A Primeira Luz da Madrugada
Livro Primeiro: Cap. 2.º, Pt. Vi, 1.ª Adenda
Onde se interrompe a descrição do Lidl enquanto metáfora cabalística, para que possam
desenvolver-se colateralmente algumas disputas, vindas sobejamente a propósito e assim plenamente
justificadas, sobre o papel dos Anjos na rotação dos corpos celestes, bem como sobre a forma da
Terra.
Camaradas, alerta o professor. Que esta seja a última paragem no nosso longo caminho de volta à história do Judeu Errante tal como eu a leguei à posteridade, para ser redescoberta por um doutorando de passado oculto que foi a Harvard buscar o seu saber. Isaac Newton, como a maioria dos pensadores europeus do século XVIII, teve que agonizar com a questão de como teria Deus conseguido, em apenas
seis dias, criar toda a complexidade espantosa que os fenómenos da Terra e do Universo encerram, na época já suficientemente conhecidos para serem vertiginosos em número e vastidão enquanto obra acabada de um Criador único. A sua explicação pessoal, arriscada, é certo, mas aceite por muitos, foi que os primeiros seis dias da Criação tinham sido inacreditavelmente mais longos do que aqueles que conhecemos agora, estas voltas simples da Terra em torno do eixo que duram sempre 24 horas. Para o Princípio, Newton propôs rotações terrestres que poderiam demorar dezenas de anos cada uma, provavelmente, até, como na Epístola de Pedro aos Coríntios, um milénio cada uma. Isto daria muitíssimo mais tempo a Deus para operar todas as Suas obras fabulosas, em toda a sua fabulosa complexidade. Depois disso, completado o Trabalho, instalado o Universo no quadro de todas as suas Leis, Deus mandou vir os anjos. E mandou-os começarem a empurrar a Terra, para que acelerasse a rotação sobre o seu próprio eixo. Enquanto acelerava, a Terra inclinou-se. E foi rodando cada vez mais depressa, até se estabilizar na rotação de 24 horas que tem hoje. E, com a pressão gerada pela aceleração do movimento, ficou achatada nos pólos e deixou de ser completamente esférica, porque Deus nunca descura as consequências dos Seus gestos quando toca a deixar inscritas, onde quer que possamos vê-las, as marcas da deformidade causada pelo Pecado Original.
Qual deformidade?, interroga-se Ana Maria, sempre a tentar manter o raciocínio à superfície destas águas primordiais que desconhece.
A Terra achatada nos pólos, miúda, atira-lhe o rapaz despenteado. Topas? Se deixou de ser perfeitamente esférica, então deixou de ser perfeita. A esfera é o símbolo da perfeição, ou será que os modernos não sabem sequer estas coisas?
Já ninguém os ensina a ler, defende Ashverus com brandura. Para que saibas, Ana Maria, o Kepler também não gostou nada de descobrir que as órbitas dos planetas são elípticas. Até ele chegar ao ponto a que chegou nos seus estudos, as órbitas dos planetas sempre tinham sido esféricas. E, tal como a esfera é o símbolo da perfeição, assim a elipse é o símbolo do caos. Outra marca do Pecado Original, provavelmente.
Essoutros astrónomos europeus, resmunga Nestor Ibn Hâyan. Essoutro Kepler. Essoutro Newton. Grande cousa, imaginar os anjos a empurrarem a Terra em torno do seu eixo. E vós outros reverenciam-nos, e reverenciam as ideias deles como se fossem mesmo deles. Pois eu digo-vos, e falo do que sei. A ideia dos anjos a empurrarem as luzes astrais à volta de um eixo, o vosso Newton roubou-a. Roubou-a ao nosso Cosmas Indicopleustes, que já tinha imaginado os anjos a empurrarem as estrelas e os outros corpos celestes em torno da Terra no século VI, seus admiradores desatentos de luteranos e anglicanos iluminados.
Recebem-no os murmúrios previsíveis.
Cosmas quê?
Quem?
Um nestoriano, por lógica decorrência, proponho eu com toda a modéstia.
Mas imaginou os Anjos como, se as estrelas se moviam desde o Ptolomeu na órbita das estrelas fixas, e isto já vem do século II?
E eu é que sei?
Cosmas Indicopleustes, formaliza-se o filho de Hâyan, era um mercador egípcio do século VI, sim, que dizem ter viajado no Índico até para lá da Taprobana. Magnífico observador de gentes, histórias naturais e costumes, familiar até com as ervas utilizadas pelos Egípcios para embalsamarem as suas múmias. Aos quarenta anos converteu-se ao nestorianismo e entrou para um mosteiro no Sinai, onde escreveu a Topografia Cristã, o único verdadeiro tratado que defende a teoria da Terra plana. No desenho de Cosmas, por cima da arca formada pela Terra ficava a abóbada celeste como uma tenda. E, a meio caminho entre o tecto da tenda e a tampa da arca, acima da órbita do Sol que desaparecia à noite por trás de uma montanha gigantesca levantada a norte, ficava o domínio dos anjos que, quando desaparecia a luz, empurravam os outros corpos celestes de um lado para o outro do tecto da tenda. E tanto faziam para que os homens, observando o seu movimento, se lembrassem da atenção perpétua que Deus lhes dedica. Ora recebam esta revelação com a devida vénia.
Grande coisa, ataca logo o rapaz loiro com memória de computador. Sabes tu, porventura, que o pessoal da Polinésia, muito antes do século VI e sem qualquer espécie de contacto com as nossas
culturas, também achava que a Terra era uma meia-esfera, com a base a fazer de chão e o arco a fazer de tenda, onde estavam as estrelas? Até chamavam a essa tenda “o tecto da viagem”, porque se orientavam pelas estrelas para navegarem. Pelas estrelas e pelas correntes, que eles detectavam com toda a precisão encostando à superfície do mar a pele sensível do escroto. Ora tomem. Depois não digam que não vos avisei. Há sempre mais do que o que a gente pensa. Sempre, sempre, sempre.
Júnior, pede Ana Maria com o mesmo sorriso, simultaneamente doce e firme, com que fala aos seus rapazes. Vocês por favor deixem-se lá de exibições de erudição, que há uma parte desta história que se cruza com a minha vida, e, essa, eu quero mesmo conhecer. Então tu usaste o Lidl como uma metáfora para a Cabala, amor? Como é que isso se faz?