A Primeira Luz da Madrugada
Livro Nono, Cap. 1.º
Onde, assaz aleatoriamente, se vai ter ao mistério do enantiómero.
O que é realmente importante, suspira subitamente Nestor Ibn Hâyan, acordando do repouso e subindo a voz, esteve mesmo estampado à frente dos vossos olhos desde que vós outros aqui chegaram. Mas vós outros não conseguiram chegar a ver. Ouçam-me, judeus e cristãos crivados de limites. Às vezes, sinto-me como que fatigado pelas vossas peias, quiçá oriundas do foro monolítico de onde germina o pensamento que vos guia. Eu sei o que vós outros precisam de saber. E vou dizer-vos já, de uma vez por todas, para que ninguém me acuse de ter interferido com a ordem do Segundo Regresso por questiúnculas religiosas. Ouçam. Eu não repito. Estão prontos?
Os outros acenam preguiçosamente com a cabeça, ainda meio sonhadores, francamente mais curiosos do que intimidados.
O filho de Hâyan perfila-se diante da assembleia, subitamente maior que o seu corpo.
O Lidl de Setúbal é o enantiómero.
Não é nada, protesta imediatamente o miúdo despenteado com a memória mágica dos computadores. Não é, e não é mesmo, seu assírio tão apressado que não lê os sinais como deve. Quando muito, se fosses devidamente modesto, poderias dizer que é um isómero óptico. Mas, mesmo assim, ainda tinhas que provar à malta que não tiraste essa agora da cartola para impressionar a distinta assembleia. Como é que sabes, vá, diz lá, como é que sabes que encontraste o enantiómero no Lidl de Setúbal?
Porque passei por lá à vossa procura quando por fim me rendi à evidência de que, embora conhecesse os caminhos, nunca poderia chegar a Turlock, volta a suspirar Nestor Ibn Hâyan, cheio de paciência. Entrei, e vi. Vi claramente visto, com estes mesmos olhos que aqui estão a ver-vos. É lá que fica o enantiómero. Tu entras, e do lado onde costuma estar a comida dos cães está a água, e do lado onde costuma estar a água está a comida dos cães. E vais pelas alas fora, e notas que a mesma inversão se deu com todas as outras secções, ponto por ponto, escolha única por escolha única. E outrossim, quando chegas à bancada da charcutaria e o queijo está do lado do presunto e o presunto está do lado do queijo, tens a certeza de que passaste para o outro lado do espelho. E, se foste lá parar quando te perdeste na estrada para Turlock, de certeza que não foi por acaso.
Professor, murmura Ana Maria.
Eleazar encolhe os ombros e sacode as mãos, numa espécie de desânimo irritado, o estranho sentimento de quem está entre o desejo premente de atirar a toalha para o ringue e a necessidade imperiosa de sacudir um bicho desagradável que lhe zumbe aos ouvidos.
Não sei, Hannah, responde. E responde mais alto, num tom mais sacudido, numa exasperação que nunca tinha mostrado antes. Não sei o que é o enantiómero, nem creio que tenha alguma espécie de obrigação de saber. Vivi no século XIX, e dediquei a minha vida a estudar os sinais ocultos da presença
do que nos rodeia mas que não tem nome, nem tem corpo tangível com palavras que o nomeiem. Não faz parte das minhas áreas de especialidade, e está certamente longe das minhas competências, saber explicar fenómenos visíveis, ou traduzir por simples palavras já existentes umas charadas banais que são perfeitamente decifráveis. Pela conversa daqueles dois sandeus exibicionistas, também já toda a gente percebeu que o enantiómero tem a ver com uma imagem que é simétrica da outra, onde o esquerdo está trocado com o direito, como nós próprios quando nos vemos ao espelho, é ou não é? Então pronto. O Lidl de Setúbal está invertido, é tudo o que eles estão a dizer. Olha, menina, o queijo trocou de lugar com o presunto. Pronto. Não me parece particularmente interessante. E mais me parece, mas é que parece mesmo, que estes jovens descuidados e imprevidentes estão a convocar para a conversa os que acabaram por fazer nascer a seita dos profanos do século XX. E, da maneira como toda esta preparação para o Segundo Regresso está a organizar-se, não tarda nada ainda aparece aí um deles. Sim, Ana Maria, não olhes para mim com essa cara. Não tarda aí aparece-nos na Cruz Quebrada um imediatista que participou na criação desse infame século XX, e depois ainda temos que ser nós a aguentar-lhe os brios triunfalistas.
Oy, vei, e a ouvir-lhe as explicações pauperrimamente materiais com que eles tiraram o significado e a beleza a tudo, porque só é belo o que tiver no mistério a sua raiz mais profunda, e esses iconoclastas deram cabo dos mistérios, esqueceram-se de regar as plantas, fizeram murchar as raízes, e trouxeram a civilização para esta tristeza límbica em que já nem sequer podemos esperar o Segundo Regresso com um mínimo de dignidade. Odeio-os a todos, e não quero ter que apertar a mão a nenhum deles, portanto ou se calam já ou eu apanho a diligência e volto para de onde vim.
Mas o professor veio de comboio, raciocina Ana Maria em voz alta, antes mesmo de Ashverus ter tempo de lhe enfiar com a valente cotovelada que deveria tê-la feito calar-se a tempo.
Odeio comboios, grita Eleazar, agora francamente furioso, já a caminhar sobre as areias escuras em passadas largas, que aliás enchem logo o cão de entusiasmo e o fazem correr em círculos em torno do cenário. Deram cabo do tempo, e da reverência pela distância, e abriram o caminho para toda a panóplia de máquinas imbecilizantes que vieram a seguir, cada vez mais rápidas, cada vez mais desumanas, a afogar os humanos com tralha, tralha, tralha de tremendo vácuo, que lhes permite fazerem tudo cada vez mais depressa, mas os castiga obrigando-os também a terem cada vez menos tempo. Ouviu, sua moderna? E agora tire-me daqui este cão, ou eu faço-lhe o que me apetece fazer a esse imbecil dos cristais.
Cristais, repete Ana Maria, esperando que esta seja uma referência ao mundo em que a magia era real e o tempo ainda respirava, apaziguando assim a cólera súbita de Eleazar.
O que ela foi fazer.
Tu não sabes, miúda?, segreda-lhe em tom conspiratório o rapaz despenteado. O francês dos cristais? Não conheces?
Até parece que a situação está a compor-se. Um francês dos cristais deve ser um grande alquimista da corte de Rudolfo II.
Eleazar solta um urro.
Calem-se, seus moços sandeus e manganões de todo em todo destituídos de escrúpulos. Não o chamem. Sobretudo, não o chamem.