A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 17 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Primeiro: Cap. 2.º, Pt. Vi, 3.ª Adenda

 

Onde, muito inesquecivelmente e já mesmo no limite da credibilidade, se regista o momento prodigioso e irrepetível em que se dá a transfiguração de Ana Maria.

Vamos fazer um teste, propõe Ashverus com um sorriso misterioso, começando a traçar na areia uma linha recta. E, se passares neste teste, ocorrerá de imediato a tua transfiguração. Entraste. Estás de costas para as registadoras. Principias a caminhar ao longo da primeira ala. Do teu lado direito, à medida que avanças, do princípio para o fim, tens, por ordem infalível e precisa, primeiro a água, depois o vinho de mesa, depois as bebidas alcoólicas das categorias de aperitivos e digestivos, depois os amendoins, depois as batatas fritas, depois o Ice Tea, depois o Compal Néctar, que regra geral é só de pêssego e de pêra, enquanto o Compal Light é sistematicamente de manga-laranja. E, finalmente, aparecem os leites. Correcto?

Correcto.

Vês que sabes? Então indica-me, por ordem, tudo aquilo por que passaste ao teu lado esquerdo, do princípio ao fim da primeira ala.

Primeiro as sementes e por vezes mais algumas coisas de jardinagem, depois o vinho rasca com que tempero a carne e a salada, depois a cerveja, depois a coca-cola, depois a Fanta, depois mais Ice Tea, e a seguir várias caixas diferentes com rótulos em muitas línguas que dizem sempre Fruit Drink, e finalmente começam os caixotes dos legumes e das frutas, com uma balança por cima, se não me engano.

Óptimo. Está certíssimo. Agora vamos alternar nos conteúdos da grande bancada refrigerada do fundo. Vá, eu digo primeiro. As margarinas e as manteigas.

Os fiambres.

Os arenques.

O bacon.

Fizze.

Imitação de caviar.

Salmão fumado.

Cachorros já prontos.

Queijos inteiros.

Queijos ralados.

Perfeito, exulta Ashverus. Tens o Plano todo incorporado, não vês? E não te indignes, porque precisas de tê-lo para poderes combatê-lo. Vá, vamos fazer isto mais depressa. Agora de costas para a grande bancada do fundo, avançando em direcção à caixa registadora, por ordem sequencial. À direita temos carne congelada, depois carne fresca, depois os TV Dinners, depois os temperos, depois a farinha, depois o açúcar, depois os ovos, os cereais, os mueslis, pães, chocolates, produtos para sapatos — note-se desde já que, para a Grande Máquina nos sufocar melhor e mais depressa, é bom que a sucessão tenha pontos de ruptura lógica, de verdadeira entropia epistemológica, para nos confundir a mente e nos atordoar a harmonia dos sentidos — produtos de beleza e produtos de limpeza. À esquerda?

Promoções, responde Ana Maria, acelerando ela própria o ritmo do inventário, como nos primeiros andamentos de um transe. E mais promoções, já tu chegaste aos temperos à direita e ainda eu vejo promoções à esquerda. Depois pipocas, bolachas, outros pães, mais bolachas, mais bolachas, comida para animais, e, finalmente, dos dois lados do olhar há produtos de limpeza.

Chegaste à registadora?

Não. A ala do meio não vai até ao fim. Dou mais uma volta e fico outra vez de frente para a bancada da charcutaria ao fundo. O lado direito é todo teu. Por ordem, vá. Já comecei a ver o Lidl inteiro na minha cabeça. Se te enganares, o meu cão morde-te sem eu precisar de lhe dizer nada.

O cão morde o primeiro de nós que se enganar, menina. Porque o cão foi o primeiro a saber do Plano, assim que os humanos começaram a domesticá-lo para absolutamente nenhum outro fim que o de terem, ali mesmo ao lado, ali sempre disponível e inesgotável, a gratificação imediata de um ser vivo que os adora incondicionalmente. Então vamos, rápido, rápido. À direita. De costas para a registadora, rumando de novo à charcutaria. Rolos de papel. Rolos de alumínio, de película aderente, de sacos para sanduíche, de sacos para gelo, de sacos para o congelador. Pratos e talheres e copos de plástico, todos brancos. Café. Chocolate em pó. E, finalmente, aquela grande congeladora dos doces dentro de caixas. Então e à esquerda?

Papel higiénico, enumera ela, cada vez mais viva, agora sentindo-se pronta a levantar voo à medida que se vai descartando do peso das palavras. Guardanapos brancos. Guardanapos com motivos decorativos. E, finalmente, aquela grande refrigeradora dos iogurtes e de todos os produtos lácteos afins. Toma.

Que figura geométrica representa o trajecto?

Um rectângulo grande com outro rectângulo mais pequeno lá dentro, colocado a meio de uma das arestas curtas mas sem chegar a atingir a linha da outra.

Qual é o princípio básico que preside ao traçado desse desenho?

O do labirinto.

Qual é o objectivo fundamental do labirinto?

Roubar-nos o sentido da direcção.

O que é que nos acontece quando esse sentido nos falta?

Desligamos o pensamento e perdemos o critério.

O que é que pode acontecer-te quando dás mais uma volta no labirinto?

Ver qualquer coisa que ainda não tinha visto, e, como já estou sem critério, enfiá-la também no carrinho, porque, de repente, acho que preciso dela.

O que é que perdeste?

O meu livre-arbítrio.

És boa, rosa do mundo. Muito boa. Vamos à parte mais difícil, antes que por qualquer artifício maligno do Grande Plano te tolde agora o rasgo do raciocínio. Então diz-me, porque é que o Lidl tem sempre seis portas, se contares com as exclusivamente destinadas ao pessoal e com as saídas de emergência?

Porque cada uma delas está de vigia a cada uma das seis portas da Cabala.

Porquê?

Porque cada uma das seis portas da Cabala protege um dos seis sentidos, por onde o discernimento humano pode, a qualquer momento, se estiverem todos reunidos e funcionais, atirar areia para a engrenagem do Grande Plano.

Formidável. E que podemos nós fazer, aqui, na Cruz Quebrada, para manter abertas as seis portas e assim proteger a alma humana?

Venerar em segredo uma estrela de seis pontas.

Fantástico. Fantástico. Agarra-te bem à luz da inspiração que te ilumina, porque vamos entrar agora na recta final. Diz-me então, Ana Maria. Qual é o sentimento que te inspira, no final do percurso, não poderes pagar com cheque nem com cartão de crédito?

Medo.

De quê?

De passar pela humilhação pública de não ter suficiente dinheiro na carteira, ou de o Multibanco dizer que lamenta mas que o saldo da minha conta não chega para aquele movimento.

O que é que te tornas à medida que tens medo?

Submissa.

O que é que a submissão te rouba?

A humanidade.

Ganhaste.

Caem nos braços um do outro.

Irresistivelmente, trocam um beijo muito longo. E muito lento. É a celebração milenária de um ritual de guerra, antes e mais do que a libertação súbita de uma paixão da carne.

A distinta assembleia reunida a toda a volta, que esteve suspensa das palavras de ambos e recebeu cada enumeração correcta com murmúrios e acenos afirmativos, salta de alegria e aplaude a vitória com o orgulho vibrante e destemido dos guerreiros veteranos. O cão, que durante todo este tempo não se mexeu e esteve de orelhas esticadas e pêlo eriçado, com os olhos cravados ora na dona ora no homem que a conhece desde há seis séculos, primeiro espreguiça-se de alívio e depois desata a atirar-lhes areia com as patas da frente passadas através das patas de trás, integrando a cerimónia na sua devida marcação. Ana Maria passou no teste. Ganhou no jogo. Navegou entre Sila e Caribes e conseguiu chegar ilesa à festa secreta da Cruz Quebrada onde, até àquele instante, só poderiam estar presentes homens longínquos e quase mudos, invisíveis para o resto do mundo, que trabalhassem no Lidl do Dafundo. Acaba de demonstrar que conhece por dentro o Grande Plano que anima a Grande Máquina. Agora sim, não há já quem ainda duvide de que também ela, como o seu próprio cão está a fazer neste preciso momento sem ter sido necessário que ninguém lhe dissesse nada, poderá deitar-lhe a areia indispensável para manter acesa a chama dos iluminados que desde há milénios salvaguarda o pensamento humano.

Um por um, todos os homens vêm abraçá-la e beijá-la na testa.

Ela nota com surpresa imensa que, quando o círculo da seita se apertou à sua volta, os próprios pés lhe levitaram alguns milímetros acima do chão. Mas, como todos os presentes parecem achar a levitação absolutamente normal, escolhe deixar-se acolher e não dizer nada.

Ashverus estende-lhe a mão de dedos calejados e compridos.

Anda.

Ela aperta-lhe a mão com força e sente um prazer quente e feliz correr-lhe por todos os sentidos, mas ainda hesita quando ele a puxa em direcção à linha de areia molhada onde rebentam as ondas.

O que é isto?, pergunta baixinho.

O último teste, responde o Judeu Errante no mesmo tom.

Ao tocarem nos pés do casal, as ondas recuam na areia, e as águas salobras do grande estuário fazem-se lisas como um espelho. De mãos dadas, a mulher solitária e o Judeu Errante caminham por cima da boca do mar em passos lentos. Ana Maria sente-se leve como uma pluma, animada por uma felicidade que não possui palavras que a definam nem adjectivos que a materializem.

Isto agora vai ser sempre assim?, pergunta devagar a amada de séculos ao homem apaixonado que a transporta, os olhos fechados, a cara virada para os raios de sol que estão a romper as nuvens.

Em resposta, Ashverus levanta-a no ar como se ela não tivesse peso, atira-a alto como quem joga à bola, e volta a recebê-la nos seus braços, perdendo o equilíbrio na última manobra. Escorregam os dois para dentro de água, desamparados. As ondas reanimam-se imediatamente. Saem a correr, completamente encharcados, e os outros vêm recebê-los e conduzi-los para junto da fogueira com brados de incentivo e as mantas prontas para lhes friccionarem a pele com força.

A resposta é não, se ainda tiveres dúvidas, acaba por responder Ashverus, depois de dar mais um golo no café quente. Para ti, meu amor querido, acabaram-se os efeitos especiais. Querias, não querias, andar sobre as águas todos os dias? Isso é que era bom. Até Jesus, que ainda ninguém conseguiu perceber assim muito bem ao que vinha mas lá que tinha os Seus poderes pois isso é inegável, só andou sobre as águas uma vez. Tem calma, menina bonita do coração combustível. Isto foi tudo um jogo de símbolos, destinado a permitir a tua transfiguração e consequente entrada para a seita dos que, em segredo, deitam areia para a engrenagem. Agora voltamos a ser meros homens, tirando eu que carrego comigo esta praga de ser imortal, e continuamos fora do tempo mas já esgotámos as senhas de magia que tínhamos para hoje.