A Primeira Luz da Madrugada
Livro Quinto, Adenda
Onde aparece, por fim, a primeira e muito sugestiva referência ao amor impossível vivido no fim do
século XV entre o Judeu Errante e uma certa virgem de coração ardente chamada Ana Maria.
Ai de mim, suspira o Judeu Errante. No meio de tanto sofrimento e tanta compunção, depois de tantos séculos de caminhada solitária, já me tinha esquecido completamente das mulheres e dos seus encantos. E ainda mais eu que, decerto, nunca antes na minha vida infindável, nem mesmo quando era casado e tinha filhos, havia sentido a consumir-me a alma a grande labareda da paixão. Que olhos tão grandes tinhas, Ana Maria. E com que paixão discutias comigo da janela do convento, com que deslumbre me ouvias e interrogavas, com que coragem e dedicação te dedicaste comigo à tarefa de apaziguar os espíritos aflitos e tentar soprar nos ouvidos do mundo que não há nenhuma certeza inabalável e indiscutível que não possa transformar-se num escolho no percurso do grande rio da marcha humana. Como lhes agarravas na mão. Como os prendias com os olhos quando não podias falar, como cantavas às crianças quando não podias chorar, como me apoiaste a mim quando eu próprio já me sentia cansado, como me abraçaste sem medo no contágio do amor de Deus, ou, como tu dizias porque passavas a vida a escutar às escondidas os mestres muçulmanos, o amor de fosse qual fosse o nome que as gentes cismassem dar às suas Entidades Supremas. E com que bravura me acolheste no segredo da tua cela, dentro da tua enxerga, com o que conseguias trazer contigo dos licores e dos doces do convento, para que por fim os meus ossos imortais repousassem na doçura da materialidade, como me ofereceste para dormir o lugar minúsculo ao lado do teu, como nos entrelaçávamos para adormecermos aquecidos pela respiração um do outro, e tu julgavas o quê, menina ávida de saber tudo que tão pouco sabia, julgavas tu porventura que um homem é de pau? Mesmo um desgraçado de um imortal penitente? Ah, como te desejei, como te quis, como te amei tanto, como nos mantivemos acordados, a conversar em sussurros até soarem as matinas, para conseguirmos afastar de nós as asas do desejo.
Espera aí, atalha Ana Maria, sinceramente interdita. Eu era o quê, freira?
Menina, menina, murmura Ashverus docemente, os dedos presos nas madeixas despenteadas dela. Eras agostinha, não te lembras? Tinhas cortado as tranças e entrado para o noviciado para poderes estudar, no Convento de Xabregas. Querias saber tudo. Nada te chegava. Pedias-me sempre mais. Beijavas-me as mãos e pedias-me mais. E depois rias de contente, toda abraçada a mim. E eu ali, enfeitiçado, atordoado, rogando a Deus que me tornasse mortal só para me ser permitido possuir-te e depois fugir contigo, rumo a qualquer canto do mundo onde pudéssemos continuar a estudar e a consolar, mas também a trabalhar, a ensinar, a ter filhos…
Não posso. Engravidaste-me?
Ensandeceste, minha deliciosa enciclopédia do Terceiro Milénio. Nunca seria eu a violar a tua pureza. Não podia. Nem sei se poderia fisicamente, porque espiritualmente era-me tão claro que não podia, que nunca cedi sequer ao menor dos teus avanços, aqueles sinais tão discretos, tão lindos, tão cristalinos, que estavas sempre a enviar-me. Sei que, às vezes, ficavas triste. E eu disse-te. Disse-te que tinhas o mundo todo à tua disposição, nenhuma condenação divina te afligia, não podias transformar-te na alma gémea do Judeu Errante, porque esse seria o mais triste dos destinos para uma virgem tão linda e tão ousada, tão fogosa e tão inteligente. Ah, menina, mas tu eras teimosa, teimosa, teimosa. Abraçavas-te a mim e juravas que não tinhas entrado para o convento à procura dos prazeres da carne. Que sabias tu dos prazeres da carne, pobre criança, que te desmaiavas de êxtase quando me abraçavas, me apertavas contra ti, me enchias os olhos de beijos para me encheres de coragem para a jornada do dia seguinte num país quase a explodir de tensões religiosas? Eu sentia o ardor dos teus abraços e sentia toda a pujança da tua carne que neles se revelava, era-me fácil medir até onde conseguirias chegar, a que alturas subiria eu contigo. Mas tudo isso nos estava vedado, e tu rias, rias, rias, e dizias que nada te importava.
Ashverus, suplica Ana Maria. Eu não te entendo.
Já na altura dizias isso, confirma o Judeu Errante, comovido.
Até o homúnculo está quase a ter que enxugar uma lágrima. Fra Mauro, esse, lacrimeja sem pudor. Nestor, filho de Hâyan, e aquele que foi Salvo das Águas preferem nem respirar, para que o encanto não se quebre. O avô de Conrad Kyesler disfarça e assobia, mas baixinho. Eleazar está a contemplar a cena de olhos como dardos. O mais provável é que agora, agora mesmo, em qualquer momento, Ana Maria regresse aos quinze anos e vista de novo o hábito branco do noviciado das agostinhas.
Não contem com cinema de graça, adverte-os ela, regressando numa fracção de segundo ao papel da mãe solteira estupidamente ocupada que todas as semanas vai ao Lidl. Já chega. Ashverus, não me contes incoerências. Eu já não tenho quinze anos. Até agora, vocês chamavam-me Hannah, e eu era de Praga. E afinal, de repente, sou uma freira católica de Lisboa? Tenham dó. Assim ninguém se entende.
Sempre tão ardente, sorri-lhe o Judeu Errante. Sempre com tanta pressa de estabelecer a harmonia no mundo. Nunca deixaste de acreditar que é mesmo possível que um dia toda a gente se entenda, pois não?
Estás a gozar comigo?, amua a mulher que já não sabe quem é. Estou a pedir-te tréguas, minha menina, responde-lhe o homem que há seis séculos a ama perdidamente. Deixa-me contar-te a tua história, quando ela da primeira vez se cruzou com a minha, por ordem cronológica. Está bem?
Mas depressinha, boa?, responde a mãe solteira do século XXI, que de bom grado faria agora o gesto associado de olhar para o relógio, se não fosse ter sérias dúvidas sobre aqueles relicários de outras eras conhecerem o significado do gesto de olhar para o relógio.