antes da sua chegada. Uma meia dúzia, não mais. O cão fecha-a dentro do círculo no rodopio dos seus saltos e acenos de cabeça. Se não são do Leste, parecem. Se não trabalham no Lidl do Dafundo, pelo menos trouxeram grande parte da sua artilharia de pesca em sacos que vieram de lá. E, se não são clandestinos, então é porque são mais do que isso. Ana Maria não faz ideia de como é que eles ali chegaram. Mas legalmente não foi, com toda a certeza.
O mais magro, mais alto, e mais velho de todos, aquele que segura na mão um cachimbo de qualquer material que já nem deve ter nome, uma figura quase assustadora de imponência que concentrou em cada fibra dos seus músculos secos toda a dignidade que sobrou do Ocidente, arranca a haste do candelabro da boca do cão e atira-a para a mão da dona com uma piscadela de olho irrecusável.
Assim que Ana Maria segura no objecto, deixa de poder voltar para onde esteve até agora.
Acaba de entrar para dentro do mito do Judeu Errante.