A Primeira Luz da Madrugada
Livro Nono, Cap. 3.º, Pt. I
Onde se revela tudo o que o Judeu Errante já sabe sobre a mulher que ama há seis séculos.
Ana Maria, murmura Ashverus, apertando-a contra si para que todo o seu calor agora tornado mortal a aqueça. Ana Maria, meu amor, minha Hannah, posso perguntar-te só uma cousa que nunca consegui decifrar?
Claro, responde ela de olhos fechados, a cabeça a repousar contra o peito dele.
Ana, arrisca o Judeu Errante, medindo bem as palavras. Porque foi que o teu irmão se suicidou?
Ana Maria dá um salto no escuro, o que provoca logo um salto ainda maior do cão, tudo isto chapinhando imensa água para cima de Ashverus.
Felizmente para o desenrolar da história, o Judeu Errante já entrou numa fase de transmutação em que a água não lhe toca. Escorre por ele como sobre as penas de um pato, como o óleo sobre o mármore.
Ash, murmura ela com as faces em fogo. Desculpa lá, mas que mais é que tu sabes a meu respeito?
Bom, quer dizer, confessa-lhe por fim o seu grande amor. Eu, como era um mito, ao contrário do que alguns dos autores que escreveram sobre mim pensavam, até podia estar em mais do que um sítio ao mesmo tempo. E, desde que te descobri na Califórnia, tenho-te acompanhado o mais que posso. Por isso, olha. Não leves a mal. Mas, realmente, sei muita cousa deveras.
Na Califórnia?, rouqueja Ana Maria.
Estiveste lá num semestre de sabática, não estiveste?, recorda Ashverus, de olhos baixos, mas com um prenúncio de sorriso nos lábios, porque sabe que, agora, vai mesmo impressioná-la a sério. Em 1998 ou 1999, não me lembro bem. Ias estudar uns panfletos portugueses com descrições de monstros e do terramoto de Lisboa, com um colega americano que tinha a colecção mas não conseguia fazer nada com
ela porque não sabia ler português[38].
Mas eu nunca te vi lá, protesta Ana Maria. E olha que tu dás bastante nas vistas.
Só quando quero, esclarece Ashverus.
E então, nessa altura, ficaste a saber o quê?, insiste ela, mais possuída pela curiosidade do que pela irrealidade do que está a acontecer.
Sei que tinhas dois irmãos bastante mas velhos, que já vieste ao mundo fora de horas, e que a tua mãe, que era diabética, morreu ao dar-te à luz, principia Ashverus, com toda a seriedade que o momento requer. Sei que nunca perdoaste a ti própria a morte da tua mãe, e que compensaste o que consideravas como a tua falta o melhor que pudeste, tratando do teu pai e dos teus irmãos, como a mulher da casa, desde pequenina. Sei que tu tens a mesma doença que a tua mãe tinha, e que por isso mesmo é que vais todos os dias ao ginásio e não páras de suar e de levantar pesos, embora toda a gente pense que é só uma vaidade tua, a mulher que quer parecer uma estátua grega até ao fim dos seus dias. Olha-me. Ouve-me. Eu conheço toda a tua dor. Sei que te apaixonaste, e que desse amor, selado por um casamento na capela da quinta das matas de castanheiros, tiveste um filho a quem sonhavas oferecer uma vida maravilhosa. Mas o Nuno nasceu com fibrose multicística. O teu jovem marido foi-se logo embora, porque percebeu imediatamente que não ia aguentar aquilo, o drama da criança sempre doente com todas as suas implicações, e sobretudo limitações, para um pobre assistente que só queria casar com a miúda mais gira da faculdade. Tu ficaste sozinha, e nunca faltaste ao teu filho. Mas ele morreu aos quinze anos. Lá na
Califórnia[39]. E depois, para ti, por causa da diabetes, já era tarde de mais para teres outros. Conseguiste trazer a caixa das cinzas para Portugal. Está enterrada no teu jardim, naquela casa antiga da Travessa Pinto Correia. E tu plantaste-lhe em cima um pé de roseira. Dessas rosas pequenas, com as pétalas cor de sangue, tão adequadas para os memoriais. Rosas de toucar, não é assim que se chamam? Dantes, na aldeia das montanhas, o teu avô tinha um caramanchão todo feito delas. Não era dado à Filosofia, mas gostava muito de jardinagem.
Ash, atalha ela, quase agressiva. Estou a ficar cheia de medo. Como é que tu sabes isso tudo?
O Judeu Errante encolhe os ombros, e volta a reprimir um sorriso.
Se não fosse por mais nada, responde ele enquanto faz correr um ribeirinho de água por cima da pele do joelho dela, então eu saberia quase todas estoutras cousas porque foi assim, tal e qual, que tu as
contaste ao Chuck Sorenson [40].
Ana Maria quase que deixa cair o queixo.
O Chuck Sorenson?, repete, como se sonhasse.
Não era assim que ele se chamava?, pergunta docemente Ashverus, agora acariciando-lhe o joelho com a ponta dos dedos. O teu colega americano, do Kansas, com agarofobia e vários outros tormentos, que sem tu saberes exactamente porquê tanto te seduzia?
Ana Maria agarra-lhe na mão com toda a força.
Ashverus, quase que implora. Por favor. O Chuck Sorenson morreu no terramoto de Stanford em 1999. O que eu lhe contei, que nunca contei a mais ninguém, devia ter morrido com ele.
Menina querida, responde-lhe o Judeu Errante enquanto a envolve num abraço profundo, doce, tranquilo. Anda, menina. Tem calma. Não tremas assim. Fecha os olhos. Encosta aqui a cabeça. Vá. Menina querida, é verdade que o corpo do Chuck Sorenson se abateu debaixo das ruínas da sua própria casa. Mas o espírito que tinha vindo habitar esse corpo, o espírito do homem que só queria ter um intervalo de oportunidade para fazer mais um bocadinho de nada do caminho contigo, o espírito, esse, continuou a sua errância pelo mundo até que fosse chegada a hora de vir buscar-te de vez.
Com a cabeça encostada no ombro do seu amor de há vários séculos, Ana Maria sente-se frágil e indefesa, e não consegue deixar de soluçar devagarinho.
Tu, naquela altura, eras o Chuck Sorenson, amor?, articula por fim, finalmente perdida já sem esperança de retorno.
Habitei-o por uns tempos, explica Ashverus. Lá mesmo para o fim, quando vocês ainda não tinham dado por isso mas já não podiam passar um sem o outro. Como sabia que ele ia morrer em breve, deixei o seu espírito ir concretizar a fantasia que ele mais estimava. Aquela de, um belo dia, ao fim da tarde, ao sair do gabinete, não pensar nem um segundo na mulher e nos filhos e nunca mais voltar para casa, lembras-te? E ficar o resto dos seus dias a trabalhar numa bomba de gasolina ignara, completamente perdida na distância, a beber cerveja e a comer hambúrgueres, assim mesmo, sem identidade nem remorsos. Tu rias-te dessa fantasia, dizias que era banal, mas era a dele. E ficas sabendo agora que chegou, por momentos, pela duração de um longo sonho, a concretizá-la. Só precisei do tempo suficiente para poder estar por um instante abençoado ao pé de ti, poder tocar-te, poder brincar contigo, talvez até finalmente beijar-te e possuir-te, como nós sabíamos que ia acabar por acontecer na noite em que o Nuno
morreu, lembras-te[41]?
Ana Maria limita-se a dizer que sim com a cabeça, enquanto lágrimas e mais lágrimas lhe rolam pelo rosto.
Ele era bastante habitável, continua o Judeu Errante. Desajustado, assustado, com medo do escuro e uma vida dupla a atormentá-lo por dentro às escondidas do mundo, enquanto, aos olhos de toda a gente, fazia questão de parecer uma pessoa completamente normal, daquelas que facilmente passam despercebidas. Foi preciso chutzpah. Mas, quer dizer, eu empatizei imensamente.
Mas tu podes fazer isso?, atordoa-se Ana Maria de dentro do abraço dele. Quer dizer, vir habitar assim, sem mais nem menos, o corpo de outra pessoa?
Os mitos podem fazer de si próprios o que muito bem lhes apetecer, responde Ashverus, apertando-a contra si com o sorriso malandro de quem está satisfeito com a sua própria prestação. Desde que não abusem, evidentemente, senão deixam de ser mitos e passam a ser fantasmas, assombrações, aventesmas, monstros, tudo o que representa o medo dos homens perante o poder das forças do mal. Lembra-te, já os deuses dos Egípcios vinham por vezes habitar as suas próprias estátuas, em noites de conjugações astrais propícias. E Dédalo fez Vénus vir animar a sua própria estátua de madeira, esfregando-a devidamente com mercúrio. Como disse aquele desgraçado que eu não deixei descansar à minha porta, em casa do meu Pai há muitas moradas.